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Suco de planta fermentado

Esta é uma tradução do artigo Natural Agriculture: Fermented Plant Juice, do site Pure KNF.org. Ele fala sobre um dos preparados da Agricultural Natural Coreana que é usado para estimular o crescimento das plantas. É o mesmo processo que está descrito no vídeo Bambu Biol para extração dos hormônios auxina e giberilina de brotos de bambu. Vale muito dar uma olhada nos outros vídeos do canal Bombeiros Agroecológicos.


Agricultura Natural:
Suco de planta fermentado

Sherri A. Miller1, David M. Ikeda1, Eric Weinert, Jr.1, Kim C.S. Chang1, Joseph M. McGinn1, Cheyanne Keliihoomalu2, and Michael W. DuPonte2

Ano da publicação: 2013

1Cho Global Natural Farming Hawai‘i, Hilo, HI

2College of Tropical Agriculture and Human Resources, Cooperative Extension Service, Hilo, HI

Introdução

O Havaí é altamente dependente de alimentos importados para alimentar seus residentes e visitantes; além disso, a produção agrícola convencional no estado também depende de insumos importados (ração, fertilizantes, composto, pesticidas). Para que o Havaí possa avançar em direção à autossuficiência alimentar, a dependência de alimentos importados e insumos agrícolas deve ser reduzida, ao mesmo tempo que aumenta a produção de alimentos utilizando insumos locais disponíveis e econômicos. Os agricultores do Havaí não podem continuar em seu curso atual sem graves repercussões para sua sustentabilidade, tanto econômica quanto ambientalmente. Sistemas alternativos de produção agrícola adaptados aos subtrópicos, incluindo métodos orgânicos e de permacultura, têm obtido diferentes níveis de sucesso.

A Agricultura Natural Coreana (Korean Natural Farming – KNF) é um sistema sustentável desenvolvido pelo Mestre Han Kyu Cho do Instituto de Agricultura Natural Janong, na Coreia do Sul, com base em gerações de métodos agrícolas sustentáveis praticados no Japão, China e Coreia. O KNF otimiza a produção de plantas ou animais através de métodos agrícolas que mantêm um equilíbrio entre entrada e saída de nutrientes, assim minimizando quaisquer efeitos prejudiciais no meio ambiente. O equilíbrio é mantido ao encorajar o crescimento de microrganismos indígenas naturalmente presentes (IMO), que por sua vez produzem nutrientes que são utilizados na produção de culturas e animais. Virtualmente todos os insumos utilizados no KNF, em comparação com os utilizados em práticas agrícolas convencionais, estão disponíveis localmente a uma fração do custo de rações, compostos e fertilizantes importados.

Figura 1: A erva angélica jovem e em crescimento vigoroso é uma boa escolha para fazer FPJ no Havaí.

O cultivo de IMO foi abordado em uma publicação anterior (Park e DuPonte 2008). Este boletim abrange a preparação de outro insumo do KNF, o suco de planta fermentado (fermented plant juice – FPJ).

O que é o suco de planta fermentado?

O FPJ é utilizado em soluções para tratamento de sementes e solo, bem como na nutrição das plantas. Consiste nos brotos jovens de plantas crescendo vigorosamente, que são deixados fermentar por aproximadamente 7 dias com a ajuda de açúcar mascavo. O açúcar mascavo extrai os sucos do material vegetal por meio de osmose e também serve como fonte de alimento para os micróbios que realizam o processo de fermentação. O álcool fraco produzido durante a fermentação extrai clorofila (solúvel em etanol) e outros componentes da planta. É não tóxico e comestível.

O que afeta a quantidade e a qualidade do FPJ?

