Categories
Artigos Inspiração

Era uma vez um japão sustentável, pt2

Essa é a segunda parte do texto sobre o Japão no período Edo no site Resilience.org. A tradução da primeira parte está aqui. Cortei umas partes para agilizar a leitura.

Parte 2: Sistemas de Energia

No artigo anterior, introduzimos alguns dos elementos que tornaram possível uma sociedade sustentável no Período Edo durante 250 anos. As informações vieram do trabalho de Eisuke Ishikawa, um dos principais pesquisadores do Japão no Período Edo, e seu livro “O Período Edo teve uma Sociedade Recicladora” (“O-edo recycle jijo”), publicado em 1994, Kodansha Publishing Company.

Falamos no outro texto das práticas de reutilização e reciclagem do Período Edo e nesta postagem nos concentraremos em seus sistemas de energia, mostrando que naquela época o Japão era uma nação que funcionava com base em plantas.

Como foi mencionado, a população do Japão durante o Período Edo foi de aproximadamente 30 milhões de pessoas, um nível que permaneceu relativamente constante ao longo de dois séculos e meio. A população de Edo, na época a maior cidade do mundo, foi estimada em 1 milhão para 1,25 milhões de pessoas.

Cidade de Edo

Durante aproximadamente esses 250 anos, o Japão era autossuficiente em todos os recursos, pois nada poderia ser importado do exterior devido à política nacional de isolamento.

A sociedade do Japão durante o Período Edo foi conduzida apenas com energia solar. As plantas transformam a energia solar, usando água e gás carbônico, em ramos, madeira, caules e frutas. Se você colher e usar como energia os ramos, plantas e frutas que cresceram no ano passado, você estará usando a energia solar do ano passado em forma de planta.

Durante o Período Edo, cerca de 80% dos produtos consumidos diariamente foram feitos a partir da energia solar do ano anterior e 95 por cento foi derivado da energia solar recebida nos últimos três anos. Isso significa que a sociedade Edo era uma sociedade sustentável na qual quase tudo o que era necessário para viver era fornecido pela energia solar dos últimos dois ou três anos.

A chave para usar a energia solar na fabricação de bens e materiais e reciclá-los até o final era a utilização completa de plantas. Quase todos os bens e materiais para alimentos, roupas e abrigo eram feitos de plantas. Neste sentido, quase tudo era feito de energia solar, com exceção de pedra, metal, cerâmica e outros materiais baseados em minerais.

O autor Ishikawa escreveu que o Japão no Período Edo não era apenas um “país agrícola” mas também um “país baseado em plantas” que coexistia e dependia de plantas para a produção e reciclagem de tudo.

Tome por exemplo a iluminação. A geração de energia comercial e a transmissão começaram em novembro de 1887 no Japão, quando o primeiro gerador de eletricidade movido a combustíveis fósseis foi colocado em operação. Até aquele momento, toda a iluminação no Japão vinha de lanternas de papel e velas de cera que usavam óleo e cera produzidas localmente.

O óleo para iluminação vinha principalmente de sementes de gergelim, camélia, colza e algodão. Pessoas em regiões onde pescadores caçaram baleias usaram óleo de baleia, e pessoas em áreas onde pescadores pegaram sardinhas usaram óleo de sardinha. A torta de óleo que restava da extração do óleo também era usada como um fertilizante de nitrogênio de ótima qualidade.

A cera era feita espremendo a resina das nozes de sumac (Rhus coriaria) e outras árvores. Uma vez que a produção de velas de cera era demorada e elas eram muito caras, havia compradores especializados que coletavam as gotas das velas, como comentado na postagem anterior.

Dessa forma, as pessoas usaram seu próprio poder humano para extrair energia solar dos anos anteriores armazenados em plantas e usaram essa energia para iluminação.

O arroz tem sido há muito tempo um alimento básico para os japoneses, e a palha é um subproduto da sua produção, um resíduo deixado depois de bater o arroz para obter o grão. Para cada 150 quilogramas de arroz, cerca de 124 quilogramas de palha são produzidos. A palha era um recurso precioso para uma ampla gama de usos relacionados com alimentos, roupas e abrigo no passado.

Os agricultores usaram cerca de 20% da palha produzida para fazer commodities diárias, 50% para fertilizantes e os restantes 30% para combustível e outros fins. As cinzas deixadas após a queima da palha foram usadas como fertilizante de potássio. Em suma, 100 por cento da palha era usado e reciclado de volta à terra.

Para fins de vestuário, a palha era usada para fazer chapéus trançados, capas de chuva de palha e sandálias de palha, entre outros itens. Os agricultores produziam tais itens durante a entressafra para seu próprio uso e como produtos para serem vendidos.

Em relação aos alimentos, a palha era usada para fazer sacos para o próprio arroz, suportes de panela, e cobrir materiais para produzir “nato” ( soja fermentada). Os agricultores também usavam palha para alimentar gado e cavalos e cobrir as áreas de plantio. Resíduos animais misturados com palha resultavam em composto para a agricultura.

Na questão do abrigo, a palha era um material de construção comum para fora e dentro da casa, incluindo telhado, tatamis e paredes de argila. Como você pode ver, palha, um subproduto de arroz, foi usada amplamente na vida diária e uma vez descartada ou queimada, voltava para a terra.

Além de palha, a seda, o algodão, o cânhamo e outros materiais cultivados foram usados para fazer roupas. O papel era feito da casca da árvore “kozo”. Como apenas os ramos eram cortados para obter casca, não houve preocupação de corte excessivo de árvores. E havia muitos tipos de recicladores para papel usado naqueles dias.

Antiga fábrica de papel

Para o calor, carvão feito de madeira era usado nos fogões “hibachi” e “kotatsu” (uma lareira com cobertura). A lenha era usada para aquecer banhos. Como tais combustíveis de madeira vinham do mato, em vez de florestas de longa data, toda essa energia utilizada para a vida diária era derivada da energia solar de um a dois anos passados, na forma de ramos e madeira.

O autor Ishikawa fez um cálculo interessante. Atualmente, o estoque de árvores per capita no Japão é de cerca de 50 toneladas. A taxa média de crescimento das árvores é de cerca de 5% por ano, produzindo um dividendo de 2500 kg de árvores per capita a cada ano, o que, se queimado, produziria cerca de 10 milhões de quilocalorias de energia.

Hoje, a pessoa média japonesa usa 40 milhões de quilocalorias por ano. Isso significa que um quarto de nossa exigência de energia poderia ser atendido com lenha hoje se todo o incremento anual foi queimado. Levando em conta que o Japão no Período Edo tinha cerca de um quarto da população atual, todas as suas necessidades de energia poderiam ter sido atendidas com lenha, mesmo nos níveis atuais de consumo per capita.

Quase tudo foi impulsionado pelo poder humano no Período Edo, então o consumo de energia teria sido uma fração do nível atual. Além disso, a área florestal do país era maior do que é hoje, o que significa que as pessoas no Período Edo precisavam menos do que o incremento anual natural de árvores em crescimento para satisfazer suas necessidades energéticas.

Categories
Artigos

Mais uma solução tecnológica?

Será que o Mercado vai trazer uma solução para a destruição ambiental, as mudanças climáticas ou melhorias na qualidade da comida, água e ar? Seria bom, né, ser um consumidor, só esperando, e em algum momento poder comprar a engenhoca salvadora (ou ganhar do governo ou de alguma ONG). Pois é…

Não se pode encontrar a solução de um problema, usando a mesma consciência que criou o problema. É preciso elevar sua consciência.

Albert Einstein

Vejamos, por exemplo, a energia solar fotovoltaica. Os painéis pegam uma energia que está disponível de graça quase todos os dias. Tecnicamente, ela não é renovável. É apenas uma questão de escala: o sol está queimando seu combustível e uma hora vai acabar, mas, para nós, humanos, isso ainda vai demorar muito. Então, tudo bem, sempre vai ter sol.

Por outro lado, a manufatura dos paineis não é renovável. Muito pelo contrário (como com a imensa maioria dos produtos industriais). É preciso muita energia, extração de minérios (alumínio, cobre, terras raras, etc.) transporte internacional, trabalho mal pago, e por aí vai. Toda essa energia vai numa direção e não volta.

E uma vez estragado o painel, já era. Alguém vai aproveitar uns pedaços de fio, a estrutura de alumínio, uma ou outra coisinha. O resto é lixo. Para ter uma ideia, nos EUA apenas 10% é “reciclado” (que é o mesmo que “dá pra tirar algum pedacinho que sirva”). E com a explosão do consumo de placas, em alguns anos o descarte será um problema grave.

Nem renovável, nem reciclável. Sustentável?! A expressão mais correta poderia ser “energia de fonte gratuita”, o que é um ótimo chamariz. Tudo o que não se paga é bom em si mesmo, não é? Nesse caso, a gente só não paga pro sol funcionar.

Agora, imagina se o negócio não der certo. O que acontece com a engenhoca sustentável-renovável? Pergunte pras empresas de aluguel de bicicleta e patinete movidos à bateria. Pra onde foi todo aquele lixo?

O único processo sustentável, renovável, reciclável e, na maior parte das situação, crescente é a própria vida. Somente o que é vivo consegue se transformar em vida novamente, inteiramente, completamente, sempre com a ajuda de um pouquinho de areia (minerais), bastante água e muitíssimo sol.

Então, vamos plantar floresta!

Categories
Artigos

Tradução: “Lítio, cobalto e terras raras: a corrida pelos recursos pós-petróleo”


Esse artigo foi escrito por Michael T. Klare em 25 de maio de 2021. Os grifos em itálico são nossos.


Graças ao seu próprio nome – energia renovável – podemos imaginar um futuro não muito distante em que nossa necessidade de combustíveis não renováveis, como petróleo, gás natural e carvão, desaparecerá. De fato, o governo Biden anunciou que estabeleceu a meta de eliminar completamente a dependência dos Estados Unidos desses combustíveis não renováveis para a geração de eletricidade até 2035. Isso seria alcançado com a “implantação de recursos de geração de eletricidade sem carbono”, principalmente a energia perpétua do vento e do sol.

Com outros países seguindo na mesma direção, é tentador concluir que os dias em que a competição por recursos energéticos limitados – uma fonte recorrente de conflitos – logo acabará. Infelizmente, pense novamente: embora o sol e o vento sejam de fato infinitamente renováveis, os materiais necessários para converter esses recursos em eletricidade – minerais como cobalto, cobre, lítio, níquel e elementos de terras raras, ou REEs – não são nada disso. Alguns deles, de fato, são muito mais raros do que o petróleo, o que sugere que os conflitos globais por recursos vitais podem não desaparecer na era da energia renovável.

Para entender esse paradoxo inesperado, é necessário examinar como as energias eólica e solar são convertidas em formas utilizáveis de eletricidade e propulsão. A energia solar é, em grande parte, coletada por células fotovoltaicas [painéis solares fotovoltaicos], geralmente instaladas em grande número [usinas de energia solar], enquanto a energia eólica é coletada por turbinas gigantes, geralmente instaladas em grandes parques eólicos. Para usar a eletricidade no transporte, os carros e caminhões devem ser equipados com baterias avançadas capazes de manter a carga por longas distâncias. Cada um desses dispositivos usa quantidades consideráveis de cobre para transmitir eletricidade, bem como uma variedade de outros minerais não renováveis. As turbinas eólicas, por exemplo, exigem manganês, molibdênio, níquel, zinco e terras raras para seus geradores elétricos, enquanto os veículos elétricos exigem cobalto, grafite, lítio, manganês e terras raras para seus motores e baterias.

Atualmente, com a energia eólica e solar respondendo por apenas cerca de 7% da geração global de eletricidade e os veículos elétricos representando menos de 1% dos carros em circulação, a produção desses minerais é praticamente suficiente para atender à demanda global. No entanto, se os EUA e outros países realmente avançarem em direção a um futuro de energia verde (?!), conforme previsto pelo presidente Joe Biden (dos EUA), a demanda por esses minerais disparará e a produção global ficará muito aquém das necessidades projetadas.

