Introdução

Nota sobre a tradução: O texto que segue é fruto de tradução coletiva realizada num grupo de estudos sobre o livro. É permitido seu uso para fins não comerciais.


O futuro chega quase todos os dias agora
cada vez com uma força deslumbrante
onde — ­e como
— ­encontraremos nosso paradeiro?

A ação humana transformou o planeta — ­de seu clima às suas formas de vida, à sua hidrologia e química. Essas mudanças levaram ao uso do termo “Antropoceno” como época de mudanças ambientais influenciadas pelo ser humano. O Antropoceno é planetário. No entanto, como este livro demonstrará, ele também é pessoal e próximo. É impossível compreender o Antropoceno sem descobrir o que está acontecendo em lugares específicos: os fragmentos de nosso título. Isso não é porque as condições planetárias têm efeitos e instanciações locais, como tantos estudos mostraram; em vez disso, como este livro argumenta, os fragmentos criam o Antropoceno, incluindo suas formas planetárias. Embora a modelagem de big data tenha sido útil para trazer a ideia do Antropoceno à cena, aprender mais sobre ele exige estudos e histórias de campo descritivos, isto é, atenção fina aos fragmentos. O que os observadores encontram também pode nos surpreender ainda mais: em todas as escalas, a natureza está mudando por meio de seu emaranhamento com a infraestrutura humana. A nova Natureza é feral. Como podemos, como observadores, re-afinar-nos com ela? Um guia de campo pode ajudar.

Considere o besouro vermelho da terebintina, Dendroctonus valens, descrito pelo biólogo Scott Gilbert.1 Este besouro vive sob a casca das árvores de pinheiros danificadas, perfurando túneis e criando galerias para procriação que podem matar a árvore destruindo seu sistema vascular. Em sua América do Norte nativa, esse besouro não causa muito dano, mesmo quando está coberto pelo fungo Leptographium procerum, que ajuda o besouro a perfurar ao digerir a madeira. O besouro só alcançou a atenção global quando foi encontrado numa carga industrial de madeira não processada enviada da América do Norte para a província de Shanxi na China nos anos 1980. Lá, o besouro foi capaz de formar uma associação com uma variedade local mais potente do fungo simbiótico L. procerum. Trabalhando juntos, essa variedade local mais potente do fungo e esse besouro importado começaram a matar árvores em massa. Eles até mesmo ludibriaram as árvores fazendo-as causar sua própria morte: o fungo estimulou as árvores a produzir químicos voláteis que atraíram mais besouros mortíferos cobertos de fungo. Gilbert relata que mais de 10 milhões de árvores foram mortas na China, afetando os esforços de reflorestamento. Olhando para o futuro, parece provável que o fungo potente de Shanxi cubra besouros que façam a viagem de volta em carga industrial de madeira para a América do Norte novamente. Gilbert se dirige aos leitores norte-americanos ao citar um oficial de gerenciamento de pragas: “Tenham medo”.

O besouro vermelho da terebintina conduz a história deste livro em várias maneiras. Primeiramente, sua aparição na China depende inteiramente do comércio industrial de madeira; o besouro não teria formas de chegar à China sem essa troca. No vocabulário deste livro, a ocorrência chinesa do besouro é feral — isto é, transformada pela infraestrutura humana mas não controlada pelos projetistas humanos. O termo “infraestrutura” se refere aqui aos projetos humanos que mudam a paisagem — ­como navios, estradas e armazéns que movem madeira ao redor do mundo. Os besouros tornam-se ferais ao aproveitar o comércio global de madeira.

O conceito de ferocidade (ao qual voltaremos posteriormente nesta introdução) exige que os pensadores prestem atenção tanto aos arranjos humanos quanto às respostas não humanas. Chamar o besouro de feral sinaliza que, em vez de desconsiderar o comércio por ser parte necessária da condição humana, precisamos estudar as condições específicas e rotas da cadeia de commodities. Chamar o besouro de feral também concentra atenção no próprio besouro, pois ele atraiu um novo parceiro fúngico em seus túneis em Shanxi. Afinal, como os seres se transformam em respostas às infraestruturas humanas e como eles refazem o mundo? O termo “feral” força a atenção ao que era antes escondido no vazio entre “selvagem” e “doméstico”.