O requisito mais importante ao selecionar plantas para fazer FPJ é usar as pontas de crescimento de espécies de plantas de crescimento rápido. Flores, botões de flores e frutas imaturas também podem ser usados. Partes de plantas duras ou lenhosas darão pouco ou nenhum suco de planta. As plantas devem estar crescendo vigorosamente no momento da colheita. As partes da planta devem ser colhidas enquanto estão no modo de respiração (antes do amanhecer) e não no modo fotossintético (durante o dia), devido aos efeitos que esses processos têm na química da planta. Evite coletar partes de plantas durante ou após a chuva (idealmente, espere dois dias ensolarados após a chuva parar) e não enxágue as partes coletadas, para preservar suas populações microbianas de superfície (bactérias produtoras de ácido lático e leveduras), que realizarão o processo de fermentação. Baixos níveis desses microrganismos resultarão em fermentação inadequada e/ou baixos rendimentos de suco de planta.

Que tipos de plantas podem ser usadas para fazer FPJ?

As plantas devem ser vigorosas, de crescimento rápido e saudáveis. Na Coreia, as plantas mais comumente usadas são artemísia (Artemisia vulgaris) e agrião asiático (Oenanthe javanica). Outras escolhas ideais cultivadas localmente incluem, mas não se limitam a, beldroega (Portulaca ou caruru), agrião, angélica, brotos de bambu, vinhas de batata-doce, feijões, abóbora e algas marinhas. As práticas da KNF enfatizam o uso do que está disponível. Não use plantas venenosas; em caso de dúvida, identifique as plantas através do serviço de extensão local.

Tabela 1: Plantas comumente usadas para fazer suco de planta fermentado (FPJ) no Havaí.

Nome comumNome científicoParte da planta
AngelicaAngelica sp.Pontas de crescimento
BambusVários gênerosPontas de crescimento
FeijõesVários gênerosPontas de crescimento
Agrião asiáticoOenanthe javanicaPontas de crescimento
ArtemísiaArtemisia vulgarisPontas de crescimento
NoniMorida citrifoliaFruta verde
BeldroegaPortulaca oleraceaPontas de crescimento
Algas marinhasVários gênerosPontas de crescimento
Pontas da abóboraCucurbita spp.Pontas de crescimento
Pontas da batata-doceIpomoea batatasPontas de crescimento
AgriãoNasturtium officinalePontas de crescimento

Qual é o melhor momento para fazer FPJ?

O FPJ pode ser feito durante todo o ano no Havaí. Em climas temperados, o FPJ geralmente é feito durante os meses mais quentes, quando o crescimento das plantas é vigoroso e as pontas de crescimento são abundantes.

Preparo do Suco de Planta Fermentado (FPJ)

Passo 1. Coletar material vegetal

Antes do amanhecer, colete as pontas de crescimento rápido (2 a 3 polegadas de comprimento) das plantas; para plantas com hastes mais longas, como batata-doce, podem ser coletadas pedaços mais longos. Evite coletar durante ou após a chuva.

Passo 2. Cortar e pesar o material vegetal

Não enxágue as partes coletadas, para conservar os microrganismos de superfície. Registre o peso do material vegetal. Corte as pontas dos brotos em pedaços de 2 a 3 polegadas (Figura 2). Pese as partes da planta antes ou depois do corte, o que for mais fácil.

Figura 2: Corte o material vegetal em pedaços de 5 a 7,5 centímetros de comprimento.


Passo 3. Adicionar açúcar mascavo

Pese uma quantidade de açúcar mascavo igual ao peso do material vegetal e misture em uma tigela ou panela grande. Cubra o máximo possível da superfície do material vegetal com açúcar para acelerar o processo osmótico e extrair os sucos da planta (Figura 3).

Figura 3: Adicione o mesmo peso de açúcar mascavo ao material vegetal cortado.

