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Efeitos ecológicos da talhadia, uma revisão

A talhadia (coppice, em inglês) é uma forma de manejo florestal onde as árvores são cortadas rente ao solo e seus rebrotes são conduzidos e utilizados para diversos fins, como lenha, forragem, cobertura vegetal, etc. Dado que os sistemas agroflorestais (SAF) vêm sendo apontados nas últimas décadas como sistemas agrícolas regenerativos, produtivos, resilientes e mitigadores dos efeitos das mudanças climáticas, ter conhecimentos sólidos sobre o manejo dos elementos arbóreos é crucial para manter um equilíbrio ótimo entre regeneração (produção primária) e distúrbio (podas e colheitas). Este artigo visa, então, ser um esforço inicial de compilação e sistematização da produção acadêmica sobre talhadia. Apresentamos, assim, os efeitos ecológicos da talhadia sobre a biodiversidade, as raízes, o solo e a água. As espécies atualmente mais estudadas no Brasil são o eucalipto e a acácia, vinculadas à silvicultura industrial. Na Europa e Japão, onde a talhadia era usada como manejo florestal até a II Guerra Mundial, os estudos abrangem uma diversidade maior de espécies, a maioria nativas. A falta de pesquisas envolvendo espécies nativas dos biomas brasileiros mostra uma lacuna científica e prática significativa relacionada principalmente ao futuro dos SAFs implantados nessas regiões.

Segundo Peterken (apud Buckley, 1992), as áreas florestais manejadas por talhadia na Inglaterra possuem algumas características gerais que as diferem das florestas naturais:

  1. Em talhadia, os espaços são abertos na paisagem na ordem de 5 a 10% ao ano, ao passo que, sem intervenção, as clareiras aconteceriam a uma taxa de 0,5 a 2% ao ano. Isso cria frequentemente oportunidade para espécies pioneiras.
  2. Em geral, as áreas manejadas apresentam uniformidade de idade dos rebrotes e cobrem um total de 0,5 a 10 ha. Deixadas ao natural, as clareiras se formam com a queda de entre 1 a 10 copas de árvores (até 0,4 ha).
  3. Árvores grandes e antigas geralmente estão ausentes das áreas manejadas por talhadia ou são relegadas às bordas e, na Europa, costuma ser apenas um gênero, o dos carvalhos.
  4. Para a talhadia, as árvores de estrato emergentes (com alta demanda de luz solar) são preferencialmente utilizadas.
  5. Raramente existem grandes troncos em decomposição na área.
  6. Diferente das florestas naturais, o manejo por talhadia cria áreas propícias para passagem de animais de carga.
  7. Em geral, na área manejada, os cursos d’água são retificados enquanto os banhados são drenados, reduzindo a diversidade de habitats.
  8. Devido ao distúrbio cíclico numa pequena área, as florestas manejadas por talhadia, são habitats separados do entorno e coesos, mas possuem muitas bordas, o que produz uma especialização ecológica.

Biodiversidade

Durante o séc. XX, a maioria das antigas florestas manejadas tradicionalmente foram abandonadas, enquanto que as práticas silviculturais modernas criaram “florestas” em monocultivo. Em comparação àquelas, as áreas manejadas por talhadia (em clima temperado) apresentam mais biodiversidade devido às aberturas cíclicas na paisagem. Essa “pulsação” ou distúrbio frequente altera a intensidade de luz solar que chega no solo, o microclima, o habitat dos animais.

Segundo Vacik et al. (2009), a restauração de paisagens culturais e práticas tradicionais de manejo podem ter um importante papel na conservação da natureza, no uso sustentável dos ambientes naturais e na manutenção da diversidade florestal. No contexto europeu, em poucas décadas após a II guerra mundial, Müllerová (et al., 2015) afirma que muitos hectares de florestas “abertas” se fecharam, causando perdas massivas para a conservação da biodiversidade. O refinado mosaico de lotes manejados por talhadia, formado por manchas de árvores de diferentes idades, com a presença esporádica de indivíduos antigos, possibilitava condições favoráveis para invertebrados, fungos e plantas herbáceas (Müllerová et al., 2015).