De acordo com um estudo recente da Agência Internacional de Energia (AIE), intitulado “The Role of Critical Minerals in Clean Energy Transitions” (O papel dos minerais críticos nas transições para energia limpa), a demanda por lítio em 2040 poderá ser 50 vezes maior do que a atual, e a de cobalto e grafite, 30 vezes maior, se o mundo se apressar em substituir os veículos movidos a petróleo por veículos elétricos. É claro que esse aumento na demanda estimulará o setor a desenvolver novas fontes de suprimento para esses minerais, mas as fontes potenciais são limitadas e serão caras e complicadas de serem colocadas em operação. Em outras palavras, o mundo poderá enfrentar uma escassez significativa de materiais essenciais. (“À medida que a transição global para a energia limpa se acelera”, observa o relatório da AIE, “e painéis solares, turbinas eólicas e carros elétricos são implantados em uma escala cada vez maior, esses mercados em rápido crescimento para os principais minerais podem estar sujeitos à volatilidade dos preços, à influência geopolítica e até mesmo a interrupções no fornecimento”).

E aqui está outra complicação: para vários dos materiais mais importantes, incluindo lítio, cobalto e elementos de terras raras, a produção é altamente concentrada em apenas alguns países, uma realidade que poderia levar ao tipo de luta geopolítica que acompanhou a dependência mundial de algumas das principais fontes de petróleo. De acordo com a AIE, um único país, a República Democrática do Congo (RDC), fornece atualmente mais de 80% do cobalto do mundo e outro, a China, 70% dos elementos de terras raras. Da mesma forma, a produção de lítio ocorre principalmente em dois países, Argentina e Chile, que juntos respondem por quase 80% do suprimento mundial, enquanto quatro países – Argentina, Chile, RDC e Peru – fornecem a maior parte do nosso cobre. Em outras palavras, essas reservas futuras estão muito mais concentradas em um número muito menor de países do que o petróleo e o gás natural, o que leva os analistas da AIE a se preocuparem com as futuras lutas pelo acesso em todo o mundo.

Do petróleo ao lítio: as implicações geopolíticas da revolução dos carros elétricos

O papel do petróleo na formação da geopolítica global é bem conhecido. Desde que o petróleo se tornou essencial para o transporte global – e, portanto, para o bom funcionamento da economia mundial – ele tem sido considerado, por razões óbvias, um recurso “estratégico”. Como as maiores concentrações de petróleo estão localizadas no Oriente Médio, uma região historicamente distante dos principais centros de atividade industrial da Europa e da América do Norte e regularmente sujeita a convulsões políticas, as principais nações importadoras há muito tempo procuram exercer algum controle sobre a produção e a exportação de petróleo dessa região. É claro que isso levou a um nível mais alto de imperialismo de recursos. Isso começou após a Primeira Guerra Mundial, quando a Grã-Bretanha e as outras potências europeias lutaram pelo controle colonial das áreas produtoras de petróleo da região do Golfo Pérsico. Essa luta continuou após a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos entraram na competição em grande escala.

Para os EUA, garantir o acesso ao petróleo do Oriente Médio tornou-se uma prioridade estratégica após os “choques do petróleo” de 1973 e 1979 – o primeiro causado por um embargo de petróleo árabe em retaliação ao apoio de Washington a Israel na guerra de outubro daquele ano; o segundo, por uma interrupção do fornecimento causada pela revolução islâmica no Irã. Em resposta às longas filas nos postos de gasolina dos EUA e às recessões subsequentes, sucessivos presidentes se comprometeram a proteger as importações de petróleo por “todos os meios necessários”, incluindo o uso de força armada. Essa é a mesma posição que levou o presidente George H. W. Bush [1989-1993] a travar a primeira Guerra do Golfo contra o Iraque de Saddam Hussein em 1991 e seu filho [George W. Bush, 2001-2009] a invadir o mesmo país em 2003.

Em 2021, os EUA não serão mais tão dependentes do petróleo do Oriente Médio, dada a extensão da exploração do xisto doméstico e de outras rochas sedimentares impregnadas de petróleo pela tecnologia de fracking. No entanto, a ligação entre o uso do petróleo e os conflitos geopolíticos quase não desapareceu. A maioria dos analistas acredita que o petróleo continuará a fornecer uma parcela significativa da energia mundial nas próximas décadas, o que inevitavelmente levará a lutas políticas e militares pelas reservas restantes. Por exemplo, já surgiram conflitos sobre as reservas offshore disputadas nos mares do Sul e do Leste da China. Alguns analistas preveem uma luta pelo controle de depósitos inexplorados de petróleo e minerais também na região do Ártico.

Então, aqui vai a pergunta do dia: a explosão na aquisição de carros elétricos mudará tudo isso? A participação do mercado de carros elétricos já está crescendo rapidamente e espera-se que chegue a 15% das vendas globais até 2030. Os principais fabricantes de automóveis estão investindo pesadamente nesses veículos, prevendo um aumento acentuado na demanda. Havia cerca de 370 modelos de carros elétricos disponíveis para venda em todo o mundo em 2020 – um aumento de 40% em relação a 2019 – e as principais montadoras revelaram sua intenção de disponibilizar mais 450 modelos até 2022. Além disso, a General Motors anunciou planos para eliminar completamente os veículos convencionais a gasolina e diesel até 2035, enquanto o CEO da Volvo indicou que a empresa venderá apenas carros elétricos até 2030.

É razoável esperar que essa tendência só se acelere, com consequências profundas para o comércio global de recursos. De acordo com a AIE, um carro elétrico típico requer seis vezes mais insumos minerais do que um veículo convencional movido a gasolina. Isso inclui cobre para a fiação elétrica, bem como cobalto, grafite, lítio e níquel necessários para garantir o desempenho, a longevidade e a densidade de energia (a energia produzida por unidade de peso) da bateria. Além disso, os elementos de terras raras serão essenciais para os ímãs permanentes instalados nos motores dos veículos elétricos.

O lítio, o principal componente das baterias de íons de lítio usadas na maioria dos veículos elétricos, é o metal mais leve que se conhece. Embora esteja presente tanto em depósitos de argila quanto em minérios compostos, raramente é encontrado em concentrações facilmente extraídas, embora também possa ser extraído da salmoura em áreas como o Salar de Uyuni, na Bolívia, a maior salina do mundo. Atualmente, cerca de 58% do lítio do mundo vem da Austrália, 20% do Chile, 11% da China, 6% da Argentina e porcentagens menores de outros lugares. Uma empresa americana, a Lithium Americas, está prestes a começar a extrair grandes quantidades de lítio de um depósito de argila no norte de Nevada (EUA), mas está enfrentando resistência dos fazendeiros locais e dos nativos americanos, que temem a contaminação de seu suprimento de água.

O cobalto é outro componente essencial das baterias de íons de lítio. Raramente é encontrado em depósitos únicos e, na maioria das vezes, é obtido como subproduto da mineração de cobre e níquel. Atualmente, ele é quase totalmente produzido por meio da mineração de cobre na caótica e conflituosa República Democrática do Congo (RDC), principalmente no chamado cinturão de cobre da província de Katanga, uma área que já tentou se separar do resto do país e ainda abriga aspirações secessionistas.

Os elementos de terras raras abrangem um grupo de 17 substâncias metálicas que estão espalhadas pela superfície da Terra, mas raramente presentes em concentrações exploráveis. Vários deles são essenciais para as futuras soluções de energia verde, incluindo disprósio, lantânio, neodímio e térbio. Quando usados como ligas com outros minerais, eles ajudam a perpetuar a magnetização de motores elétricos em condições de alta temperatura, um requisito fundamental para veículos elétricos e turbinas eólicas. Atualmente, cerca de 70% dos elementos de terras raras vêm da China, talvez 12% da Austrália e 8% dos EUA.

Uma olhada na localização dessas concentrações sugere que a transição da energia verde prevista pelo presidente Joe Biden (EUA) e outros líderes mundiais pode enfrentar sérios problemas geopolíticos, não muito diferentes daqueles gerados no passado pela dependência do petróleo. Para começar, a nação militarmente mais poderosa do planeta, os Estados Unidos, só pode obter pequenas porcentagens de elementos de terras raras, bem como outros minerais essenciais, como níquel e zinco, necessários para tecnologias verdes avançadas. Embora a Austrália, um aliado próximo, sem dúvida continuará sendo um importante fornecedor de alguns desses minerais, a China, cada vez mais vista como um adversário, é crucial. O Congo, um dos países mais conflituosos do mundo, é o principal produtor de cobalto. Portanto, não imagine por um segundo que a transição para um futuro de energia renovável será fácil ou livre de conflitos.

O próximo choque

Diante da perspectiva de suprimentos insuficientes ou inacessíveis desses materiais essenciais, os estrategistas de energia já estão exigindo grandes esforços para desenvolver novas fontes de suprimento no maior número possível de lugares. “Atualmente, os planos de fornecimento e investimento para muitos minerais essenciais estão muito aquém do que é necessário para apoiar a implantação acelerada de painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos”, disse Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia. “Esses riscos são reais, mas podem ser superados. A resposta dos formuladores de políticas e das empresas determinará se os minerais decisivos continuarão sendo um facilitador importante para as transições de energia limpa ou se tornarão um gargalo no processo.” (Ninguém fala de mexer na demanda de energia, mudar a concentração de poder ou ampliar a liberdade real das mulheres para escolherem procriar ou não.)

Entretanto, como Fatih Birol e seus associados da AIE deixaram bem claro, superar as barreiras para o aumento da produção mineral não será nada fácil. Para começar, o lançamento de novos empreendimentos de mineração pode ser extraordinariamente caro e repleto de riscos. As empresas de mineração podem estar dispostas a investir bilhões de dólares em um país como a Austrália, onde a estrutura legal é acolhedora e elas podem esperar ser protegidas de futuras expropriações ou guerras, mas muitas fontes promissoras de minerais estão em países como a RDC, Mianmar, Peru e Rússia, onde essas condições dificilmente se aplicam. Por exemplo, a atual “agitação” em Mianmar, um grande produtor de certos elementos de terras raras, já levantou preocupações sobre sua disponibilidade futura e fez com que os preços subissem.

O declínio da qualidade dos minerais também é uma preocupação. No que diz respeito aos locais de mineração, este planeta tem sido amplamente escavado – em alguns casos, desde o início da Idade do Bronze – e muitos dos melhores depósitos já foram descobertos e minerados há muito tempo. “Nos últimos anos, a qualidade dos minerais continuou a diminuir em uma série de commodities”, observa a AIE em seu relatório Critical Minerals and Green Technologies. “Por exemplo, o grau médio do minério de cobre no Chile diminuiu 30% nos últimos 15 anos. A extração do conteúdo metálico de minérios de menor grau requer mais energia, o que pressiona os custos de produção, as emissões de gases de efeito estufa e os volumes de resíduos”.

Além disso, a extração de minerais de formações rochosas subterrâneas geralmente envolve o uso de ácidos e outras substâncias tóxicas e, normalmente, requer grandes quantidades de água, que é contaminada após o uso. Esse problema aumentou desde a promulgação da legislação de proteção ambiental e a mobilização das comunidades locais. Em muitas partes do mundo, como em Nevada (EUA), no caso do lítio, novos esforços para extrair e processar o mineral enfrentarão uma crescente oposição local. Quando, por exemplo, a empresa australiana Lynas Corporation tentou burlar as leis ambientais australianas enviando minérios de sua mina de terras raras de Mount Weld para a Malásia para processamento, os ativistas locais montaram uma longa campanha para impedi-la.

Para Washington, talvez nenhuma questão seja mais intratável quando se trata da disponibilidade de materiais essenciais para uma “revolução verde” do que a deterioração do relacionamento do país com Pequim. Afinal de contas, a China fornece atualmente 70% das terras raras do mundo e possui grandes depósitos de outros minerais essenciais. Além disso, a China é responsável pelo refino e processamento de muitos materiais importantes extraídos em outros lugares. De fato, quando se trata de processamento de minerais, os números são surpreendentes. A China pode não produzir grandes quantidades de cobalto ou níquel, mas é responsável por cerca de 65% do cobalto e 35% do processamento de níquel do mundo. Embora a China produza 11% do lítio do mundo, ela é responsável por quase 60% do lítio processado. No entanto, quando se trata de elementos de terras raras, a China é surpreendentemente dominante. Ela não apenas fornece 60% das matérias-primas do mundo, mas também quase 90% dos elementos de terras raras processados.