Passo 4. Guarde a mistura de material vegetal e açúcar mascavo em um recipiente

Selecione um recipiente de vidro transparente ou plástico de polietileno (PE) para alimentos (não é necessário tampa). Não use metal, que reagirá com a solução. Encha o recipiente de forma apertada com a mistura de material vegetal e açúcar mascavo até ficar cheio (Figura 4). Cubra a boca do recipiente com um material respirável, como musselina, gaze pesada ou uma toalha, para permitir a troca de ar. Prenda a cobertura (com barbante, elásticos, etc.) para manter insetos e outros contaminantes fora (Figura 5). Papel toalha pode ser usado, mas deve ser substituído se ficar molhado ou rasgado. Armazene o recipiente coberto em uma área bem ventilada, longe da luz artificial ou natural e do calor ou frio extremo. Não refrigere.

Figura 4: Coloque o material vegetal e o açúcar mascavo em um recipiente até que esteja cheio.
Figura 5: Coloque uma tampa respirável sobre a boca do recipiente e armazene em um local fresco.

Passo 5. Verificar o recipiente após 24 horas e ajustar o volume se necessário

Para que o processo de fermentação ocorra adequadamente, o volume da mistura de material vegetal e açúcar mascavo deve se estabilizar em 2/3 do recipiente após 24 horas. Se o recipiente estiver muito cheio, os micróbios não terão ar suficiente para fermentar adequadamente. Remova parte do material vegetal até que o recipiente não ultrapasse 2/3 do seu preenchimento. Se o recipiente estiver com menos de 2/3 de sua capacidade, adicione mais da mistura para evitar o crescimento de mofo. Nem todas as plantas se estabilizam da mesma forma, então é importante verificar e ajustar o volume após as primeiras 24 horas.

Passo 6. Deixar o conteúdo fermentar sem perturbações

O processo de fermentação depende da temperatura ambiente. O clima mais quente e úmido do Havaí acelera a fermentação (3 a 5 dias), enquanto períodos frios ou gelados retardam o processo. Você saberá que a fermentação está ocorrendo quando bolhas começarem a se formar, o que normalmente ocorre no segundo dia. Idealmente, a fermentação não deve levar mais do que 7 dias, pois a qualidade do FPJ parece diminuir depois disso. A fermentação está completa quando 1) o material vegetal flutua e o líquido se estabiliza no fundo (observe: se muito açúcar mascavo foi usado, essa separação não é distinta); 2) há um leve cheiro de álcool devido à decomposição da clorofila; e 3) o líquido tem sabor doce, não amargo.

Passo 7. Separar o líquido dos sólidos

Após a fermentação ser concluída (3 a 7 dias), separe o material vegetal do líquido usando um escorredor ou peneira. O material vegetal restante pode ser usado como ração animal ou adicionado ao composto misto (outro insumo conhecido como IMO#5). O líquido é o Suco de Planta Fermentado (FPJ), que pode ser usado imediatamente ou armazenado em um recipiente coberto levemente.

Passo 8. Armazenar o FPJ corretamente

Transfira o FPJ para um recipiente de vidro ou plástico de polietileno (PE) para alimentos. Os microrganismos na solução estão vivos e continuam a produzir gases. A tampa deve ser mantida frouxa ou o recipiente pode explodir. Como todos os insumos de Agricultura Natural Coreana, cada lote de KNF deve ser armazenado separadamente. Eles devem ser combinados apenas quando uma solução está sendo preparada para uso imediato. Para armazenamento de longo prazo, adicione uma quantidade igual de açúcar mascavo por peso ao FPJ para evitar que ele azede.

Como o FPJ É Usado nas Plantas?

O FPJ é diluído em água e aplicado como um tratamento de solo ou aplicação foliar diretamente nas plantas. Tradicionalmente, o material vegetal usado no processo de fermentação produz FPJ para fases específicas do crescimento das plantas. Geralmente, use FPJ feito a partir de material vegetal na mesma fase de crescimento (vegetativa ou reprodutiva) das plantas que serão tratadas.

