A primeira vez que participei da produção de erva mate foi em 2018 no Campo Molhado, RS. Na época, eu não sabia quase nada sobre o processo e acabei apenas carregando ramos e montando os “buquês” para botar em cima da cama do carijo. Não prestei muita atenção no jeitão da planta, mas descobri que precisava sapecar a erva para depois deixá-la secar durante toda a noite em cima do braseiro.

Agora, em janeiro de 2022, pude enfim estar presente em quase todas as etapas da produção.
No primeiro dia, fomos dar uma volta no erval. Fazia muito tempo que a área não era manejada. A floresta estava em recuperação, subindo acima das erva mates. A maioria dos pés tinham mais de 5 metros de altura. E várias árvores estavam com uma parte do caule apodrecida do topo até a base, o que parecia bem arriscado de subir.
Seguindo a previsão do tempo, decidimos usar um galpão para fazer o carijo, pois provavelmente haveria chuva. Alguns de nós tememos pela integridade do galpão de madeira: “será que o braseiro não vai ameaçar os esteios, os caibros as ripas das telhas?”. Pela lógica, se o calor fosse tanto ao ponto de queimar a madeira da estrutura, a própria erva pegaria fogo antes. Isso não aconteceria! Assim, ficamos tranquilos para trabalhar naquela parte coberta.
Coletamos uma boa quantidade de lenha seca e guardamos os troncos dentro do galpão. Como são 12 horas de secagem, é legal ter bastante lenha. Não saberia dizer aqui ‘quanto’.
Montamos uma cama de bambu, onde seriam acomodados os ramos e esta foi colocada em cima de uma estrutura provisória de modo que a erva ficasse a mais ou menos 1,5m de altura do chão.
No segundo dia, voltamos ao erval para a colheita. A época não era adequada, pois algumas plantas estavam florindo e outros já possuiam frutos. Para que as árvores mantenham seu vigor, o melhor seria podar no inverno (nos meses sem R). Porém, como queríamos ter erva agora, decidimos cortar no máximo metade da copa. E também, pela quantidade de árvores que havia no erval (dezenas!), o impacto de algumas podas seria pequeno. Enquanto estive lá no alto, aproveitei para podar as outras árvores ao redor, deixando assim a luz entrar novamente nas plantas que nos interessavam.
Assim que as podas eram feitas, outras pessoas carregavam os ramos para perto da fogueira para fazer o sapeco, que é mergulhar a erva no fogo alto para ela estalar. É um processo bem curioso, que soa como pipoca explodindo rápido. Pena que não tirei foto do resultado. A parte de traz da folha fica cheia de bolinhas arrebentadas.
Ouvi falar que essa parte da sapecada é bem importante para definir o amargor da erva. Se ela chegar a queimar, fica ruim.

Com as ramas sapecadas, tiramos os galhos grossos e levamos para o galpão só a parte que iria para o carijo. Isso ajudou muito no transporte, pois nossa carga estava bem mais leve do que se fosse levar tudo (eu diria que é menos da metade do peso e do volume).
No último dia, organizamos a erva na cama, montamos tudo em cima da área do braseiro e tacamos fogo. Isso foi às 10h da manhã. Seria preciso esperar mais 12 horas cuidando para que não levantasse nenhuma labareda. Enquanto fosse apenas brasa, a erva secaria e defumaria. Se o fogo subisse, corríamos o risco de queimar tudo, inclusive o galpão. Por isso, tínhamos baldes e regadores cheios de água ao redor do braseiro.
Após a secagem (que é o carijo propriamente dito), a erva seria cancheada para separar as folhas dos talos maiores e depois moída no pilão. Dessa parte não participei. Mas soube que pularam o cancheamento e foram direto para o pilão, até às 4h da manhã!
Para saber como foi feito o pilão, veja essa outra postagem do blog.