Para Buckley (2020), os distúrbios regulares nas florestas (europeias) mantêm a presença de espécies de plantas heliófilas, pássaros insetívoros, borboletas e mariposas e muitos invertebrados que dependem de flores, pólen e néctar do sub-bosque.

Áreas manejadas por talhadia passam por, basicamente, 3 fases: estabelecimento, fechamento de copas e maturação. Na primeira fase é onde se concentram a maior quantidade de pássaros (canoros e migrantes) e sua diversidade depende da densidade espacial da camada arbustiva (Krawczyk, 2022). À medida que o sub-bosque é sombreado e os arbustos desaparecem, as aves mudam para outros lugares.

Os pequenos mamíferos, como os camundongos, também preferem a diversidade de comida e cobertura disponíveis após a abertura da mata. Florestas fechadas complexas conseguem abrigar mais espécies de invertebrados, sendo que aquelas manejadas por talhadia acabam favorecendo insetos adaptados ao estágio inicial de rebrote.

A falta de árvores velhas ou madeira morta sobre o solo se mostra uma grande desvantagem ecológica desse sistema. Além de servir como abrigo e comida para muitos seres vivos, a galhada e os restos vegetais na floresta ajudam a acessar corpos d’água e atravessar córregos (como pontes naturais), desaceleram o fluxo de água e matéria orgânica nos declives e protegem o solo do sol e da chuva. Sabendo disso, praticantes preocupados com os níveis de matéria orgânica em decomposição nos lotes de talhadia constroem pilhas de troncos e galhos ou simplesmente deixam o resto da colheita no local.

Raízes

Como em outros manejos de poda, a talhadia afeta o funcionamento das raízes das árvores. Logo após a poda de citrus, por exemplo, Mazzini (2017) afirma que a planta prioriza a regeneração da parte aérea – sua fonte de carboidratos – em detrimento das raízes. As raízes mais finas são as mais prejudicadas. Entretanto, as espécies decíduas de clima temperado desviam suas energias das folhas para o caule à medida que a época de dormência se aproxima. Por isso, após o corte de inverno, os rebrotes dessas árvores obtêm entre 50 e 70% dos seus nutrientes sem depender das raízes (Krawczyk, 2022).

Solo

Comparando floresta de alto fuste e manejada por talhadia na Áustria, Shuai (et al., 2007) constatou que:

  • A massa seca do horizonte O (ectohumus) foi maior em alto fuste;
  • A massa seca de raízes na camada superficial do solo (0-5cm) foi maior na talhadia;
  • Não houve diferença significativa entre os manejos com relação à massa seca de raízes nas camadas mais profundas do solo (5-40cm);
  • A densidade aparente do solo (soil bulk density) foi menor na talhadia;
  • Não houve diferença significativa no pH do solo nos dois manejos entre 0-20cm;
  • Os conteúdos de nitrogênio e de carbono do solo foram maior na talhadia;
  • Não houve uma diferença significativa na relação C/N entre o manejo de alto fuste e de talhadia.

Diferentes lotes manejados por talhadia de ciclo curto apresentaram sequestro de carbono na ordem de 4,3 a 7,0 MT/ha/ano, o que, segundo a escala proposta por Toensmeier (apud Krawczyk, 2022), significa uma taxa moderada. Isso apenas se o produto das florestas forem outros que não carvão ou lenha.

Como as plantas lenhosas concentram a maior parte dos seus nutrientes (minerais, açúcares, proteínas, etc.) nos ramos novos (Lemieux & Germain, 2000), áreas florestais retornam entre 60 a 80% dos seus nutrientes para o solo via serrapilheira (Adegbidi apud Krawczyk, 2022). Assim, dependendo do solo, do clima e das espécies plantadas, a talhadia pode manter um balanço sustentável de nutrientes quando a galhada é dispensada no local.

Outros fatores relacionados à alta disponibilidade de nutrientes na camada superficial dos solos manejados por talhadia, segundo Hölscher (et al., 2001), são: a deposição de cinzas quando a biomassa é queimada; a fixação de nitrogênio por leguminosas pioneiras; a maior temperatura do solo devido às copas menos fechadas; e maior conteúdo de nutrientes nas folhas das espécies comumente usadas para talhadia (heliófilas de crescimento rápido).