  • FPJ feito de agrião, artemísia ou brotos de bambu é aplicado desde a germinação até as fases iniciais do crescimento das plantas.
  • FPJ feito de araruta ou brotos de bambu é aplicado em culturas de crescimento vegetativo (folhosas) que precisam de nitrogênio (N).
  • FPJ feito de frutas verdes (não maduras) é aplicado em plantas que estão começando a desenvolver brotos de flores e precisam de fósforo (P).
  • Uma vez que as plantas atinjam a fase reprodutiva (floração e frutificação), elas requerem muito cálcio (Ca). O FPJ feito de plantas ricas em cálcio ou FPJ que foi armazenado por mais de um ano é aplicado nesta fase.

Preparando e Aplicando FPJ

Dilua o FPJ com água

É melhor usar uma mistura de FPJ antigo e recém-feito em suas soluções. O FPJ geralmente é usado em uma concentração de 1 parte para 500 partes de água (1:500). Uma solução mais diluída é necessária (1:800 a 1:1.000) para evitar danos às plantas (queimaduras nas folhas) nos seguintes casos:

  • mais de três ingredientes (um “coquetel” de diferentes insumos aplicados de uma vez), ou
  • é aplicado durante o clima quente, ou
  • FPJ que foi armazenado por mais de um ano e, portanto, se tornou mais concentrado, está sendo usado.

Tabela 2: Preparação da Solução FPJ na proporção de 1:500.

Volume de ÁguaQuantidade de FPJ para a diluição de 1:500
Medidas de cozinhaMililitros (ml)
2 litros¾ colher de chá4,2
4 l1 e ½ colher de chá8,5
19 l2 e ½ colheres de sopa38
38 l5 colheres de sopa76
95 lUm pouco mais de ¾ de copo190
190 lUm pouco mais de 1 copo e 1/2380

Tabela 3: Preparação da Solução FPJ na proporção de 1:800.

Volume de ÁguaQuantidade de FPJ para a diluição de 1:800
Medidas de cozinhaMililitros (ml)
2 litros½ colher de chá2,6
4 l1 colher de chá5
19 l5 colheres de chá24
38 lUm pouco menos de ¼ copo47
95 l½ copo118
190 l1 copo237

Aplique o FPJ uma vez por semana no final da tarde, idealmente uma hora antes do pôr do sol

A solução pode ser regada nas plantas ou no solo, ou pode ser aplicada como um spray foliar. A solução de nutrientes é aplicada uma vez por semana e é ajustada à medida que a planta passa pelas fases do seu ciclo de vida e pelas fases vegetativa e reprodutiva.

Agradecimentos

Os autores gostariam de agradecer ao Dr. Russell Nagata, à Sra. Ruth Niino-DuPonte, ao Sr. Andrew Kawabata, ao Dr. Erik Cleveland e à Sra. Sharon Motomura, que serviram no comitê de revisão por pares.

Referência

Park, H. e M.W. DuPonte. 2008 (rev. 2010). Como cultivar microorganismos indígenas. BIO-9. Universidade do Havaí, Faculdade de Agricultura Tropical e Recursos Humanos, Honolulu, HI.

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Secador solar

Existem muitos tipos e projetos de secadores solares, mas todos eles partem do mesmo princípio: ficar exposto ao sol para esquentar o ar dentro da estrutura, fazendo-o circular para diminuir a umidade.

As diferenças, entretanto, estão no tipo de coisa que se quer secar. Por um lado, já vi aconselharem secar ervas medicinais à sombra. Por outro, muitas frutas e as sementes em geral se secam ao sol.

Assim, cada modelo tem suas vantagens, desvantagens e usos.

Num secador que recebe luz solar direta, a bandeja está dentro do próprio coletor. Eu só conhecia o modelo com uma bandeja, mas procurando exemplo para essa postagem, descobri que podem ter várias.

Estufa com estrutura geodésica de bambu para secagem natural

Já num secador onde os objetos a serem secos não pegam sol, temos geralmente duas partes: o coletor, que recebe a luz solar para esquentar o ar, e o armário, onde ficam as bandejas.