Em termos simples, não há como os EUA ou outros países realizarem uma transição maciça dos combustíveis fósseis para uma economia de energia renovável sem se envolverem economicamente com a China. Sem dúvida, serão feitos esforços para reduzir o grau dessa dependência, mas não há perspectiva realista em um futuro próximo de eliminar a dependência da China com respeito a terras raras, lítio e outros materiais importantes. Em outras palavras, se os EUA passarem de uma postura levemente semelhante à da Guerra Fria em relação a Pequim para uma postura ainda mais hostil, e se fizerem novas tentativas semelhantes às de Trump para “dissociar” sua economia da República Popular, conforme defendido no Congresso por muitos “falcões da China”, não há dúvida: o governo Biden teria que abandonar seus planos para um futuro de energia verde.

É possível, é claro, imaginar um futuro em que as nações comecem a brigar pelas reservas mundiais de minerais essenciais, assim como já brigaram pelo petróleo. Ao mesmo tempo, é perfeitamente possível imaginar um mundo em que países como o nosso (EUA) simplesmente abandonem seus planos para um futuro de energia verde por falta de matérias-primas adequadas e voltem às guerras do petróleo do passado. Mas com um planeta já superaquecido, isso levaria a um destino civilizatório pior do que a morte.

Na realidade, Washington e Pequim têm pouca escolha a não ser trabalhar em conjunto e com muitos outros países para acelerar a transição para a energia verde, criando novas minas e instalações de processamento para minerais essenciais, desenvolvendo substitutos para materiais em falta, aprimorando as técnicas de mineração para reduzir os riscos ambientais e aumentando drasticamente a reciclagem de minerais vitais de baterias e outros produtos descartados. Qualquer alternativa é garantida como um desastre de primeira ordem – ou mais. (Contribuição de TomDispatch, 21 de maio de 2021)

Michael T. Klare leciona no Hampshire Colledge (Massachusetts) e escreve para o The Nation sobre “guerra e paz”.

Categories
Artigos

Tradução: “Sob a montanha, as brasas”

Este texto saiu no número 7 da revista francesa Nunatak e fala sobre os anos precedentes à liberação de Chiapas pelo EZLN, no México.


Sob a montanha, as brasas

Um olhar retrospectivo sobre a década que levou à revolta de Chiapas de 1994

Desde sua aparição, o movimento zapatista tem encontrado entusiasmo e solidariedade, particularmente nos círculos militantes ocidentais. Libertação nacional, indigenismo[1] , a construção de um mito em torno da personalidade do Subcomandante Marcos, e o mito comunitário são aspectos sobre os quais não escondemos nossas perguntas e não queremos tirar conclusões precipitadas demais. Além disso, o foco no discurso público do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) mascara as complexas realidades de um movimento de revolta em larga escala na selva do Sudeste mexicano, seus diferentes atores, métodos e propostas políticas que precisam ser compreendidas e debatidas. Jules nos oferece um olhar sobre a década anterior à insurreição de 1994, e o contexto social e político no qual o exército de libertação zapatista aparece.

[1] O indigenismo é um movimento político cuja principal preocupação são os povos indígenas.

Em 1º de janeiro de 1994, no sudeste de um México conhecido por sua estabilidade (relativa), milhares de combatentes indígenas realizaram uma ação que tornaria verde de inveja toda a guerrilha latino-americana: a ocupação de cinco cidades do estado de Chiapas, incluindo o centro turístico de San Cristóbal de Las Casas (com uma população de cerca de 80.000 habitantes).

As questões que assombram a mente das pessoas são principalmente: o que este exército de mendigos quer, e acima de tudo, de onde eles vieram? De qual noite?

Os elementos de resposta dados aqui tentam preencher parcialmente um vazio, deixado tanto pelos Zapatistas e sua história oficial, quanto por seus inimigos. Como às vezes é necessário esclarecer “de onde estamos falando”, posso dizer que passei um pouco menos de uma década no México entre 1990 e 2010, principalmente dentro do território zapatista. Isto implica uma visão fragmentada. Conheço um vale da selva Lacandona como a palma da minha mão, mas não os vales vizinhos, tanto do ponto de vista de sua situação político-militar como dos costumes que ali estão em vigor.

Penso que isto se aplica à maioria dos “especialistas” em Chiapas.

Não se trata de uma questão de visão política – cada um pode decidir por si mesmo – mas do que surpreendeu o mundo na época. Embora seja pretensioso argumentar que isto era previsível, é mais apropriado examinar o processo histórico que conduziu a esta situação durante a década anterior. Para isso, utilizo tanto alguma literatura confiável[1] , como testemunhos e conversas que tive com as pessoas envolvidas durante vários anos de convivência em algum lugar nas montanhas.

[1] Ver bibliografia.

A revolução que não aconteceu

Eis umas poucas palavras sobre o estado de Chiapas: historicamente habitado pelos povos maias, foi invadido pelos conquistadores espanhóis e seus partidários nahua no início do século 17. O território foi primeiramente anexado ao vice-reinado da Guatemala, antes de se juntar ao México por referendo em 1824, tornando-se o trigésimo segundo e último estado da república. Administrada em um sistema de castas de acordo com as origens étnicas, a história da Chiapas colonial é uma longa sequência de revoltas indígenas contra uma classe mestiça que vive em quarteirões fortificados. No início do capitalismo moderno, algumas famílias (Serrano, Corzo, Castellanos, Ruiz, etc.) possuíam quase todas as propriedades do estado e eram conhecidas como a “família Chiapaneca”.

Longe do centro administrativo do país, esses grandes proprietários de grandes fazendas (café, banana, gado, etc.) também forneceram os quadros político e militar. Durante a década da Revolução Mexicana (1911-1924), estes latifundiários fomentaram uma rebelião contra o poder central a fim de conseguir negociar à força um armistício que deixaria intactos seus privilégios e hierarquias. Isso explica porque, no final do século 20, ainda encontramos fincas (grandes fazendas operando em uma economia fechada) em Chiapas com peones acasillados, trabalhadores diaristas ligados por dívidas a uma propriedade que inclui a escola do chefe, a igreja do chefe, a prisão do chefe e às vezes até a moeda do chefe – uma configuração que desapareceu oficialmente do país somente a partir de 1917!

O êxodo rural dos revoltados

Após a tragédia de 1968 [2], muitos ativistas ou militantes decidiram “se enfiar no mato”. Os povos indígenas, que são tudo menos passivos diante da exploração, tornam-se um problema, tanto para os esquerdistas quanto para a Igreja em sua tendência de “teologia da libertação” [3] .

Em 1974, o bispo Samuel Ruiz [4] aproveitou a comemoração da fundação de sua cidade de San Cristóbal para organizar, sob seu patrocínio, o primeiro congresso indígena. Esta enorme assembleia geral de camponeses, que não se conheciam mas perceberam que tinham exigências comuns, teve várias consequências. Por um lado, houve a criação do Quiptic ta Lecubtesel [5], uma união camponesa independente das estruturas oficiais; por outro, a chegada do PP (grupo Político Proletário), militantes maoistas que haviam provado seu valor no norte do país, a fim de organizar o proletariado indígena para “lutar pela tomada do poder e por fim à exploração do homem pelo homem 6”, a pedido do bispo.

Este ativismo coincide com vários eventos: na última década, um grande número destes peones cativos tornou-se independente, criando vilarejos e estabelecendo-se como camponeses. Entretanto, é necessário terra para realizar este projeto, e o único reservatório é a selva que cobre um quarto do estado: a floresta Lacandona. Milhares de camponeses sem direitos ou títulos limpam a terra, estabelecem aldeias na selva e se aclimatam a um ambiente bastante hostil.

Isto é acompanhado de fricções mais ou menos violentas com os grandes criadores de gado que mordiscam na mesma selva para pasto.

[2] Revolta estudantil no período que antecede os Jogos Olímpicos, que termina com uma repressão feroz, incluindo o massacre em Tlatelolco, Cidade do México, em 2 de outubro.

[3] [Nota do editor] A teologia da libertação é uma corrente do pensamento teológico cristão que se distancia da ideologia marxista enquanto utiliza suas estruturas analíticas. Muitos dos quadros indígenas do EZLN estavam imbuídos destes princípios, que apresentam a luta política militante como o caminho para a realização do Reino de Deus na Terra.

[4] [Nota do editor] Samuel Ruiz é um dos defensores da teologia da libertação. Ele é considerado como uma das chaves para a criação do EZLN, uma vez que foi seu mediador com o regime. Como veremos, o artigo de Jules nos permite qualificar o papel que desempenhou, pois ele próprio provavelmente tentou limitar o controle de seus “paroquianos” pelo EZLN. Além disso, Samuel Ruiz revela repetidamente a natureza reacionária de sua “igreja progressista” ao se opor ao aborto e ao casamento gay, que ele descreve como “não-natural”.

[5] Nossa força para a libertação, em tzeltal.

[6] Resolução final do Congresso de 1974.

[7] Erradamente, ao que parece. De acordo com o estudo abrangente de Jan de Voos, os lacandeses originais foram exterminados ou deportados para as plantações na Guatemala no século XVIII. Diz-se que os chamados lacandeses são um grupo de “refugiados” primitivos na selva que se adaptaram ao estilo de vida dos lacandeses originais.

Em 1972, o céu caiu sobre as cabeças desses ocupadores de terra Tzeltals, Tojolabals, Ch’ols ou Tzotzils, na forma de um decreto presidencial concedendo 614.000 hectares da floresta a apenas 70 chefes de família agrupados em três vilarejos. Estes indígenas lacandeses afirmam ser os habitantes originais deste território [7], e o estado mexicano, portanto, considera justo devolver-lhes o usufruto desta terra e de seus recursos. Isto não é humanista nem desinteressado, pois parece que a floresta está cheia de petróleo, e será muito mais fácil lidar com 70 famílias que foram copiosamente evangelizadas – duas das três aldeias são constituídas por Testemunhas de Jeová – do que com dez mil posseiros, seguidores da teologia da libertação e em vias de serem expressamente politizados. Desesperados, os camponeses se voltaram para ações cada vez mais radicais: manifestações, bloqueios, marchas para a capital do estado.

A união Quiptic – após uma crise na qual os conselheiros maoistas foram expulsos por seus seguidores, que os acusavam de uma atitude paternalista – foi fortalecida ao se tornar a Unión de Uniones em 1983. Estes sindicalistas camponeses enfrentavam regularmente a repressão, seja através da prisão ou do assassinato pelas forças da lei e da ordem ou pelos pistoleiros dos proprietários, os sinistros “guardas brancos”. Finalmente, após uma nova crise interna, a Unión de Uniones tornou-se a ARIC (Associação Rural de Interesse Coletivo) em 1988. Esta poderosa organização se dividiu, sob os golpes da repressão e da corrupção, na ARIC oficial, reconhecida pelas autoridades e liderada por alguns ex-esquerdistas que haviam sido anteriormente expulsos, e na ARIC independente, com métodos mais agressivos.

A guerra vizinha

Desde 1960, a vizinha Guatemala tem sido palco de uma guerra civil impiedosa que massacrou 10% de sua população, também composta de indígenas maias, e enviou dezenas de milhares de refugiados para o México. Este conflito durou até 1996. Oficialmente neutro e recebendo refugiados guatemaltecos em condições mais ou menos decentes, o Estado mexicano está acima de tudo assustado que o grupo guerrilheiro vizinho, a URNG (União Revolucionária Nacional Guatemalteca), forme alianças e espalhe sua influência através da fronteira.

Deve-se notar que muitos refugiados de guerra da Guatemala foram acolhidos pelas comunidades camponesas da floresta, e se o EZLN – ansioso para permanecer dentro de um quadro mexicano – mais tarde negou ter tido qualquer relação com a URNG, alegou ter executado, em seu território, kaibiles, particularmente soldados de elite guatemaltecos sanguinários que cruzaram a fronteira para massacrar refugiados ou guerrilheiros. Como duas organizações clandestinas que viviam juntas no mesmo território eram obrigadas a frequentar uma à outra, alguns Zapatistas receberam treinamento militar (como o camarada F., em explosivos) de guerrilheiros vizinhos, que em troca desfrutavam de passagem protegida.