O besouro vermelho da terebintina carrega um segundo ponto do livro. Juntamente com seus aliados fúngicos, os besouros ajudam a moldar o Antropoceno exatamente por causa de sua ocorrência esparsa. O besouro é originário da América do Norte. A potente variedade de fungo vive em Shanxi, na China. Esses lugares são importantes para a história: é a transferência do besouro para um novo lugar que provoca sua aliança com um fungo local potente, levando à morte de milhões de árvores. O fenômeno da morte de árvores nesta história surge por causa da distribuição esparsa de besouros e fungos. É isso que provoca o medo dos estadunidenses, que temam que o besouro volte com poderes novos e mortais. Manchas (fragmentos) e corredores são centrais para a reconfiguração da terra que caracteriza o Antropoceno. Este livro mostra como trazer uma análise espacial – ou seja, uma análise de manchas e corredores – para a descrição do Antropoceno.

A heterogeneidade do tempo também é importante. A história do besouro, ao encontrar o fungo potente, é relevante; esse encontro aconteceu não apenas em um lugar específico, mas também em um momento particular – do comércio transnacional de madeira, dos esforços de reflorestamento em Shanxi e da evolução e dispersão dos fungos. Enquanto isso, essa história se desenrola à sombra da possibilidade de uma ruptura ecológica, caso as florestas desta região sejam privadas inteiramente de uma espécie, juntamente com os insetos, fungos, musgos e outros seres que dependem dela.2 Coordenações temporais – e descontinuidades – são elementos-chave do Antropoceno.

Argumentamos que os complexos de infraestrutura humana rompem as coordenações temporais que sustentam a vida multiespécies. Infraestruturas produzem efeitos ferozes porque modificam a terra, a água e o ar, causando respostas de todos os seres que encontram essas modificações. Ao longo da história de nossa espécie, os seres humanos se envolveram em projetos de modificação da paisagem – como queimar para criar espaços de pastagem para caças, fazer pequenas barragens para pesca, incentivar algumas plantas em detrimento de outras, entre muitos outros. Reinos pré-coloniais incentivaram projetos de infraestrutura muito mais radicais, como transformar rios, mas esses tendiam a ser limitados a áreas sob governança regional direta. Para considerar como os seres humanos se tornaram uma força geológica – movendo mais terra do que as geleiras da Era do Gelo, causando extinções mais rápidas do que qualquer coisa, exceto um meteoro, e mudando o clima de tal forma que pode levar milhões de anos para se reajustar – algo mais do que apenas “ser humano” entra em jogo. A expansão imperial da Europa, por um lado, e o investimento capitalista, por outro, mudaram radicalmente o impacto da presença humana na Terra por meio de enormes projetos de construção de infraestrutura, que modificaram terra, água e atmosfera de maneira sem precedentes. Efeitos ferozes seguem essas transformações radicais. Este livro argumenta que as infraestruturas imperial e industrial dos últimos quinhentos anos deveriam ser destacadas por sua força excepcional em mudar a superfície da Terra.3 O poder de suas economias políticas permitiu terraformação em uma escala que supera intervenções humanas anteriores. Essa terraformação é perigosa para a vida na Terra, humana e não humana. É por isso que imaginamos este livro como um conjunto de materiais para “desconstruir”. Desmantelar imensas extensões de infraestrutura imperial e industrial pode ser nossa melhor oportunidade para sustentar a habitabilidade mais-que-humana.

Mais um ponto deste livro se baseia no besouro vermelho da terebintina: a atenção para os seres, lugares, ecologias e histórias do Antropoceno pode reacender a curiosidade e a admiração em relação ao nosso planeta danificado, mesmo enquanto nós, seus habitantes, nos esforçamos para mudar as coisas. É por isso que produzimos um Guia de Campo. Queremos inspirar os leitores a olhar ao redor de maneiras novas. Gilbert explica como o besouro vermelho da terebintina e o fungo juntos formam uma concepção monstruosa recém-reconhecida: um “holobionte”, uma assembleia de seres que evolui e se adapta em conjunto. Tradições anteriores da biologia e história natural passaram por esses seres, com sua complexidade multiespécies. Esta e outras formas de empolgação aguardam os leitores que ousarem explorar mais a fundo.4

Por que um Guia de Campo?