Secador solar que construí

Modelo OMY

Em ambos, é preciso ter uma entrada de ar na parte mais baixa e uma saída de ar na parte mais alta. É por isso que os coletores costumam estar inclinados.

Veja a figura abaixo e acompanhe o funcionamento: os raios solares incidem no coletor, atravessam o vidro (3) e encontram uma superfície (geralmente pintada de preto para refletir menos). Nesse momento, a energia eletromagnética se transforma em energia térmica. O ar em contato com a chapa do coletor (2), então, esquenta. O ar aquecido diminui sua densidade e sobe por convecção natural. Assim, ele passa pelos alimentos (4) e retira sua umidade, saindo por fim, pela abertura de exaustão (5). Como o ar aquecido sobe, ele puxa o ar frio de fora que entra por baixo (1) criando um ciclo que se mantém sozinho enquanto houver sol.

Às vezes, é o caso de instalar no secador uma ventoinha e/ou uma resistência para aquecimento. Esses são chamados secadores híbridos: eles aproveitam o sol, mas dependendo do clima, podem receber uma ajudinha.

Daria pra dizer que se todo o processo for movido por eletricidade ou fogo, então temos um desidratador.

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ComoFazer Marcenaria

Mesa dobrável

Ter um mesa dobrável é muito prático: a gente deixa ela num canto, sem ocupar espaço, mas apoiando algumas coisinhas, e quando precisar, é só abrir as asas.

Não tem muito mistério para construir essa mesa. Do jeito que fiz, as peças têm basicamente duas medidas: tábuas de 80cm x 18cm e ripas de 6cm de largura que tu vais cortando para fazer os pés.

E aqui o projeto feito no FreeCAD (software livre de código aberto):

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Teste de contração do barro

Estou desenvolvendo um fogão-estufa rocket e vou usar tijolos cozidos maciços pra facilitar a construção. Porém, tem algumas peças que são de tamanho diferente. Então, resolvi fazer essas peças e usar o próprio fogão para queimá-la. Essa queima é um teste e imagino que não vai funcionar, por não atingir as altas temperaturas necessárias e ficar por tempo insuficiente. Mas se funcionar, vai ser um adianto!

Procurei na internet o traço (mistura) ideal para tijolo de barro cozido e não encontrei. Aí pensei: vou fazer como nas bioconstruções – testo o barro do meu terreno e vejo se ela contrai menos de 10% (teor de argila) e passa no teste da queda da bolinha (teor de areia). Como é facilmente perceptível pelo toque, a terra aqui tem muita argila. Então, fiz apenas o teste de contração, como descrito no Manual da Arquitetura Descalça.

Régua para o teste de contração.

Primeiro, cavamos e separamos a camada superficial (horizonte A), que contém muita matéria orgânica e retiramos uma amostra da parte de baixo (horizonte B). Paralelamente, construímos uma régua de 40cm x 4cm x 4cm. Então, preenchemos com o barro úmido bem amassado e deixamos secar à sombra por alguns dias (como é inverno e está bem úmido, coloquei a minha ao sol). Se a amostra contrair menos de 10% (4cm lineares nas bordas), então ela provavelmente possui uma boa proporção de areia e argila para construção (atenção: o resultado final é que dirá se a terra é boa ou não.).

Em 15 dias de secagem, o barro contraiu 3cm. Agora, vou para o teste com os tijolos pra construir o fogão.

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Relógio como bússola

Aqui vai uma dica simples para ter uma noção da sua direção.

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ComoFazer Compostagem

Madeira ramial triturada

Foi num vídeo do Rebello, do CEPEAS, que ouvi pela primeira vez sobre estudos científicos de melhoria do solo usando galhos novos triturados. Aí então, comecei eu mesmo a pesquisar essa técnica nas minhas composteiras.