Guerrilhas abortadas

Uma casta de proprietários racistas que cometem qualquer abuso com impunidade confiando em milícias privadas; uma classe de camponeses enfurecidos tornada ainda mais precária por um decreto presidencial; um exército armado até os dentes guardando uma fronteira em guerra; uma Igreja procurando treinar quadros indígenas para realizar um projeto de transformação social; um índice de pobreza e abandono entre os mais altos do país. Tal é o quadro no qual um novo ator é convidado: um núcleo de jovens das metrópoles que querem montar nada menos do que uma guerrilha!

O fenômeno das guerrilhas é uma constante no México, onde as lutas sociais sempre foram essencialmente marcadas pela violência. Como a única resposta a qualquer exigência camponesa ou sindical tem sido a repressão, a maioria dos movimentos armados não são resultado de qualquer tipo de vanguarda, mas de um processo de autodefesa de classe. Isto foi reforçado pelos assassinatos urbanos de 1968 e 1971, que viram um grande número de grupos armados florescerem em solo fértil, seja rural ou urbano.

Foi neste contexto que a FLN (Força Nacional de Libertação) foi criada em Monterrey em 1969. Esta organização era discreta, evitando, se possível, roubos e sequestros para se concentrar na acumulação de forças a longo prazo. Tendo tido contatos com os camponeses chiapenhos, compraram um rancho em Chiapas em 1972, que deveria servir de base para um movimento de guerrilha rural.

A fazenda foi atacada pelo exército federal no ano seguinte, e a maioria dos guerrilheiros – incluindo o líder, César Yáñez – foram mortos. Após este fracasso, seriam necessários dez anos para que estes monges-soldados da revolução retornassem e estabelecessem uma célula armada na região, composta por indígenas e mestiços. Estes combatentes irão agora para as profundezas da floresta Lacandona em ebulição para tentar se aproximar das comunidades camponesas em luta.

O resto pode ser encontrado na maioria dos livros.

Após anos de dificuldades, e depois de ter colocado sua ideologia marxista-leninista[8] em segundo plano diante da hostilidade dos camponeses que já haviam expulsado os maoistas, o grupo guerrilheiro (cujo comando havia passado de Germán para Marcos) cresceu de uma dúzia de membros em 1986 para várias centenas, e depois milhares, de combatentes ou oficiais de ligação no início dos anos 1990. Seguindo um processo de absorção recíproca com as comunidades da aldeia, este grupo, após alguns ajustes e uma tomada de poder pela guerrilha de Chiapas sobre o resto dos quadros do FLN, tornou-se o EZLN. Este “exército” foi originalmente concebido como uma milícia para proteger a população contra os excessos da polícia, dos militares ou dos guardas brancos. As armas foram compradas no mercado negro (de ex-guerrilheiros de países vizinhos, do exterior ou de membros corruptos da força policial) por contribuições coletivas dos aldeões.

[8] Enquanto isso, o bloco oriental entrou em colapso e a guerrilha centro-americana perdeu suas batalhas.

O consumo de álcool e drogas foi proibido, tanto por razões econômicas como por razões culturais (a cachaça sempre foi uma arma de destruição nas mãos dos colonos contra os ameríndios) ou a pedido de mulheres de aldeias com pressa em pôr fim à violência doméstica. As mulheres foram inscritas em pé de igualdade com seus camaradas homens, tanto por desejo de emancipação como por falta de outras perspectivas sociais, representando gradualmente um terço do efetivo permanente. Herdeiro da cultura de clandestinidade do agora extinto FLN, o EZLN não pratica a retenção, extorsão monetária ou aparições públicas. É composto de três tipos de membros: insurgentes (combatentes permanentes), milicianos (camponeses armados com treinamento militar) e bases de apoio (civis). No entanto, esta organização crescente não escapou por muito tempo do radar da Igreja, dos sindicalistas ou do exército federal.

Apesar de suas intenções emancipatórias, o bispado de San Cristóbal permaneceu muito cioso de seu controle sobre seus paroquianos: uma estreita rede de catequistas religiosos e politicamente educados (laicos treinados para administrar os sacramentos e celebrar a missa) entrelaçou as comunidades camponesas da floresta e do altiplano. Já em 1980, para combater a influência dos conselheiros mestiços de esquerda no movimento camponês, a Igreja encorajou a criação de um grupo semi-clandestino, Slohp (raiz em Tzeltal), para reorientar os camponeses para as demandas indígenas. Obviamente, a chegada de um grupo guerrilheiro é experimentada como a entrada de um elefante no meio da loja de porcelana. Segundo fontes do governo, algumas pessoas próximas ao bispo Samuel Ruiz promoveram e ajudaram a criação da EZLN. Alguns fatos nos levam a crer que durante estas décadas em que a guerrilha da América Central (El Salvador, Guatemala, etc.) foi derrotada – ou pelo menos paralisada – a Igreja tentou acima de tudo limitar os danos por todos os meios. Por exemplo, tentou desesperadamente criar um grupo armado clandestino para combater os Zapatistas, que rapidamente falhou: como qualquer organização político-militar[9], o EZLN não suportou a competição ou o divisionismo, e os poucos camponeses que foram tentados pelo experimento voltaram rapidamente para o centro Zapatista. Quando os catequistas, os olhos e os ouvidos do bispado, se juntaram aos guerrilheiros, a amargura das autoridades religiosas pode ser resumida nas palavras de Samuel Ruiz: “Estes guerrilheiros estão montando um cavalo que já foi selado.

[9] Ao contrário do que muitos ativistas de boa ou má fé queriam ver, a EZLN é uma organização militar e, portanto, hierárquica e autoritária, mesmo que tenha sido capaz de evoluir em uma direção mais “política”.

No que diz respeito à religião, vamos citar o exemplo do camarada E., catequista e oficial clandestino das milícias. Em 1992, ele foi convocado à cidade de Comitán para comparecer perante o que deve ser chamado de tribunal eclesiástico, a fim de explicar os rumores sobre sua participação na guerrilha. Pressionado com perguntas por uma audiência de franciscanos e dominicanos, salientando que a guerra só tinha trazido infortúnio aos países vizinhos e que o socialismo estava em colapso no Oriente, E. se defendeu como um bom diabo e negou qualquer envolvimento nessa tal de guerrilha, que ele nem tinha certeza de que não era apenas um boato. E se há uma censura que não pode ser feita contra o EZLN é sua intransigência em matéria de religião: é um movimento estritamente secular, que cada pessoa lide com sua fé! Como resume o camarada B.: “Temos um bom número de católicos, protestantes, ateus e até mesmo pessoas que têm crenças difíceis de imaginar!” Outra resposta de um insurgente em 1994 à pergunta de um jornalista: “Primeiro nos libertamos e depois veremos sobre teologia”. Esta recusa em misturar religião com assuntos políticos decorre tanto de uma profunda convicção quanto de um pragmatismo que visa evitar a todo custo conflitos entre católicos e protestantes, que foram muito violentos em certas regiões indígenas e que levaram a expulsões maciças.

Do lado do sindicalismo camponês, o EZLN criou seu próprio sindicato, uma falsa frente que lhe permitiu abrir instalações, facilitar os vínculos entre diferentes regiões e treinar seus militantes em práticas radicais: bloqueios, manifestações violentas e a captura de policiais antes de qualquer negociação. Em 1989, foi criada a ANCIEZ (Aliança Nacional Camponesa e Indígena Emiliano Zapata) e foi um sucesso imediato em termos de adesão. Ela treinou os líderes zapatistas para lutas fora de seus próprios territórios e lhes deu uma razão social para intervir em todo o México.

O feito mais notável da ANCIEZ foi a manifestação em 12 de outubro de 1992, o dia oficial da “descoberta” da América por Cristóvão Colombo. Renomeado “Dia dos 500 Anos de Resistência Indígena”, viu-se um contingente de 10.000 Tzotzils, Tzeltals, Tojolabals e Ch’ols, marchando em ritmo quase militar, alguns armados com arcos e flechas, destruindo a estátua do conquistador local Diego de Mazariegos, a fim de andar com sua cabeça pelas ruas desta cidade, na qual um indígena ainda deve dar passagem a um mestiço. Esta primeira ocupação da antiga Jovel (nome indígena da cidade) foi um claro aviso do que estava por vir. Eu tinha notado, naquele ano socialmente turbulento de 1992, que os cartazes de propaganda da ANCIEZ apresentavam camponeses armados, e não precisamente com arcos e flechas!

O exército em alerta

Os soldados federais temem acima de tudo o estabelecimento de um exército guerrilheiro nesta saída para a América Central. Eles estão, portanto, particularmente atentos a qualquer movimento suspeito e subversivo na área. O exército terá naturalmente que lidar com este novo protagonista, o EZLN.

Assim, alguns meses antes da insurreição, em 22 de maio de 1993, uma coluna de cem soldados se dirigiu diretamente para Las Calabazas, um campo de treinamento dos combatentes do EZLN. Os rebeldes abriram fogo sobre os soldados durante a tarde, matando pelo menos dois. Entre os dias 23 e 31, mais de 1.500 soldados federais, apoiados por vários helicópteros, tentaram cercar os rebeldes, perdendo outros doze homens, combatendo um fantasma que lhes escapava por entre os dedos. Em 1 de junho, depois de ter tomado posse de um campo Zapatista que estava vazio, o exército se retirou repentinamente. Esta foi uma decisão eminentemente política. O presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari estava em vias de concluir seu grande trabalho: a finalização do NAFTA, o acordo de livre comércio entre o México, os Estados Unidos e o Canadá, que deveria entrar em vigor em… 1 de janeiro de 1994. Se o exército federal tivesse investido muitos recursos, provavelmente poderia ter esmagado os rebeldes, mas isso significaria reconhecer a presença de um grupo guerrilheiro em seu próprio solo, o que teria dificultado consideravelmente as negociações com seu vizinho do norte. Já as revisões exigidas por este mesmo vizinho à constituição mexicana, como a supressão do direito inalienável às terras comuns, provocaram uma onda de descontentamento em todo o país. Tratava-se, portanto, de manter a presença dos insurgentes o mais secreta possível, enquanto se tomavam algumas medidas táticas para contê-los. Um comunicado referindo-se a “um confronto contra um grupo de indivíduos que realizam supostas atividades ilegais” (prisioneiros fugitivos? traficantes de drogas?) seria suficiente.

Qual foi o resultado desta primeira batalha? Mais tarde, o EZLN reconheceria apenas uma perda em comparação com quatorze dos federais. Os guerrilheiros foram expulsos do campo enquanto limitavam os danos. Mas acima de tudo, os soldados descobriram no acampamento uma reprodução em escala da praça principal e do quartel de Ocosingo, uma cidade na borda da floresta. Não é preciso ser Sherlock Holmes para adivinhar o que está sendo tramado.

Embora mantendo uma certa discrição, os federales percorreram os vales da floresta e revistaram as aldeias com diferentes graus de rigor, dependendo do batalhão e do oficial em questão. Vários camponeses foram sequestrados e, de acordo com os próprios Zapatistas, os soldados passaram muito perto dos arsenais guerrilheiros. Felizmente, a maioria das tropas federais, sabendo que estavam em território hostil, não se esforçaram muito em seu trabalho. Além de algumas unidades de elite, como paraquedistas ou comandantes, o exército mexicano é sobretudo composto por camponeses arruinados que encontram ali uma oportunidade de comer duas refeições por dia, muitas vezes mal tratados por seus oficiais. Portanto, é compreensível que estes soldados não sejam muito zelosos.

Em qualquer caso, este tipo de choque só pode empurrar o EZLN para a ação antes que ele seja descoberto e destruído por um inimigo agora em guarda. Isto coloca vários problemas. Como vimos, a FLN é basicamente uma organização nacional, mas este grupo guerrilheiro só se tornou uma organização de massa em Chiapas. Existem células em todo o país e algumas delas serão ativadas em 1º de janeiro de 1994, realizando várias sabotagens, como em Toluca, Cidade do México, Chihuahua, Veracruz.