Guias de campo nos ensinam a perceber, identificar, nomear e, assim, apreciar melhor os mundos mais-que-humanos. Eles fornecem os detalhes descritivos pelos quais podemos aprimorar nossos poderes de observação, ao mesmo tempo que oferecem acesso a informações especializadas que talvez não conseguíssemos obter por conta própria. Sair pelo mundo com um guia de campo na mão é comprometer-se a se abrir e se sintonizar de novas maneiras. É o início de uma prática relacional de aquisição de conhecimento que tem o potencial de cultivar conexões mais profundas com os ritmos, relações e vulnerabilidades dos mundos mais-que-humanos: uma arte de percepção que exige que você desenvolva capacidades comparativas, juntamente com uma apreciação pela forma, cor, textura e movimento; um modo que marca um compromisso deliberado de reorientar-se no mundo; um exercício que pode levar você a notar coisas que estão tanto dentro quanto fora do lugar; um hábito sintonizado com os ritmos de florescimento e declínio; uma atenção que permite que você perceba e sinta falta de criaturas que não estão mais presentes juntamente com o que permanece e se acumula em seu lugar.

Fizemos o Guia de Campo com a convicção de que, se quisermos aprender a lidar melhor com estes tempos de catástrofe ambiental causada pelo ser humano, é essencial refletir mais atentamente sobre como chegamos onde estamos. É claro que não há uma única resposta para essa questão. Da mesma forma, não há um “nós” ou “onde” singular capaz de explicar adequadamente o que está acontecendo—sem mencionar o que está em jogo e para quem e de que maneira—à medida que as ecologias cambaleiam e tropeçam pelo planeta.

Este livro mostra como a heterogeneidade espacial e temporal pode ser útil na análise do Antropoceno. Nas práticas que defendemos, as ecologias sociais feitas com o pé no chão são pelo menos tão importantes quanto os experimentos teóricos, como os modelos climáticos de circulação geral da atmosfera, usados para imaginar uma escala planetária. Isso envolve mais do que simplesmente encaixar formas convencionais acadêmicas em papéis já esperados. Em vez disso, como mostraremos, a análise de um “Antropoceno fragmentário” possibilita uma nova forma de atenção ao particular dentro do planetário—e ao planetário dentro do particular.5

Descolonizando a História Natural para o Antropoceno

Dê uma olhada na palmeira cícada… Essa é a minha märi [avó materna ou tia-avó materna]. Ela pertence à terra, às histórias e canções do clã da minha avó, o povo Wangurri. Märi é a chefe da cerimônia e de tudo, na verdade. Märi é nossa espinha dorsal. É assim que é para nós. Isso é gurrutu, o que vocês chamam de família ou parentesco.

— Ancião Yolŋu Paul Gurrumuruwuy

Nas últimas décadas, a história natural caiu em desuso nas ciências, onde a ascensão dos megadados (big data) reconfigurou substancialmente os fundamentos da pesquisa e análise. Imagens de satélites e conjuntos de dados compostos podem parecer tornar as observações em campo obsoletas em relação a questões planetárias. Recentemente, no entanto, e sem dúvida em resposta à conscientização pública sobre danos ambientais, a história natural tem passado por um ressurgimento impressionante.

FIGURA 1: Märi de Paul Gurrumuruwuy. MIYARRKA MEDIA

Como sugere a professora de biologia e cidadã da Nação Potawatomi, Robin Wall Kimmerer, para abordarmos a pergunta cada vez mais urgente de Como devemos viver?, precisamos começar a prestar mais atenção ao mundo ao nosso redor.6 Enquanto escrevíamos este livro, abundavam novos tipos de escrita em história natural—filmes, websites e exposições também.7 Pelas humanidades, ciências e artes, novos tipos de pesquisa transdisciplinar e projetos de conscientização encontram energia e propósito no trabalho de cultivar sintonias com as relações ecológicas situadas, promovendo reorientações às vezes radicais em direção a mundos de vitalidade e coexistência mais-que-humanos.8 Na verdade, à medida que as ciências sociais e as humanidades continuam a lidar com o papel central da história natural em projetos coloniais e imperiais, os museus de história natural tornaram-se locais importantes para intervenções que desafiam diretamente os sistemas de conhecimento modernistas e os valores que eles instauram. Nem todas essas intervenções têm o mesmo compromisso com a descolonização do conhecimento que oferecemos aqui. No entanto, acreditamos que podemos trabalhar em diálogo com esses projetos, expandindo-os para oferecer histórias naturais alternativas e plurais.9