Depois, descobri o método do francês Jean Pain, cujo mini-documentário incrível está num link abaixo e seu livro, neste PDF. O cara não só desenvolveu um método de compostagem que gera adubo, gás e calor para ser usado em sua casa, como construiu uma série de trituradores para picar as árvores.

Ainda estou procurando o artigo científico de Gilles Lemieux, citado pelo Rebello no vídeo acima. Enquanto isso, publico abaixo um textinho resumindo a questão.

Tradução do artigo Ramial Chipped Wood: A complete introduction.


Publicado em 29 de setembro de 2022, por Huw Richards.

Ramial Chipped Wood: A Complete Introduction

Uma explicação concisa

A Madeira Ramial Triturada (MRT) é utilizada para melhorar o solo nas plantações e nos jardins. Ela é obtida de galhos menores e mais jovens, tipicamente de até 7cm de diâmetro, que são recém colhidos de cercas vivas, arbustos para poda ou podas anuais. A técnica tem como precursor o canadense Gilles Lemieux, que resumiu a abordagem como “imitar o solo florestal num solo agrícola, só que sem as árvores”.

Madeira ramial triturada com atividade fúngica

Nos ramos jovens é onde acontece o crescimento mais vigoroso de uma árvore, o que significa que eles são muito mais ricos nutricionalmente do que a madeira mais velha, mais espessa, e são mais facilmente digeríveis por organismos benéficos no solo. Eles normalmente contêm até 75% dos minerais, açúcares, amidos, aminoácidos, proteínas, fito hormônios e enzimas de uma árvore. A maioria das espécies de árvores pode ser utilizada para isso. Deve-se dar preferência para as árvores decíduas, mas até 20% do material de coníferas, eucaliptos ou castanheiros podem ser adicionados antes que seus aspectos ácidos ou alelopáticos (inibidores de crescimento) se tornem um problema. Para evitar a propagação de doenças, descarte o material das árvores infectadas.

Uma vez triturado, temos mais superfície do material exposta a fungos e outros microorganismos. Em seguida, ele é decomposto e pode ser incorporado ou colocado sobre o solo. Descobriu-se que essa técncica tem inúmeros benefícios para o rendimento e a qualidade das culturas, melhorando a estrutura do solo e a retenção de água, aumentando o número de microorganismos benéficos, fornecendo proteção contra geadas e reduzindo ervas daninhas, e ajudando a neutralizar os solos ácidos.

Aplicações comuns

A MRT pode ser incorporada ao solo, aplicado diretamente na superfície como uma cobertura morta, ou pode ser compostado primeiro antes da aplicação. Entretanto, Iain Tolhurst, da Tolhurst Organic no Reino Unido, descobriu através nas suas pesquisas que não houve nenhum benefício em compostar primeiro a MRT – e ela funcionou muito bem quando aplicada diretamente como cobertura.

Outra aplicação seria usá-la em caminhos para aumentar a vida útil do solo e permitir que as raízes das plantas se tirem proveito disso; neste caso, morangos.

A época ideal para incorporar a MRT é no outono e no inverno. Isto permite tempo suficiente para que o material se decomponha, o que reduz temporariamente o conteúdo de nitrogênio no solo. Os níveis de nitrogênio voltarão então no tempo para o plantio das culturas na primavera. Se usado como cobertura morta ou o material for compostado primeiro, ele pode ser aplicado em qualquer época do ano. Uma boa opção é a cobertura morta entre os canteiros, trazendo benefícios para a flora e fauna do solo sem a diminuição do nitrogênio a curto prazo em sua área de cultivo. Uma vez decomposta, ela pode então ser adicionada aos canteiros (ou como diz Ian Tollhurst, “deixe que os vermes o façam o trabalho por você!”). O melhor é utilizar a MRT o mais rápido possível após a colheita, para se obter um valor nutricional ideal.