Vale ressaltar que uma das primeiras frases do manifesto, lidas nas estações de rádio engajadas ou afixadas em muros, proclama “Somos o produto de quinhentos anos de luta”. Esta declaração é assinada pela frente sudeste da EZLN. Este detalhe, que significava que este grupo guerrilheiro deveria estar presente em todo o país, foi esquecido um pouco rápido demais, pois a assinatura da EZLN apareceu apenas após alguns dias.

A chamada Frente Sudeste é a única que pode colocar em campo milhares de combatentes que estão misturados na população. Parece que os quadros de Chiapas, liderados por Marcos, tomaram o poder sobre outros líderes históricos do movimento guerrilheiro, particularmente em 1992, na reunião do Prado, onde eles colocaram mais de 5.000 milicianos. Além das manifestações trovejantes da ANCIEZ, 1992 foi também o ano da consulta sobre o lançamento da guerra dentro das comunidades indígenas que eram membros do EZLN. Foram realizadas assembleias em todas as aldeias e, no âmbito privado, ninguém escondeu o fato de que a escolha a favor da ofensiva às vezes resultou – dependendo da maioria – na expulsão das minorias, fossem elas belicistas ou cautelosas, provocando assim um deslocamento interno da população para a floresta. Os cultivos são dispersos a fim de serem menos expostas à devastação dos federais (napalm, desfolhantes) e para poder continuar alimentando os aldeões. Em Chiapas, a organização é agora composta por uma liderança militar, formada por dois “subcomandantes” (Marcos e Pedro), majores que lideram os rebeldes, e uma liderança civil, o CCRI (Comitê Indígena Revolucionário Clandestino) formado por comandantes eleitos em cada zona de aldeias.

Sentindo que o desastre estava se aproximando, o Bispo Ruiz tentou uma manobra final. Um ex-sacerdote jesuíta de Chiapas que foi transferido para o outro lado do país, para Chihuahua, dá uma entrevista à bem informada revista Proceso, na qual ele alude a um movimento guerrilheiro que se desenvolve na selva, dando alguns detalhes bastante embaraçosos. Claramente, este padre foi autorizado a falar de San Cristóbal em uma tentativa desesperada de revelar a verdade e dificultar o EZLN. Novamente pelas mesmas razões de dissimulação, este furo é simplesmente ignorado. O único comentário feito pelo governador (e futuro ministro do Interior) Patrocinio González foi: “Não há guerrilheiros em Chiapas.

Os Doze Dias Que Tremeram o México

Parafraseando Shakespeare, pode-se dizer que no final de 1993, todos os atores estavam no seu devido lugar, e a peça só tinha que ser representada. Alguns detalhes sobre seu primeiro ato: nos últimos dias de dezembro de 1993, a mobilização foi intensa, as comunicações foram progressivamente cortadas com a floresta (transporte público, trabalhadores externos proibidos de passar), veículos foram requisitados pelos rebeldes que confiscaram grandes estoques de dinamite dos garimpeiros de petróleo presentes na área.

É claro que esta agitação não escapa aos militares, e eles se fortalecem em suas posições em antecipação ao confronto que agora sabem que é iminente. Desdenhoso da polícia civil, o exército não os adverte. Como resultado, a polícia se viu na linha de frente nas cidades atacadas pelo EZLN, sofrendo graves perdas. Mas eles causaram uma tragédia maior: o subcomandante Pedro foi morto durante o ataque ao posto policial de Las Margaritas, deixando suas tropas em estado de choque. Estes últimos contentavam-se em cercar a cidade vizinha de Comitán sem ocupá-la. A direção das operações agora recai somente sobre Marcos, que neste momento se encontra nos planaltos, ocupando San Cristóbal com as tropas da Major Ana-Maria, e assim se torna o porta-voz e ‘rosto’ (encapuçado) da rebelião para o mundo inteiro.

A estratégia dos federales deu resultados: apesar de dias de luta feroz, o EZLN não conseguiu tomar o campo de Rancho Nuevo, sede da 31ª região, situada a cerca de quinze quilômetros de San Cristóbal, e foi desalojado de Ocosingo após uma sangrenta batalha. Mesmo que os rebeldes tenham conseguido se retirar para a selva, alguns dos que permaneceram cercados no mercado ou feridos no hospital foram simplesmente executados pelos paraquedistas lançados na cidade.

Após doze dias de guerra, um frágil cessar-fogo é gradualmente estabelecido, mesmo que as balas continuem a voar em várias partes de Chiapas. No início de fevereiro, os prisioneiros zapatistas foram trocados por Absalón Castellanos, um general e ex-governador de Chiapas e um grande latifundiário. Em seguida, uma primeira rodada de negociações foi realizada.

De agora em diante, esta história se desdobrará mais ou menos publicamente.

Jules
Ilustrações de Rita, Riatri p. 52-53 e David p. 58

Bibliografia do autor

Dado o número de livros publicados no primeiro ano do conflito, pode-se dizer que os Zapatistas ajudaram a salvar a publicação mexicana do marasmo. Muitos desses livros estão cheios de banalidades, simplesmente reiterando a versão oficial do EZLN ou, ao contrário, são obras de desinformação governamental. Considero livros “confiáveis” que têm verdadeira profundidade histórica, que são escritos por protagonistas que conhecem o terreno há muito tempo e, sobretudo, cujos fatos são consistentes com os testemunhos dos camaradas zapatistas, mesmo que muitas vezes eles os formulem de forma diferente. Portanto, um livro que seja completamente desfavorável aos rebeldes pode ser valioso.

Jan de Vos, Una tierra para sembrar sueños. Historia reciente de la Selva Lacandona, 1950-2000, 2ª edição, FCE, 2002.

Carlos Montemayor, Chiapas: la rebelión indígena de México, Joaquín Mortiz, 1997.

Carlos Tello Diaz [na verdade escrito pela inteligência militar], La Rebelión de las Cañadas, Cal y arena, 1995.

Guiomar Rovira, ¡Zapata Vive! La rebelión indígena de Chiapas contada per sus protagonistas, Virus, 1995.

Como complemento a este artigo, os editores da Nunatak recomendam dois textos escritos em 1996:

A brochura Além das balaclavas do sudeste mexicano reage ao movimento de solidariedade que a insurreição de 1994 gerou. Ela matiza, entre outras coisas, a relação entre a EZLN e a Igreja Católica. Ele está disponível no site https://quatre.zone

A obra Tendre venin, de quelques rencontres dans les montagnes indiennes du Chiapas et du Guerrero (Veneno tenro, de alguns encontros nas montanhas indígenas de Chiapas e Guerrero) publicado por Editions du Pheromone. É um relato de encontros com combatentes zapatistas, membros de comunidades indígenas, camponeses que ocupam grandes latifúndios agrícolas e muitos outros personagens. Certos aspectos sociais ou históricos são desenvolvidos, sem se esconder atrás de um disfarce etnológico, jornalístico ou militante.

Categories
Artigos

Compartimentação da deterioração nas árvores

(O texto a seguir é a tradução a partir do inglês deste PDF)

Os animais se curam, mas as árvores se compartimentam. Elas suportam uma vida inteira de ferimentos e infecções, estabelecendo barreiras internas que resistem à propagação dos microrganismos invasores.

por Alex L. Shigo (1985)

As árvores têm um recorde espetacular de sobrevivência. Durante um período de mais de 400 milhões de anos, elas evoluíram como os organismos mais altos, mais maciços e mais longevos que já habitaram a terra. No entanto, às árvores falta um meio de defesa que quase todos os animais possuem: elas não podem se afastar das forças destrutivas. Por não poderem se mover, todos os tipos de inimigos vivos e não vivos – fogo, tempestades, microrganismos, insetos, outros animais e mais tarde o ser humano – causaram-lhes ferimentos ao longo de sua história. As árvores sobreviveram porque sua evolução as transformou em organismos altamente compartimentados; isto é, elas separam com barreiras a madeira ferida e infectada.

Nesse aspecto, as árvores são radicalmente diferentes dos animais. Fundamentalmente, os animais se curam: eles preservam sua vida fazendo bilhões de reparos, colocando novas células ou células rejuvenescidas nas posições das antigas. As árvores não podem curar; elas não fazem reparos. Em vez disso, elas se defendem das consequências de ferimentos e infecções por meio de barreiras de proteção contra os danos. Em resumo, elas se compartimentam. Ao mesmo tempo, elas colocam novas células em novas posições; com efeito, elas crescem uma nova árvore sobre a antiga a cada ano. Os resultados mais óbvios do processo são os anéis de crescimento, que são visíveis na seção transversal de um tronco, uma raiz ou um ramo.

As defesas que as árvores usam sugerem uma nova visão da sua biologia, na qual o papel da patologia das árvores ganha destaque. Elas têm sido guiadas através da evolução por sua necessidade de se defenderem contra ataques enquanto se mantêm plantadas no chão.

Para compreender as doenças e a deterioração das árvores é essencial compreender o funcionamento e o crescimento normal delas. As árvores, juntamente com as gramíneas e algas, são os maiores capturadores de energia da Terra. Em particular, as florestas, que cobrem cerca de um décimo da superfície do planeta, capturam cerca da metade de toda a energia que entra na biosfera. A energia, que entra como radiação solar, serve para transformar dióxido de carbono e água em carboidratos, a forma química na qual a energia é armazenada. Por sua vez, os carboidratos impulsionam o crescimento, a manutenção, a reprodução e a defesa delas.

As próprias árvores – isto é, as coníferas e as madeiras duras (as angiospermas e gimnospermas) – são plantas perenes, lenhosas, compartimentadas, que separam pedaços internos de si. Além disso, a maioria das árvores são longevas, maciças e altas. Sua estrutura interna segue um padrão característico. A geração de novas células na árvore é a função do câmbio vascular, uma fina camada cilíndrica encontrada no tronco, nas raízes e nos galhos. Na direção externa, o câmbio estabelece o floema, ou casca interna, a camada que transporta líquidos para baixo – especificamente, as substâncias produzidas pela fotossíntese nas folhas. Na direção interna, o câmbio se assenta sobre camadas concêntricas do xilema, ou simplesmente o lenho, que transporta água e substâncias solúveis em água para cima.

A produção de células internas merece um exame minucioso. Em uma escala ampla, o câmbio estabelece uma camada interna a cada ano; estes são os anéis de crescimento anual, destacados em uma seção transversal da árvore. (Em árvores tropicais, entretanto, os anéis de crescimento são indistintos.) Vista em uma escala mais detalhada, o câmbio forma dois tipos básicos de células: aquelas com seu longo eixo perpendicular ao eixo do tronco, de uma raiz ou de um ramo, e aquelas com seu longo eixo paralelo ao eixo do tronco, raiz ou ramo. As células perpendiculares tornam-se parênquima radial, que formam divisórias radiais na madeira. Por outro lado, as células longitudinais preenchem os compartimentos entre os raios.

As células longitudinais são de três variedades. Em algumas, o conteúdo vivo morre em poucos dias ou semanas, deixando apenas uma parede celular tubular. Em madeiras duras, tais células são chamadas de vasos; em coníferas são chamadas de traqueias. Elas servem para o transporte de líquidos. Em outras, a parede celular é espessa. Tais células, chamadas células de fibra ou traqueias de fibra, fornecem suporte mecânico para a madeira. Finalmente, as células chamadas parênquima retêm seu conteúdo vivo atrás de uma parede celular fina. (Em contraste, vasos e traqueias têm um interior oco sob uma parede celular espessa). Células parenquimatosas armazenam nutrientes e outros materiais. Nelas, o citoplasma pode permanecer vivo por anos. Às vezes, por mais de um século. O complexo intertravamento das várias células numa madeira combina com as próprias paredes celulares resistentes para dar força ao seu tecido. O desenho de intertravamento continua na construção molecular das paredes celulares, e até mesmo nas moléculas individuais da parede celular: celulose e lignina.

AO SE DEFENDER contra ferimentos e infecções, este carvalho vermelho produziu um padrão na sua seção transversal do tronco. Nove anos antes desta seção ter sido cortada, a árvore foi ferida por um tiro de chumbo. Microrganismos que se estabeleceram na ferida causaram a decomposição da madeira ali, tornando-a mais branca do que nos outros lugares. Em resposta, a árvore montou uma defesa química: o limite escuro da madeira descolorida ao redor do apodrecimento indica a produção de substâncias antimicrobianas. A linha escura que se curva sobre o lenho ferido é uma defesa adicional: o câmbio, ou camada de crescimento, vivo nas laterais da ferida produziu uma parede celular para proteger a madeira que se formou após o momento do ferimento. O padrão dos anéis de crescimento fora da ferida revela a história subsequente da árvore. Após cinco anos, a ferida fechou e depois disso se formaram mais quatro anéis de crescimento. A árvore foi seccionada pelo autor e fotografada por Kenneth R. Dudzik do Serviço Florestal dos EUA, em Durham, N.H.