A história natural oferece artes de perceber (arts of noticing) que podem levar os praticantes além das narrativas que a ideia de progresso ofusca para atender às temporalidades daqueles outros vivos e não vivos que compartilham o planeta com os humanos—e que tornam possível a própria sobrevivência humana. A história natural que defendemos aqui reconhece os não humanos—como os besouros vermelhos da terebintina—como protagonistas históricos robustos por seu próprio direito. Ao fazer isso, ela contribui para uma recalibração urgente das categorias de natureza e história, sem mencionar a relação há muito negligenciada entre as duas. Ao trazer perspectivas fundamentadas em histórias materiais que interagem dinamicamente, a história natural do Antropoceno que promovemos é sempre social e cultural. Na verdade, consideramos isso uma lição fundamental do Antropoceno. Ao promover uma história natural revitalizada, não evitamos o fato de que a história da história natural permanece indelével e implicada na avareza brutal e nas tipologias racistas do colonialismo. Um meio de reconhecer esse legado tem sido tornar central em nossos métodos o trabalho de identificar histórias em curso de invasão, espoliação e extração.

Também introduzimos outras maneiras de descolonizar a história natural. Primeiro, abrimos espaço para uma variedade de legados e práticas de observação, em vez de limitar a observação aos cientistas ocidentais. Reconhecemos observadores não ocidentais de muitos tipos, assim como muitos admiradores indígenas e vernaculares do mundo natural.10 Nossa história natural é maravilhosamente contaminada por uma diversidade de formas de empirismo. Assim, ela oferece um olhar crítico sobre tradições imperiais que se imaginam universais. Em segundo lugar, nossa história natural está sempre combinada com a história social—incluindo questões de justiça social e ambiental.11 Não pretendemos segregar o natural do cultural; em vez disso, exploramos como os fragmentos do Antropoceno são criados ao permitir que a injustiça social molde a catástrofe ambiental. Em terceiro lugar, em vez de permitir que as artes—incluindo a arte de mapear—meramente ilustrem nossa história social-natural, chamamos elas para definir e conceitualizar problemas. Ao recusar a estética convencional de uma arte sem raízes e sem contexto, por um lado, e ao expandir o domínio sensorial das ciências, por outro, mostramos formas pelas quais artistas situados e acadêmicos criativos podem co-criar conhecimento. A elaboração de mapas, em particular, é um método para aprender sobre o Antropoceno.

Nosso método para trabalhar em diferentes modos de fazer história natural é “empilhar” muitas formas juntas. Em vez de trabalhar em direção a uma única linguagem comum, justapomos e acumulamos múltiplos tipos de empirismo. “Empilhar” é uma prática de conhecimento que abraça formas heterogêneas de conhecimento sobre o Antropoceno, reunidas sem a imposição de uma teoria preestabelecida ou hierarquias disciplinares estabelecidas. Embora esta não seja a única maneira de descolonizar a história natural (veja a Parte IV), é uma abertura para as muitas histórias naturais que nos cercam, se apenas nos permitirmos notá-las.

No processo de observar os retalhos (fragmentos), esperamos que os usuários do Guia de Campo possam encontrar “fragmentos do Holoceno”, para usar o termo cunhado por Zachary Caple para designar os retalhos em que mutualismos evolutivos de longa data, como arranjos que ligam polinizadores e plantas com flores, permanecem saudáveis.12 A história natural do tipo que defendemos pode encontrar retalhos prósperos, mas também aterradores, e é importante ser capaz de reconhecer a diferença entre eles. Desta forma, também poderíamos começar a pensar em limitar a disseminação dos piores retalhos do Antropoceno, enquanto preservamos e nutrimos refúgios para ecossistemas holocênicos. Aprender a observar e descrever o Antropoceno fragmentário nos permite notar processos, protagonistas e conexões que podem nos mostrar como deter as proliferações do Antropoceno.

Assim, usamos o termo “guia de campo” neste livro de uma maneira bastante literal, não apenas como uma metáfora. Nosso objetivo é permitir que os leitores compreendam o Antropoceno por meio da particularidade das observações em múltiplas escalas, ao mesmo tempo em que inspiramo-los a se envolverem nessa prática, observando o mundo através dos fragmentos do Antropoceno. Mesmo quando nos voltamos para movimentos maiores, que abrangem o planeta, nossa análise permanece próxima a organismos, conjuntos ecológicos e paisagens particulares. Ela também mostra como as convenções estabelecidas da história natural—herdadas de europeus envolvidos em aventuras coloniais—não são suficientes.

