A talhadia é um método ou sistema de manejo florestal que consiste basicamente no corte raso do elemento arbóreo para o aproveitamento dos seus rebrotes durante inúmeros ciclos. Na Europa e no Japão, onde há extensa documentação sobre o tema e seu uso, ela é considerada a mais antiga forma sustentável de manejo de bosques e florestas.
Os rebrotes podem se originar do cepo ou das raízes, majoritariamente das angiospermas, ou seja, plantas lenhosas de folhas largas (latifoliadas) – em oposição às lenhosas com acículas – cuja semente está envolta em fruto. Supõe-se que esse mecanismo foi desenvolvido para que a árvore, quando cortada, quebrada ou arrancada, consiga ultrapassar rapidamente o estrato herbáceo e arbustivo baixo, sombreando-os e mantendo, assim, uma vantagem competitiva.

O manejo por talhadia é feito em ciclos de 1 a 40 anos, dependendo principalmente do uso e da espécie. Teoricamente, esse processo pode ser repetido indefinidamente, havendo indícios de florestas manejadas desta forma por muitas centenas de anos. Em geral, o corte é feito no inverno pelas seguintes razões: menor estresse da árvore; menor ataque de insetos, bactérias e/ou fungos, reduzindo a chance de doenças e infecções; menor chance de dano pelas geadas aos rebrotes de primavera; menores danos ao solo e à vegetação durante as operações de corte e transporte; divisão do trabalho ao longo do ano.
No contexto de comunidades rurais, a talhadia oferece diversos produtos que ainda se mantêm importantes hoje em dia, como pequenos postes, lenha, forragem animal, carvão, cobertura para estruturas, materiais para cercas, cabos de ferramentas, materiais para artesanato, cascas (tanino) e fibras, produtos medicinais, tora para produção de cogumelos, cobertura de solo, entre outros.
Várias são as formas de aplicar a talhadia, a depender dos usos, espécies, escala e hábito cultural (humano). Tradicionalmente, na Europa, encontramos a Talhadia Simples e a Talhadia Intercalada (em inglês, coppice with standards). No método chamado Simples, todo lote é manejado para rebrota, havendo geralmente uma ou poucas espécie arbórea de interesse. Já no Intercalado, algumas árvores são cortadas para o rebrote enquanto outras são deixadas para crescer em alto fuste (madeiras mais nobres para construção). A tolerância à sombra é crucial na escolha das espécies que serão cortadas (e ficarão por baixo) e as que crescerão desimpedidas.
Outras variantes de sistemas dizem respeito à altura do corte e ao ciclo. Quando o gado é integrado no manejo florestal ou animais silvestres usam o lote, é comum que danifiquem os ramos novos. Para evitar a herbivoria, faz-se o corte acima da altura da cabeça do animal, em torno dos 2 metros de altura. Em inglês, esse método se chama Pollarding, enquanto em português poderia ser chamado “desrama alta” ou, apesar de ser realizado com outra finalidade, um corte parecido é chamado, no meio agrofloresteiro, de “poda apical”. Com relação ao ciclo, há a Talhadia de Ciclo Curto (entre 2 e 5 anos) e a de Ciclo muito Curto (anual).