Em qualquer momento da vida da árvore, as camadas mais recentes do lenho, aquelas em que o parênquima ainda retém seu conteúdo vivo, formam o alburno. Em muitas delas, as camadas mais antigas, mais próximas do eixo da árvore, formam uma região chamada de cerne, que muitas vezes é de cor mais escura. Parte desse teor escuro se deve ao depósito de substâncias conhecidas comumente como extrativas. O cerne tem um alto grau de autossustentação mecânica; assim, ele continua servindo à árvore. Por outro lado, o cerne não tem capacidade de armazenar nutrientes e transportar substâncias.

O estudo da anatomia das árvores sugere uma série de maneiras pelas quais elas podem ser vistas conceitualmente. Em primeiro lugar, as árvores são geradoras de tecidos. Em essência, a germinação de uma semente é a ativação de um gerador de células. Ela tem a capacidade de proliferar células, mas sempre em novos locais; a árvore não tem capacidade de re-armazenar ou regenerar tecidos que já estão alocados. O gerador é o câmbio. Em segundo lugar, a madeira é um arranjo altamente ordenado de diferentes tipos de células em diferentes estágios de envelhecimento. Em terceiro lugar, uma árvore é uma hierarquia de compartimentos. Dentro do tronco, das raízes e dos galhos, os maiores compartimentos são os anéis anuais. Depois, vêm os grupos de células em cada anel, compartimentados por raios, e em seguida as células individuais.

OS COMPARTIMENTOS DE UMA ÁRVORE lhe permitem resistir à propagação de uma infecção após sofrer um ferimento; também lhe permitem murar regiões de si mesma quando as partes atingem um estágio de senescência geneticamente programada. Acima, temos um esquema composto de árvore. O lado esquerdo é um pinheiro loblolly (Pinus taeda), típico das coníferas; o lado direito é um plátano (Acer saccharinum), típico das madeiras duras. Alguns compartimentos, mostrados no desenho, são separados quando sua função é concluída.

O estudo de como as árvores respondem a ferimentos ou infecções sugere um conceito adicional. As árvores respondem compartimentando-se: elas tentam separar a região ferida ou infectada. Elas não matam nem impedem a atividade dos microrganismos nos compartimentos que são murados. Nem respondem de maneiras específicas a microrganismos específicos; a compartimentação vem em resposta ao fato do ferimento.

Em linhas gerais, a árvore responde de três formas a ferimentos e infecções. Na primeira delas, os limites dos compartimentos já existentes são reforçados para resistir à propagação da deterioração. Na maior parte dos casos, o endurecimento é conseguido por meios químicos. No alburno, o metabolismo das células parenquimatosas vivas muda, de forma a alterar o conteúdo das células. No alburno, as reações enzimáticas ocorrem no tecido, que já não está mais vivo.

Na parte superior da imagem, o tronco do pinheiro aparece em seção transversal, revelando mais compartimentos. O câmbio gera o floema, ou casca interna, e xilema, ou lenho. Esta última é compartimentada por anéis anuais; por sua vez, os anéis são compartimentados por divisórias chamadas raios parenquimáticos. Na parte inferior, temos um compartimento do lenho. Ele inclui parênquima, ou células armazenadoras de energia; traqueideos, ou tubos celulares, e células do lenho tardio com paredes espessas.

Os detalhes ainda são mal compreendidos. Mesmo assim, em circunstâncias normais, as células do lenho dedicam seus caminhos bioquímicos ao armazenamento de energia química sob a forma de carboidratos. Normalmente, as moléculas estão em forma reduzida: seu conteúdo de elétrons é relativamente grande. Após a lesão da madeira, a atividade bioquímica nas células ao redor da lesão é desviada para novos caminhos metabólicos, de modo que as moléculas tendem a ser oxidadas; ou seja, prótons, ou íons de hidrogênio, são fixados. Numa escala mais ampla, o conteúdo celular passa por um processo químico muito semelhante ao curtimento do couro. Assim, surgem moléculas como o ácido gálico e o ácido tânico. Elas compartilham a propriedade de serem ricas em fenol (seis anéis de carbono contendo grupos de hidroxilas, ou OH). Os fenóis ocupam o interior das células; eles também impregnam as paredes celulares. Os fenóis descolorem a madeira em tons de vermelho, verde ou azul, dependendo dos detalhes das vias químicas, que são determinadas pela genética de uma determinada espécie de árvore. Mais importante para as defesas da árvore, os compostos de fenol tendem a ser antimicrobianos.

Na segunda resposta que dá à lesão e/ou infecção, a árvore cria uma nova parede por meios anatômicos e químicos. Primeiro, o câmbio muda o padrão pelo qual gera novas células. Após a lesão, poucas células de canais são produzidas. As células de fibra também são produzidas em menor quantidade. Por outro lado, o parênquima, ou células que retêm seu conteúdo vivo, são produzidas em maior quantidade. Agora, porém, elas são menores, e sua atividade metabólica é alterada para que seu conteúdo químico resista aos microrganismos. A nova parede, ou zona de barreira, é a causa de muitos dos defeitos encontrados nos produtos madeireiros. Por exemplo, ela pode fazer com que o lenho na árvore viva se separe ao longo de um círculo. O defeito é conhecido como greta.

AS RESPOSTAS A UM FERIMENTO assumem duas formas: o fortalecimento dos compartimentos existentes e a criação de um muro para proteger o câmbio. O tronco do plátano seccionado à esquerda mostra uma ferida infectada. Uma sucessão de microrganismos (verde) se estabeleceu no alburno (as camadas de madeira viva sob o câmbio), e no centro da infecção o lenho se decompôs (marrom). Nas margens da infecção, as células parenquimatosas estão produzindo substâncias antimicrobianas (vermelho), de modo que as paredes já presentes na árvore estão sendo reforçadas contra a infecção. Além disso, vasos celulares acima e abaixo da infecção estão sendo obstruídos (em algumas árvores, o inflamento das células parenquimatosas contrai os vasos). O tronco à direita mostra a árvore em uma estação de crescimento posterior. O muro criado pelo câmbio protegeu o novo crescimento. Enquanto isso, as defesas internas compartimentaram a infecção.

A terceira resposta que a árvore dá é continuar crescendo. As árvores sobrevivem após ferimentos e infecções se tiverem tempo, energia e capacidade genética suficientes para reconhecer e compartimentar o tecido ferido e infectado enquanto geram o novo tecido que irá manter sua vida. Em certa medida, portanto, uma árvore ferida ou infectada se assemelha a um navio fortemente compartimentado ou a um velho submarino sob ataque. Quando o navio é atingido por um torpedo, a tripulação se apressa para selar a área danificada. Quanto mais rapidamente for a ação da tripulação e quanto mais fortes forem as paredes circunscrevendo o compartimento danificado, menor será a extensão do dano. Mas após o dano ser contido, o compartimento ou compartimentos danificados não são mais acessíveis. Neste ponto, a analogia termina. A árvore sobrevive crescendo o que equivale a uma nova árvore (com um novo conjunto de compartimentos) sobre si mesma durante a próxima estação de crescimento.

É preciso dizer que as zonas de reação da árvore (seus limites quimicamente reforçados) não são absolutas: pode ser que elas recuem, rápida ou lentamente, da infecção, pois certos microrganismos superam a defesa química. Deve-se dizer também que os fenóis são venenosos não só para os microrganismos, mas também para a árvore. Com efeito, ela envenena parte de si mesma na tentativa de estancar uma invasão. Ela sobrevive porque ao mesmo tempo em que fortalece as barreiras, também está criando uma nova árvore.

Notavelmente, a capacidade de uma árvore de separar partes de si mesma é muito parecida com a resposta que dá a ferimentos e infecções. Ou seja, a separação é um aspecto da compartimentação. Em particular, acículas, folhas, estruturas reprodutivas e raízes absorventes que cumpriram seu programa genético são separadas da árvore por paredes (raízes absorventes são as raízes finas, não lenhosas, que absorvem substâncias do solo). Ramos, galhos e raízes grandes também podem ser murados, digamos na sequência de uma lesão ou infecção, ou após o ramo, galho ou raiz ter atingido um determinado estágio de senescência. (É difícil saber exatamente em que estágio; a programação genética de envelhecimento nas árvores é mal compreendida). O que acaba de ser dito exige uma qualificação: as árvores não removem ativamente partes de si mesmas. Vento, neve, gelo, animais e outros agentes fazem com que as partes muradas caiam da árvore. Enquanto isso, as raízes absorventes que foram muradas são digeridas pelos microrganismos do solo.

Dirijo-me agora para o outro lado da briga entre a árvore e seus inimigos. Começarei com um ferimento novo realizado, digamos, por um animal. A ferida fornece novo espaço e nutrientes para uma série de organismos invasores, incluindo insetos, nematóides, bactérias e fungos. Enquanto competem entre si pelo novo espaço e nutrientes, as células vivas no alburno subjacente à ferida estão reagindo à invasão, passando por uma variedade de mudanças bioquímicas que levam à produção de defesas químicas à base de fenol.

Os microrganismos atacam as feridas das árvores de diversas maneiras. Certas bactérias e fungos infectam a casca interna e ficam lá, criando as doenças conhecidas como cancros anuais. Outros microrganismos invadem as feridas e permanecem no tecido do alburno ferido, criando as chamadas feridas de podridão. Ainda outros microrganismos infectam a casca interna, se estabelecem e depois infectam o lenho. Através da repetição anual do processo, eles criam cancros perenes. Finalmente, alguns microrganismos atacam uma ferida, primeiro infectando o alburno e depois infectando a casca interna. Novamente, o processo se repete a cada estação de crescimento. Estes são os chamados fungos da podridão seca. Eles são notavelmente insidiosos. Quando a podridão do cancro evoluiu do lenho para a casca, ela forma um tecido duro, semelhante a uma cunha, que mata o câmbio subjacente. A árvore reage reativando suas defesas compartimentadoras. O fungo, por sua vez, invade a nova ferida, a partir da qual cresce outra cunha. O movimento de vai e vem pode continuar até que a árvore seja cingida.

Os primeiros microrganismos a terem sucesso na invasão da árvore são chamados de pioneiros. Eles podem simplesmente ser capazes de tolerar as alterações químicas provocadas na madeira pelo ferimento da árvore. Em alguns casos, porém, sua constituição genética os torna capazes de digerir as defesas químicas. Tipicamente, mas nem sempre, os pioneiros são bactérias, juntamente com certas espécies de fungos. Entre estas últimas se destacam os Himenomicetos, que causam deterioração nas árvores, e os Deuteromicetos e Ascomicetos, que em sua maioria não causam a deterioração em si.

Um ponto crucial sobre a infecção é que os microrganismos se estabelecem em uma sequência particular. Quando os microrganismos pioneiros superam os químicos inibidores, eles abrem o caminho para outros invasores, aqueles que teriam sucumbido às defesas da árvore. Assim, a invasão toma a forma de uma sucessão de organismos, um padrão essencial para a sobrevivência dos invasores. Evidentemente, nenhum microrganismo “come veneno” para ajudar seus sucessores. Cada organismo age de forma a aumentar sua conquista de espaço e energia. Portanto, alguns dos pioneiros podem realmente criar ou preservar condições que inibem a infecção por fungos agressivos que degradam a madeira. Tais pioneiros podem, em última instância, ser a base para o controle biológico do apodrecimento das árvores. Estudos de certos fungos, tais como as espécies de Trichoderma, já mostram que os fungos prosperam no alburno alterado por feridas, mas não desintoxicam os produtos químicos que mantêm fora os fungos causadores do apodrecimento.