Narrativa e Observação: Uma Abordagem Feminista para o Antropoceno

O ensaio de Ursula Le Guin, “A ficção como cesta: uma teoria” (“The Carrier Bag Theory of Fiction”, traduzida ao português por Priscilla Mello), oferece orientações importantes para os tipos de histórias necessárias para um guia de campo sobre o Antropoceno fragmentário.13 Le Guin contrasta as histórias do Homem Caçador, onde a ação se desenrola na ponta de uma lança, com aquelas que oferecem os ritmos das atividades de coleta das mulheres, que reúnem histórias diversas. As primeiras oferecem grandes histórias singulares; as últimas prestam atenção à heterogeneidade e aos efeitos contingentes. Nosso Guia de Campo oferece uma cesta de histórias, como é apropriado para um guia sobre o Antropoceno fragmentário. Isso não significa que abandonamos o panorama geral; pelo contrário, buscamos constantemente efeitos estruturais e fora de escala. Mas vemos esses efeitos produzidos através das dinâmicas dos fragmentos, em vez de como efeitos preconcebidos de algoritmos planetários.

Nas ciências sociais, abordagens tipo cesta de coleta foram associadas a teorias de articulação, especialmente em abordagens feministas ao capitalismo. Como argumentou J. K. Gibson-Graham, abordagens masculinistas empenhavam-se em produzir narrativas mestras de um capitalismo singular e todo-poderoso; negligenciaram as dinâmicas concretas através das quais economias diversas foram criadas e interligadas.14 O “Manifesto Gens” e seus interlocutores seguiram essa percepção para mostrar como articulações entre parentesco e organização industrial podem moldar as histórias pelas quais a economia política capitalista se desenvolve.15 Nesse espírito, em vez de considerar a mudança climática planetária, avaliada através de modelagem de computador, como o único índice das transformações do Antropoceno, consideramos como as infraestruturas humanas em tempos e lugares específicos reformulam espécies, geologias e, de modo mais geral, os ambientes. Isso leva a histórias ancoradas em lugar e tempo: por isso, um guia de campo.

Uma abordagem de guia de campo é uma maneira de fazer “teoria”. Aqui, a teoria se adere ao material em análise, em vez de ser imposta a partir de fora, como um dogma. Livre do objetivo da pureza teórica, uma variedade de ferramentas explicativas pode ser utilizada para iluminar as histórias deste livro. Imagine a cena de coleta evocada por Le Guin. Cavando uma raiz comestível ou pegando um sapo, cada atividade requer ferramentas diferentes. A teoria prepara nossa prática de narrativa para que ela sirva como uma ferramenta para perceber os fragmentos/retalhos, os corredores, os efeitos de borda e as articulações do Antropoceno. Isso também significa que contamos histórias através de muitos detalhes. Os detalhes são importantes para que a história seja bem contada.

Ao longo do Guia de Campo, as leitoras aprenderão sobre lugares, tempos e formas de vida particulares. Busque inspiração nisso para encontrar cenas além daquelas que identificamos aqui. Use-o para reunir suas próprias histórias.

Mais Sobre o Feral

O Guia de Campo é escrito em diálogo com nosso projeto digital, Atlas Feral: O Antropoceno Mais-­Do-­Que-­Humano.16 (Para saber mais sobre como utilizar esse projeto, veja o Apêndice.) O Atlas Feral é um projeto de mapeamento no qual relatórios de campo, baseados em observações empíricas, descrevem fragmentos do Antropoceno. O Guia de Campo depende do Atlas Feral para muitos de seus estudos de caso e abre seu terreno conceitual para outras discussões. Assim, o Guia de Campo dá continuidade à nossa exploração do feral.

Feralidade, em nossa definição, é o estado de seres não humanos envolvidos com projetos humanos, mas não da maneira como os criadores desses projetos planejavam. Nossa definição se baseia, mas também se amplia, no uso comum do termo “feral.” Um porco é considerado feral quando deixa a fazenda para viver na floresta. (Note que a feralidade não é necessariamente uma característica da espécie: o porco na fazenda possui a mesma assinatura genética que o porco feral.) Precisamos apenas expandir um pouco esse termo para ver a trepadeira de folhas grandes, kudzu, como feral quando ela salta para fora dos espaços onde foi plantada e sufoca casas e árvores. Mas também estendemos o termo para entidades não vivas. O dióxido de carbono, para nós, é feral quando se desloca das indústrias que queimam combustíveis fósseis. Aqui, a entidade feral, dióxido de carbono, é identificado por seus efeitos antropogênicos não planejados: acumulando-se em concentrações atmosféricas que não podem ser nem controladas nem ignoradas.