Como principais vantagens desse sistema, podemos destacar a simplicidade do manejo (ferramentas e procedimentos), a rápida regeneração e o curto tempo dos ciclos, enquanto alguns dos seus benefícios seriam a segurança energética na escala doméstica e comunitária, a manutenção de meios de vida locais e artesanais, a preservação das florestas nativas e um legado florestal qualificado. Destacamos que esses benefícios são culturais e não apenas focados num tipo de corte de árvore. Como desvantagens, temos a não adequação dos pinheiros (gimnospermas) para a talhadia, pois respondem mal ao rebrote, o tamanho relativamente pequeno da madeira extraída, e nos dias de hoje, a falta de conhecimento, mão de obra e mercado para os produtos obtidos com esta técnica.
Durante o século XX, a talhadia como sistema de manejo passou por uma queda abrupta seguida, mais recentemente, de um renascimento. Mudanças político-econômicas advindas da neocolonização europeia alteraram a exploração madeireira transformando-a num verdadeiro mercado global, destruindo florestas e modos de vida por todo mundo. Manejos tradicionais foram substituídos por monoculturas de alto fuste (plantations), com eucaliptos, pinus, teca, seringueira, acácias e abetos. O desenvolvimento de máquinas com motor de combustão interna, movidas a combustíveis fósseis, como tratores e serras, ampliaram dramaticamente o corte de florestas antigas de espécies nativas, sendo rapidamente substituídas por espécies exóticas de crescimento rápido. Isso criou ambientes propícios para a degradação do solo e o aparecimento de pragas e doenças. Até 1945, as principais plantations na América tropical eram de pequena escala, usada com o propósito de proteger as cidades, além de fornecer lenha, dormentes e madeira para mineração. A eletrificação rural e os objetos feitos de plástico tornaram os usos da talhadia quase obsoletos.

Após a II Guerra Mundial, entretanto, a demanda europeia por madeira para reconstrução do continente explodiu. Junto, apareceram diversas agências internacionais, como a FAO, fornecendo aos países “em desenvolvimento” “recursos financeiros, auxílio para desenvolvimento e conhecimento técnico” para plantação de florestas na lógica industrial. A esta altura, a talhadia havia se reduzido a uma prática anedótica, sendo que a maioria das áreas da Inglaterra, por exemplo, teriam sido abandonadas.
Porém, no final do séc. XX, a preocupação com a destruição dos solos e o aquecimento global impulsionaram a pesquisa sobre sistemas agroflorestais, mostrando a importância do elemento arbóreo dentro dos sistemas agrícolas para a manutenção dos serviços ecossistêmicos nos diferentes biomas do planeta. Neste momento, então, ressurge o interesse pela talhadia.
Todas as culturas tradicionais manejavam a floresta, pois dela dependiam para energia, fibras, materiais de construção, produtos medicinais, comida, conexão espiritual, água, etc. No japão, temos as Satoyamas, florestas de pé de monte às margens dos vilarejos. Na América central, o sistema Quesungal e Kuxur Rum; na América do Sul, as florestas de Araucárias, o sistema Cabruca, e mesmo os faxinais.

Nos sistemas agroflorestais (SAF) contemporâneos, dos mais simples, como o silvipastoril (com uma espécie arbórea) aos mais complexos, como os sucessionais, os usos do elemento arbóreo se concentram em duas frentes principais: árvores de serviço (para cobertura do solo através de podas) e árvores do futuro (para madeira de qualidade e frutos). Entretanto, em comunidades rurais tradicionais, os usos são muito mais diversos, como exemplificamos anteriormente.
A complexificação dos SAF se dá através da diversificação taxonômica ou funcional, ou seja, com mais espécies ocupando diferentes nichos da área manejada. Essa diversificação, somada a um manejo adequado, garante a boa provisão de serviços ecossistêmicos. Nos diversos biomas, isso se dá através do uso de espécies nativas ou exóticas, respeitando principalmente seu ciclo de vida (tempo produtivo) e sua necessidade relativa de luz solar. E para manter o sistema “pulsando”, num equilíbrio ótimo entre produção primária, acúmulo de carbono no sistema e regeneração, é preciso conhecer a capacidade de rebrote das árvores.
Agora, se quisermos “resetá-lo”, ou seja, recomeçar a produção cortando todas as plantas e aproveitando a matéria orgânica acumulada, os nutrientes, a estrutura do solo, a capacidade de retenção de umidade e a vida microbiana consolidada, é imperativo o desenvolvimento de um sistema de talhadia agroflorestal voltado para as árvores nativas de cada região.
Referências
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