Suponha que uma sucessão de microrganismos invasores seja bem sucedida na digestão do alburno alterado pela ferida. O sucesso deles não necessariamente condena a árvore. Por um lado, ela está gerando novas células ao redor das antigas. Se a árvore puder gerar novas células mais rapidamente do que as antigas estão sendo digeridas, ela tem uma boa chance de sobrevivência. A morte de uma árvore, se ela acontecer, pode ser mecânica ou biológica. Ela morrerá se o tronco quebrar, por exemplo. Alternativamente, ela morrerá se o câmbio – o gerador de células – for morto. Além disso, morrerá se grande parte do seu tecido tiver sido murada durante uma vida inteira de defesas contra ferimentos e infecções de forma que os compartimentos restantes são insuficientes para armazenar a energia da árvore.

O novo entendimento sobre as árvores como organismos compartimentadores não surgiu de uma só vez. Na verdade, ele veio como uma contradição de noções anteriores, algumas das quais foram desenvolvidas logo após os fundamentos da biologia moderna terem sido estabelecidos há um século. Parece uma coisa banal de se dizer, mas as árvores são fundamentalmente diferentes dos animais, e muito do fracasso em compreendê-las deriva de confundir inconscientemente os dois.

Antes de 1845, a explicação mais aceita sobre como a vida se dá era que ela se origina espontaneamente (ou seja, por geração espontânea) a partir de material inorgânico. Sabia-se alguma coisa sobre microrganismos; em particular, já haviam se dado conta da associação entre madeira apodrecida e fungos. A ideia, entretanto, era que a decomposição dá origem aos fungos. Na esteira de Heinrich Anton De Bary, Louis Pasteur e do desenvolvimento da teoria dos germes, que atribui doenças a organismos minúsculos e prejudiciais, o patologista alemão Robert Hartig reverteu a ideia ao propor que os fungos dão origem à decomposição. Hartig mostrou que os esporóforos, ou corpos frutíferos, encontrados nas feridas das árvores, e os micélios, ou organismos em forma de filamentos, encontrados na madeira apodrecida, representam diferentes estágios de vida de um mesmo organismo fúngico. A observação, e a inversão da hipótese, preparou o terreno para a ciência da patologia das árvores.

Estudos subsequentes sobre deterioração foram feitos por investigadores interessados principalmente no estrago de madeiras serradas. Assim, os estudos se basearam na remoção do lenho das árvores, seguida pela investigação laboratorial das mudanças no tecido. Os estudos se centraram no cerne, ou em qualquer caso, na madeira mais escura que o alburno. A estratégia por trás dos estudos tinha como justificativa o fato de que o cerne de uma árvore está morto, ou seja, ele é um tecido não responsivo. Até certo ponto, os estudos foram bem sucedidos: químicos e patologistas passaram a entender como os fungos (em particular, suas enzimas) digerem a madeira. Ainda assim, os processos na árvore viva não foram considerados. Embora o cerne esteja morto pelos padrões animais, ele é reativo a ferimentos e infecções. Alguns textos ainda afirmam que a deterioração nas árvores não pode ser considerada uma doença porque apenas o cerne morto é infectado. A deterioração é, na verdade, a principal doença de todas as árvores no mundo.

A MORTE DE UM GALHO segue um curso muito parecido com a reação da árvore a ferimentos ou infecções. O galho vivo (a) é diferenciado do tronco por uma característica externa chamada de crista e uma divisória interna de xilema compactado ao longo do ângulo da crista. A base inchada do galho é chamada de colar. Quando o ramo morre (b), ele é invadido por microrganismos decompositores. As árvores acionam defesas químicas numa zona de proteção no colar. A sequência é essencial para o desprendimento do galho. Na maioria dos casos, a deterioração pára no colar. Algumas vezes, no entanto, ela invade o restante do miolo do galho (c). Se o galho morto for podado inadequadamente (d), de modo que se corte o colar, a zona de proteção é removida e o alburno no tronco é aberto para uma invasão.

Os primeiros pesquisadores não foram capazes, portanto, de reconhecer as defesas ativadas por ferimentos e infecções, que alteram a madeira quando a árvore é ferida. Em uma árvore viva, a maioria das feridas não produzem deterioração porque os microrganismos que infectam a ferida se deparam com a madeira que mudou. Em contraste, os fungos que produzem o apodrecimento que ataca a madeira serrada não enfrentam a força contrária dela. Os microrganismos simplesmente competem entre si.

A tecnologia crucial que permitiu aos pesquisadores desenvolver uma nova compreensão da deterioração nas árvores foi a motosserra. Nos anos 1940, o equipamento era suficientemente potente para que a pessoa que o operasse na floresta pudesse facilmente cortar seções longitudinais através das árvores, expondo colunas de madeira descolorida e em decomposição sob os anéis de crescimento que a árvore tinha desenvolvido após a lesão. Antes de 1940, as árvores já haviam sido dissecadas, mas a maioria dos cortes eram transversais. Apenas alguns poucos investigadores, como o patologista George H. Hepting, que trabalhava no delta do Mississípi nos anos 1930, procederam de outra forma. Hepting, usando serras e eixos transversais, pôde ver o que outros viram mais tarde: que em longos trechos de árvores, a madeira gerada após uma ferida não foi invadida pelos fungos que infectaram a ferida em si.

Nos anos 1960 e 1970, eu mesmo tive a oportunidade de dissecar milhares de árvores, primeiro no nordeste dos EUA e depois na Europa, Índia, Porto Rico e Austrália. Fiquei impressionado, por um lado, com os padrões ordenados de descoloração e, por outro, com a sucessão ordenada dos microrganismos invasores. Meus colegas e eu fizemos então experiências com árvores vivas. Ainda mais tarde, estudos bioquímicos foram realizados por Walter C. Shortle, meu colega do Serviço Florestal do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos em Durham , N.H.

Em um esforço para definir um ponto em comum entre as respostas que uma árvore dá a ferimentos e infecções e para explicar os padrões de deterioração e descoloração em árvores feridas, meus colegas e eu desenvolvemos um modelo que chamamos de CODIT (um acrônimo para Compartimentação da Deterioração em Árvores). A primeira parte do modelo representa as respostas que a árvore dá no momento do ferimento. Basicamente, ela reforça as paredes que já estão presentes no lenho, pelo menos, em grande parte. A parede 1 resiste à propagação vertical da madeira infectada; a parede 2, à propagação na direção interior; e a parede 3, à propagação lateral. A segunda parte do modelo representa uma resposta que a árvore dá mais tarde. Basicamente, ela cria uma parede que não estava presente no momento da lesão: o câmbio gera a parede 4, que separa a madeira infectada da madeira recém-formada e saudável.

A parede 1 não existe realmente como uma entidade anatômica antes da infecção. Ela é principalmente uma parede de obstrução, que resiste à propagação vertical da infecção por meios anatômicos e químicos. A árvore possui canalização vertical, constituída, como descrevi acima, de vasos em madeira duras e traqueias em coníferas. Na sequência de uma infecção, os tubos devem ser tampados; afinal, eles são uma maneira fácil para os invasores se espalharem. As árvores fazem isso de várias maneiras. As células ao redor os tubos (chamados de parênquima de contato) podem inflar, obstruindo-os. Pode-se formar incrustações nas suas extremidades. O material granular ou cristalino pode enchê-los. As cavidades entre os tubos podem se fechar. Às vezes, se desenvolvem bolhas de ar, impedindo o transporte de líquidos. A defesa da parede 1 é relativamente fraca, pois, de outra forma, a árvore não poderia sobreviver se obstruísse toda a sua canalização vertical. Além disso, a propagação vertical da infecção é relativamente insignificante: o cerne inteiro de uma árvore pode ser infectado, mas as novas árvores formadas pelo câmbio nos anos subsequentes manterão ela viva.

A SESSÃO TRANSVERSAL DO ALBURNO de um olmo americano na figura acima inclui uma parede, ou zona de barreira, criada pelo câmbio em resposta a um ferimento. Dentro da zona, as células parenquimatosas são menores. Além disso, os raios parenquimatosos estão inchados (três raios atravessam a vista), e muitas das células parenquimatosas dos raios têm obstruções escuras que consistem de substâncias antimicrobianas. As células maiores em toda a seção transversal são vasos, o equivalente das traqueias nas madeiras duras. A lesão que provocou as defesas da árvore foi uma infecção pelo fungo que causa a doença do olmeiro holandês. Os olmos reagem à infecção através de uma barreira contra o fungo. Ao fazer isso, no entanto, eles se separam de algumas das suas regiões possíveis de armazenar energia.

A parede 2 e a parede 3 já existiam antes do ferimento: elas são formados pelos anéis anuais, que resistem à propagação interna da infecção, e pelos raios parenquimatosos, que resistem à propagação lateral. Após a infecção, as paredes são reforçadas quimicamente. Em parte, no entanto, a parede 2 é anatômica. Em algumas árvores, como o plátano (mas não, por exemplo, o olmo), o final de cada estação de crescimento é marcado pela produção, por parte do câmbio, de uma camada final do que se chama parênquima marginal ou terminal em madeiras duras e células de lenho tardio de paredes grossas em coníferas. As células formam uma barreira celular robusta no perímetro de cada anel de crescimento. A parede 2 é moderadamente forte; a parede 3 é a mais forte das três. Se a última falhar, a deterioração pode se espalhar rapidamente. Esta é a causa das árvores ocas, usadas para proteção e moradia pelo ser humano e pelos animais. A árvore em si pode sobreviver, com copas cheias de folhas saudáveis, devido ao trabalho do câmbio em épocas de crescimento subsequentes à lesão.

A resistência crucial à infecção é aquela que impede sua propagação de dentro para fora – especialmente a defesa do câmbio contra a deterioração que vem do interior da árvore. Aqui entra em jogo a parede 4, a parede do câmbio. Ela é bastante fraca no sentido de fortalecer a estrutura da árvore, mas bastante forte no sentido de ser uma barreira contra microrganismos, que isola o tecido que está fora da lesão e que, portanto, se forma após ela ter acontecido. De fato, é impermeável à maioria dos fungos e bactérias que habitam a madeira ou a casca da árvore. O trabalho recente de R. B. Pearce, P. J . Holloway e Jill Rutherford da Universidade de Oxford estabelece que as células de barreira da parede 4 são revestidas com suberina, um ácido graxo que dá à casca externa sua resistência aos invasores microbianos (eles quase nunca possuem enzimas capazes de atuar sobre a suberina).

Meus colegas e eu também inventamos um dispositivo que detecta madeira deteriorada em árvores vivas sem danificá-las. O dispositivo se aproveita de uma circunstância da deterioração: à medida que a madeira se decompõe, seu conteúdo de portadores de carga elétrica (principalmente íons de potássio) aumenta, de modo que a resistência elétrica do tecido, medida em ohms, diminui. Nosso equipamento, portanto, consiste em um gerador à bateria de corrente pulsada, uma sonda e um ohmímetro. Para testar a deterioração, um furo de 0,24 cm (3/32”) de diâmetro é realizado com 20 a 30cm (8 a 12”) de profundidade na árvore. A sonda é inserida lentamente. Uma diminuição da resistência elétrica encontrada na ponta da sonda (a ponta não tem isolamento) sinaliza o apodrecimento. O dispositivo também está sendo empregado para detectar a deterioração na linha do chão em postes enterrados.

Meus colegas e eu estamos agora colaborando com geneticistas num esforço para descobrir quais indivíduos dentro de uma determinada espécie de árvores têm a melhor capacidade de compartimentação. (Essa capacidade é controlada fortemente pela genética.) Amparados com nossos novos conceitos de biologia das árvores, estamos também reexaminando suas doenças. Descobrimos, por exemplo, que os olmos compartimentam a madeira infectada pelo fungo que causa a doença do olmeiro holandês. A defesa pode levar à inanição à medida que os tecidos que normalmente armazenam energia são murados. Além disso, estamos planejando correções em muitos dos procedimentos padrão de cuidado de árvores, tais como a poda.