A feralidade é importante para um guia de campo sobre o Antropoceno fragmentário porque mostra as atividades autônomas dos não humanos, mesmo aqueles mais afetados pelas infraestruturas humanas. Sem o conceito de feral, é muito fácil cair em uma dicotomia que inclui apenas o selvagem e o doméstico. As coisas selvagens são imaginadas como não tendo nada a ver com os humanos; os domésticos são imaginados como completamente sob controle humano. No Antropoceno fragmentário, muitos não humanos (vivos e não vivos) são responsivos às ações humanas sem se submeterem, nem que seja um pouco, ao controle humano. É esse conjunto de seres que chamamos de feral.

O conceito de feral é projetado para instigar os leitores a reconhecerem a relação entre as infraestruturas humanas e os seres que respondem a elas: ambos merecem estudo cuidadoso. Convencionalmente, os cientistas naturais têm estudado os seres sem se preocupar com as relações antropogênicas nas quais estão entrelaçados. Convencionalmente, cientistas sociais e humanistas ignoraram as atividades dos não humanos, exceto quando estas se inserem em planos humanos. Os seres ferais exigem atenção de ambos os lados; prestar atenção ao feral força os leitores a reconhecer o entrelaçamento das trajetórias humanas e não humanas.

Como deve ser evidente a partir de nossa definição, a designação como feral não indica se aprovamos ou desaprovamos uma determinada ação feral. Árvores que crescem em um terreno abandonado são ferais — e maravilhosas por muitas razões ecológicas. Patógenos que evoluem resistência a antibióticos são ferais — e terríveis para os humanos que provavelmente morrerão de infecções. “Feral” não é um termo de avaliação política. Nossa definição é, portanto, bem diferente de usos alternativos, como a feralidade glorificada como masculinidade desenfreada, ou condenada como caos desenfreado.

Nestes tempos, os efeitos ferais nocivos se tornaram particularmente evidentes, e passamos muito tempo analisando-os no Guia de Campo — mesmo sem descartar a possibilidade de feralidades benignas ou benéficas. Em contraste com perspectivas sobre o Antropoceno que imaginam um tempo de triunfo humano, este livro mapeia os perigos dos efeitos ambientais induzidos pelo humano. O Antropoceno é um tempo de grandes problemas, e seria excelente se esta época pudesse ser o mais curta possível. Para os autores do Guia de Campo, reconhecer e dar testemunho das maneiras pelas quais assembleias mais-do-que-humanas geram dano ambiental é um primeiro passo necessário para entender as rupturas sociais e ambientais que compõem o Antropoceno.

Uma importante ressalva: não usamos o termo “feral” para nos referir a humanos ou a tecnologias e infraestruturas humanas. Pessoas vulneráveis sempre foram acusadas de uma selvageria desnecessária, e não nos juntaremos a esse coro. Para nós, as tecnologias e infraestruturas humanas são o aparato que produz a feralidade. Além disso, a adequação ou não dessas tecnologias e infraestruturas para atender às necessidades humanas para as quais foram projetadas não é relevante para nossa análise aqui. A feralidade vai além dos objetivos humanos. Infraestruturas que funcionam adequadamente e aquelas que funcionam mal (do ponto de vista humano) podem ter efeitos ferais.

A ação feral é rastreada ao longo do Guia de Campo— na identificação de fragmentos geográficos, nos efeitos inesperados da infraestrutura humana e nas biologias em mudança dos organismos que reagem à presença humana. Em cada parte do livro, desenvolvemos ainda mais o conceito de feral para ajudar a lhe orientação na descrição do Antropoceno.

Quem Somos Nós?