Quanto aos impactos dos métodos de extração, Venanzi et al. (2016) apontaram que, após a colheita de rebrotes de castanha portuguesa em sistema de talhadia na Itália, as características físicas, químicas e biológicas do solo foram fortemente afetadas pelo maquinário de corte, translado e transporte das madeiras. A compactação do solo pelos veículos pesados aumentaram em 39% a densidade aparente do solo, afetando 27% da área do estudo. Em pesquisa semelhante, dessa vez com o carvalho Quercus cerris L., Venanzi et al. (2019) afirmaram que a recuperação do solo devido às operações de colheita levaram de 60 a 72 meses para a recuperação total. Além do solo, os métodos silviculturais de grande escala danificam várias plantas, atrasando a regeneração e diminuindo a produtividade dos cepos.

Água

De forma geral, a disponibilidade de água para as plantas depende do regime de chuvas combinado com a textura do solo. Regiões com precipitações distribuídas ao longo do ano induzem as plantas a um sistema radicular mais raso, assim como ciclos de corte curtos estimulam raízes subsuperficiais. Entretanto, em comparação com florestas plantadas de mudas, o sistema radicular antigo dos cepos manejados por talhadia permite buscar água muito mais profundamente.

O manejo por talhadia é um grande estímulo para crescimento das plantas, intensificando a produção fotossintética. Isso requer muita água, principalmente em climas quentes. Além disso, a maior quantidade de folhas e ramos novos nos rebrotes lança para a atmosfera mais água por evapotranspiração do que florestas de alto fuste. Lotes com mais densidade de plantas e/ou maior frequência de corte intensificam essa “perda” de água.

Em trabalho sobre resistência à seca com eucaliptos, Costa et al., (2025) mostraram que não houve diferença significativa entre o manejo de alto fuste e de talhadia em solo profundo. O estudo apontou que a talhadia não altera a arquitetura hidráulica dessas árvores, atestando o uso deste método para condições de falta de água.

Considerações finais

A talhadia é um tipo de distúrbio florestal causado pelo ser humano. Ele é caracterizado por fatores culturais, sociais, econômicos, políticos e ecológicos. Ao fazermos essa revisão bibliográfica, objetivamos expor os efeitos ecológicos da talhadia para melhor compreender suas possibilidades de uso em sistemas agroflorestais. Entretanto, como é possível observar pelas referências encontradas, a imensa maioria dos trabalhos sobre a talhadia retrata sua aplicação em climas temperados ou mediterrâneos. Para esses contextos, temos extensa pesquisa quanto a espécies, solos e intensidade de manejo. Porém, as complexidades das relações ecológicas de cada bioma dificultam fazer generalizações para além da fisiologia vegetal em geral e do funcionamento físico-químicos do solo.

Em regiões tropicais ou subtropicais úmidas, como é o caso da Mata Atlântica no Brasil, o “metabolismo” florestal é bastante acelerado. Solos pobres do ponto de vista da agricultura convencional suportaram durante milênios (desde a última glaciação) densa cobertura vegetal de plantas lenhosas sem a necessidade de fertilizantes, arado ou agrotóxicos. Produzir comida junto com a floresta vem sendo apontado por muitos pesquisadores como uma forma regenerativa, produtiva, resiliente e minimamente mitigadora dos efeitos destrutivos da agricultura difundida pela Revolução Verde e das mudanças climáticas perpetradas pelo Capitalismo desde a Revolução Industrial.

Assim, para que funcionem de maneira sustentável, os sistemas agroflorestais devem utilizar o elemento arbóreo para atender o máximo possível as necessidades humanas, de comida e medicinas à lenha e materiais para construção. Não há sustentabilidade sem que a base da sociedade seja as plantas. Portanto, o conhecimento acumulado sobre a talhadia, como sistema de manejo, se apresenta como uma ótima opção nesse sentido. Aliado ao planejamento permacultural e a agroecologia, a talhadia de pequena escala utilizando espécies nativas nos parece um dos caminhos necessários e ainda pouco pesquisados para lidar com os tempos que virão.

Referências

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