Muito do mal-entendido que está por trás dos cuidados impróprios com as árvores acontece porque conceitos desenvolvidos para explicar a biologia animal são aplicados, quase inconscientemente, às árvores. Várias vezes, elas são tratadas como animais ou, pior ainda, como pessoas. Os curativos são colocados em árvores feridas num esforço para parar a deterioração e promover a cura, assim como um adulto cobre um corte em uma criança. As cavidades de podridão são limpas além da parte que está podre, expondo a madeira saudável, da mesma forma que um dentista limpa um dente podre. Os galhos são podados diretamente no tronco, e em alguns países, é feita uma incisão em forma de diamante na casca logo abaixo do galho; o calo subsequente, ou cicatriz, é considerado um sinal de que a árvore está se curando bem.

Nenhum desses tratamentos é benéfico para as árvores; de fato, todos eles podem ser prejudiciais. Nenhum dado científico mostra que qualquer substância aplicada a uma ferida em uma árvore irá ajudá-la a parar de se decompor. Os curativos são principalmente cosméticos. (Talvez, isso funcione mais como um remédio psicológico para a pessoa dona da árvore.) A limpeza de uma cavidade para além da parte podre, adentrando na madeira saudável, promove um apodrecimento ainda maior. De fato, é uma das piores coisas que se pode fazer a uma árvore. A cavidade existe porque a árvore se murou contra o apodrecimento. Finalmente, a poda inadequada permite que o apodrecimento tome conta das células feridas no tronco. Ao redor da base de cada galho há um inchaço conhecido como colar. Dentro dele, está a zona de proteção do galho, ou seja, o lugar onde as defesas químicas do ramo são estabelecidas. O colar não deve ser ferido, muito menos removido, pela poda.

A deterioração nas árvores é um processo natural. Em alguns casos, pode ser controlado: acelerando, retardando ou estagnando-o. Quando não pode ser influenciado, pode pelo menos ser detectado, de forma não destrutiva, em árvores vivas. Além disso, pode ser previsto, tanto na sua taxa de propagação como na sua configuração. Além disso, as árvores podem ser selecionadas por sua resistência à propagação de deterioração. A silvicultura científica está se aproximando de uma nova compreensão das árvores e de como elas sobrevivem sob muitas pressões.

Categories
Artigos

[Artigo] O risco das soluções verdes baseadas na mercantilização da natureza

Esse texto foi publicado no Jornal Brasil de Fato, em 12 de abril de 2022, de autoria da organização Amigos da Terra Brasil.

Em 1992, durante a ECO-92, os Estados resolveram despertar para o problema das mudanças climáticas e assumir uma agenda comprometida com a redução das emissões de carbono. Naquele momento, ganhava força uma nova narrativa para modelo de desenvolvimento neoliberal, sua adjetivação como sustentável. 

Buscando atender a agenda, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) criou em 2008 a Iniciativa Economia Verde. Em sua definição, a economia verde, como ficou conhecida, seria a alternativa ao modelo econômico dominante que ameaça a saúde humana e o meio ambiente, tornando a economia mais sustentável por meio da inclusão social, maior eficiência no uso de recursos naturais, estímulo ao consumo consciente, estabelecimento de políticas de baixo carbono ou carbono zero. 

Diversas iniciativas decorreram da economia verde, como a criação do mercado de carbono, que passou a incluir as florestas por meio de políticas de Redd e Redd+; a propagação da “agricultura climaticamente inteligente”, assentada no uso de transgênicos e agrotóxicos; a promoção do uso de energia limpa, por meio do emprego de fontes renováveis, incluindo hidroelétricas, eólicas, solares, agroenergia e da transição energética nos países. Mais recentemente, esse pacote foi apresentado como soluções baseadas na natureza (SBN), que buscam a compensação ambiental, contabilizada em carbono ou biodiversidade, para justificar a continuidade do avanço de projetos destrutivos dos territórios e, assim, também do clima e do meio ambiente. 

Todas essas políticas que partem de atribuir valor econômico para a natureza, não por acaso são promovidas por grandes setores industriais e grupos empresariais, muitos deles diretamente responsáveis por cadeias de valores entre as maiores emissoras de gases de efeito estufa (GEE), como a do agronegócio. Dessa forma, ao invés de serem responsabilizados por contribuírem para a crise climática, esses atores são os protagonistas das novas “soluções”. Ao contrário de frear a destruição, criam-se mecanismos para que ela possa continuar, desde que compensando.  

Desde a Rio+20, organizações da sociedade civil e movimentos populares alertam para essas “falsas soluções”, à medida que as “inovações” propostas não respondem à pergunta de como proteger, preservar, restaurar e aumentar a biodiversidade, nem como reduzir as desigualdades sistêmicas que enfrentamos. Pelo contrário, a economia verde atua com políticas compensatórias que mantêm o paradigma da produção de danos. Ademais, reproduzem uma assimetria de poderes entre Norte e Sul global ao determinar os lugares onde se compensa e se produz danos, em geral ao Sul. E por fim, desconsideram o papel dos povos e comunidades na gestão comunitária da sociobiodiversidade. 

Essa visão utilitarista da Natureza tem causado impactos que são desconsiderados. Segundo estudos da Amigos da Terra Internacional há uma conexão entre a expansão das soluções baseadas na natureza (SBN) com a expansão da fronteira agrícola, o desmatamento na Amazônia brasileira, o avanço da financeirização da Natureza; com a intensificação do uso de agrotóxicos e organismos geneticamente modificados e inúmeros danos sociais e ambientais pela adesão a políticas de crédito de carbono. 

Contexto: Novo relatório do IPCC destaca que mundo teria aumento de 3,2ºC com políticas climáticas atuais

Agora em 2022, que completa 50 anos da primeira conferência da ONU que tratou do tema do Desenvolvimento Sustentável, em Stockholm, na Suécia, o relatório divulgado pelo IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) confirma o crescimento das emissões de GEE e, consequentemente, o fracasso dos mais de 10 anos de economia verde em resolver a crise climática. Aponta, ainda o relatório, para a importância de uma visão integrada entre a crise ambiental, a saúde, as desigualdades e a produção de alimentos, reconectando a agenda do clima com um de seus propósitos iniciais: a erradicação da fome. Há, também, um destaque aos povos indígenas no relatório, que chama a repensar o papel dos povos da floresta na participação e decisão da questão ambiental no mundo, à medida que esses sujeitos têm proposto alternativas bastante sólidas para a transição como a agroecologia, o manejo comunitário dos ecossistemas, a produção de energia renovável de forma descentralizada em parcerias público-comunitárias etc. 

ACRE: “quem corre é os rios”

Um estado amazônico esquecido da política nacional é, há mais de uma década, alvo de experimento de políticas e projetos da “economia verde” no Brasil, o Acre. No final da primeira década dos anos 2000, a administração pública adotou o discurso da modernização do estado com base em construir um modelo de “economia verde” para o país. O primeiro passo foi a criação do Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais (SISA), implementando em todo o estado o REDD, do qual resultou a compensação de cerca de 18,5 milhões de dólares pelo governo alemão para manter a floresta em pé. Contudo, o que tem ido abaixo é justamente a floresta. Essa política sufocou as fontes de renda de comunidades extrativistas na região e atraiu fazendeiros. Para os povos que habitam a floresta, é apenas um “verniz ecológico” que oculta a captura de suas terras – e as conquistas de suas lutas sociais,  reconhecida mundialmente desde a década de 80 na história do líder sindicalista seringueiro Chico Mendes, impondo uma submissão a essa política. (Continua após o vídeo.)

Assista: https://www.youtube.com/embed/bVYA-77D6Mg?rel=0

Outro destaque é a ausência de conexão entre tais políticas climáticas, que deveriam estar baseadas ou enraizadas no chão, na natureza, com os direitos territoriais dos povos. Os recursos provenientes do Redd+ servem para cooptar lideranças e dividir comunidades, impondo outras formas de organização social. Não são recursos aplicados para assegurar os direitos coletivos à terra e direitos associados aos territórios, como água, autodeterminação, direitos das mulheres. Assim, tais políticas estão deslocadas dos contextos locais, não promovendo demarcações de Terras Indígenas e desenvolvimento local, pelo contrário, significam desterritorialização, perdas culturais. 

A sociedade civil e movimentos sociais têm se organizado há décadas para resistir à invasão da economia verde em seus territórios, construindo poder popular para incidir na agenda climática. Ao longo dos anos, essas articulações foram se dando em torno de alguns objetivos comuns: compreender e denunciar os impactos dos projetos e programas da economia verde nos territórios, com protagonismo dos povos indígenas, extrativistas e comunidades tradicionais, e fazer a resistência ao processo de mercantilização e financeirização da natureza, em curso no estado, no Brasil e no mundo. Um dos exemplos dessa construção é o Coletivo Carta de Belém, que tem levado críticas e demandas de um conjunto de organizações e de movimentos sociais do Brasil às COPs de Clima (Conferências das Partes organizadas pela ONU). 

As propostas populares começam com a exigência de reduções reais das emissões de gases de efeito estufa (GEE), tendo como objetivo a mudança de sistema para não mudar o clima, responsabilizando efetivamente poluidores e não sobrecarregando povos com a conta ambiental. A segunda proposta reside em organizar a resistência para denunciar e paralisar as falsas soluções do capitalismo verde, sobretudo na crítica aos mercados de carbono e biodiversidade. “É preciso apagar – de uma vez por todas do livro de regras climáticas e sobrevivência humana – o artigo que permite negociar e lucrar com medidas que violam direitos e modos de vida das pessoas nos seus territórios, e que em nada contribuem para evitar o aquecimento acelerado do planeta” como propõe a Amigos da Terra Brasil, em publicação lançada nesse mês, um Abril de mobilizações indígenas históricas, em parceria com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e o Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (WRM).

Para onde vai o Brasil?: como trabalhar com a Natureza

Até agora, os governos têm assumido a agenda da economia verde como resposta aos impactos da crise climática no país, quando não escancaradamente a dos grileiros, desmatadores, garimpeiros e poluidores, como acontece no governo atual. Tendo sido o Brasil um país sede de tantas importantes conferências e debates ambientais globais, a questão segue complexificada e maquiada, exigindo um debate público mais amplo e qualificado para além da mera adesão às propostas de mercado. Ao pensar no projeto político que queremos construir para os próximos anos, devemos assumir uma noção e prática de respeito à Natureza e trabalhar com ela para a nossa soberania. Nesse sentido, existem inúmeras experiências práticas construídas pelos movimentos e povos organizados no país, como a agroecologia, a construção da soberania alimentar, a gestão comunitária de florestas e outros ecossistemas, que se relacionam de maneira profundamente humilde, com compreensão e respeito pela Natureza e com a cultura popular.

As comunidades vêm administrando seus territórios de forma sustentável ao longo de gerações, por meio de abordagens que são profundamente ecológicas e pedagógicas. Nesses casos, o que é necessário é um ambiente institucional colaborativo e uma governança responsável que proteja as comunidades locais e indígenas das ameaças colocadas pela expansão do agronegócio, que força as pessoas a abandonarem seus territórios e ecossistemas ou a defendê-los.

Para enfrentar a crise climática, os governos devem começar urgentemente a cooperar para uma eliminação gradual coordenada da produção e consumo de combustíveis fósseis, com equidade, indo ao coração desse problema, que é repensar o modelo produtivo. Precisamos acelerar a transformação para um mundo justo, transformando nosso sistema energético, incluindo princípios como suficiência energética para todos, soberania energética, democracia energética, energia como um bem comum, energia 100% renovável para todos e energia renovável de baixo impacto, com gestão comunitária e com controle social das políticas no setor.

O Brasil que queremos é um país líder internacional na promoção de experiências concretas de combate à crise climática, construídas dentro de um profundo processo democrático participativo. Para um governo que virá, chamamos a atenção às falsas soluções ambientais que promovem maior dependência econômica do país, e não se mostraram efetivas para as mudanças climáticas. Instamos a investir em saídas muito mais simples e acessíveis, baseadas nos saberes do povo brasileiro, como repensar o modelo agrícola, o conservacionismo ambiental, os investimentos privados em energia e investir acreditando nos povos como sujeitos políticos protagonistas das transformações que necessitamos fazer.

*Amigos da Terra Brasil (ATBr) é uma organização que atua na construção da luta por Justiça Ambiental. Quinzenalmente às segundas-feiras, publicamos artigos sobre justiça econômica e climática, soberania alimentar, biodiversidade, solidariedade internacionalista e contra as opressões. Leia outros textos.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Marcelo Ferreira e Vivian Virissimo