Qualquer projeto sobre processos globais leva a pensar sobre o uso do pronome “nós”. Este livro usa “nós” de duas maneiras diferentes. Na maior parte do tempo, quando você ler “nós”, pense nos coautores deste livro. No entanto, ocasionalmente, nós, os autores, chamamos nossos leitores de “nós”. A primeira pessoa do plural pode ser problematicamente presunçosa, saudando elites exclusivas. Ao mesmo tempo, novas formas de nós estão em formação — e os autores precisam delas para abordar o Antropoceno epistemicamente fragmentado que este livro descreve. Seguindo a crítica literária caribenha-americana Sylvia Wynter (veja o Capítulo 1), este livro visa abrir o “nós” da condição humana.20 Nosso “nós” é utópico, atingindo uma diversidade ainda não alcançada de perspectivas fragmentadas e preocupações sobrepostas. Nosso “nós” é um convite.

De fato, o “nós” dos coautores permanece uma coletividade em construção: uma voz compartilhada no papel composta por três antropólogos e um arquiteto com orientações e experiências disciplinares divergentes. Em reconhecimento a isso, enquanto a maioria dos capítulos que se seguem é coautoral, você também encontrará contribuições de autor único. No Capítulo 5, Alder Keleman Saxena mostra como o clima fora de estação pode revelar a fragmentariedade inerente às mudanças climáticas. Nos Capítulos 7, 8 e 9, Anna Tsing aprofunda as dinâmicas históricas do Antropoceno mais-do-que-humano, oferecendo ferramentas analíticas para rastrear interações cruciais entre histórias humanas e não humanas que se entrecruzam nas humanidades e ciências. No Capítulo 11, Feifei Zhou defende uma atenção aos processos de construir e desconstruir ao confrontar os danos sociais e infraestruturais do Antropoceno; e no Capítulo 12, Jennifer Deger apresenta um vislumbre de práticas cocriativas com o povo aborígene Yolŋu para sugerir uma abordagem de conhecimento colaborativo que vai além do “acúmulo”. Escrever este livro juntos — às vezes integrando nossas vozes em um único texto e às vezes colocando nossas perspectivas diferentes em conversa — aprofundou nosso compromisso compartilhado em desenvolver ferramentas metodológicas e analíticas para estudar as novas histórias naturais do Antropoceno. Em outras palavras, enfatizou nosso apelo por uma “epistemologia fragmentada”, que é o tema da Parte IV do livro.

Pois não há como escapar disso. Embora o mundo que estamos construindo nunca foi somente nosso, as histórias não humanas agora moldam o futuro para todos nós. Aprender a observar e descrever o Antropoceno fragmentário em toda a sua complexidade multi-sítio, multi-escala e mais-do-que-humana é essencial se quisermos encontrar maneiras de limitar sua força destrutiva. Apenas por meio de um esforço sustentado e coletivo de acumular observações e insights — fragmento por fragmento, perspectiva por perspectiva — podemos esperar identificar e, assim, lidar com os vários protagonistas, processos e infraestruturas através das quais o Antropoceno está sendo construído com um impulso aterrorizante. Não precisamos apenas de uma história natural renovada; precisamos de muitos tipos de historiadores naturais trabalhando em, e entre, fragmentos de todos os tipos para criar novas constelações de conhecimento e colaboração sobre o Antropoceno.

Pegue o Guia de Campo… e saia por aí.

Nota dos autores

Em março de 2024, quando a primeira tiragem deste livro já estava sendo impressa, a Subcomissão Internacional de Estratigrafia do Quaternário votou “não” a uma proposta para designar o Antropoceno como uma época geológica. Reportagens da imprensa sugerem que essa decisão decorreu de um desacordo sobre se um único sinal estratigráfico, abrangendo todo o planeta, poderia resumir os impactos geológicos da ação humana. Nos últimos quinze anos, a proposta de uma época serviu como um ponto de referência útil tanto para discussões políticas quanto acadêmicas. Mesmo que nossa equipe tenha proposto temporalidades alternativas, essa proposta constituiu um ponto de partida sólido. Com muita frequência, as mudanças climáticas são imaginadas sem levar em conta as implicações mais amplas da transformação da paisagem pela ação humana; o “Antropoceno” serviu para contrariar essa tendência. À medida que avançamos, o desafio será manter em vista as implicações planetárias da ação humana sem essa proposta. Este livro traça um caminho através do estudo da dinâmica que vai da escala local à escala planetária.

FIGURA 2: Uma paisagem desoladora: resíduos abandonados da mineração de lignito na região central da Dinamarca, com um cabo se desintegrando em primeiro plano. Anna Tsing