Estudos de caso

Depois de ler sobre os resultados espetaculares de Jean Pain usando madeira ramial triturada em sua horta – mesmo em uma área onde a chuva é muito rara e onde a temperatura muitas vezes excede 40 °C no verão – a bióloga Edith Smeesters decidiu, há quarenta anos, usar a abordagem em sua nova horta, com enorme sucesso. A horta, construída sobre o que era essencialmente um aterro sanitário, tornou-se exuberante e produtiva em menos de dois anos e ela continua usando MRT até hoje.

Um estudo realizado no Senegal constatou que o uso de madeira ramial triturada resultou em um aumento de rendimento de até 1000% para o tomate e um estudo no Quebec constatou um aumento de rendimento de 300% para os morangos.

Quando e o que triturar

A MRT é melhor coletada no outono quando o material está cheio dos nutrientes que está armazenando para o inverno. A maioria dos tipos de árvores é adequada, com as exceções mencionadas acima, mas as seguintes são particularmente recomendadas. Uma mistura de espécies é ideal para a MRT, pois todas elas terão benefícios particulares.

Árvores pioneiras – estas são as espécies que retornam primeiro a áreas degradadas ou desmatadas em sua localidade. Elas são uma boa escolha, pois são particularmente adaptadas para melhorar a saúde e a densidade de nutrientes dos solos.

Freixos – árvores altas e graciosas, membros da família das oliveiras e lilases. Devido a sua força e densidade, eram tradicionalmente usada para fazer as hastes das lanças e muitas ferramentas. Elas também dão seu nome, em galês, ao nosso sítio experimental de jardinagem regenerativa Dan Yr Onnen, ou seja, debaixo do freixo. Se você tem um freixo com sintomas de die-back, você deve seguir as recomendações de descarte para sua área.

Carvalhos – favorito dos carpinteiros por sua durabilidade e trabalhabilidade. Existem duas espécies encontradas no Reino Unido, o Carvalho Comum (ou inglês) e o Carvalho Sésseis, que tem um tronco mais reto e ramos mais retos. As bolotas (seus frutos) sustentam a vida selvagem e com a preparação correta, os humanos também!

Salgueiros – são de crescimento rápido, muito fácil de propagar, fazendo a espécie perfeita para poda regular. Além de ser um excelente constituinte para a madeira ramial triturada, também tem sido usada tradicionalmente para tecer cestas e fazer a armação da canoa coracle galês. O salgueiro tem uma relação mutualista com pelo menos 21 espécies de fungos, o que a torna um ingrediente ideal em uma mistura de MRT.

Aveleiras – uma das árvores mais úteis devido aos seus caules flexíveis, e deliciosas nozes – amadas tanto por pessoas como por esquilos. Quando cortada, uma aveleira pode viver por várias centenas de anos.

Plátanos – o plátano (sycamore maple) é a espécie de ácer mais comum na Europa, enquanto o ácer de campo (field maple) é nativo do Reino Unido. Suas folhas largas e robustas auxiliam a vida selvagem, além de serem ótimas para combater a poluição do ar.

Fazendo sua própria madeira ramial triturada

Como guia, um jardim de 100m2 exigiria cerca de 3m3 de MRT. Para as quantidades necessárias para um jardim, é melhor usar um triturador. Usamos o Forestmaster 14 HP Professional, que é perfeito para jardins comunitários e locais maiores. O Forestmaster 6HP Compact é mais adequado para jardins individuais e menores. O modelo Professional vai triturar madeira de até 100mm de diâmetro (4″) e é capaz de triturar qualquer madeira recém cortada, seja dura ou macia. O modelo Compacto tritura até 50mm (2 polegadas) de diâmetro e seu peso leve e tamanho compacto o tornam extremamente manobrável e fácil de guardar. Há também um triturador elétrico de 4HP que funciona fora da rede doméstica padrão e é bem adequado para os galhos menores usados para MRT.

Impressões pessoais do autor deste artigo

Acredito que a madeira ramial triturada é um recurso inexplorado dentro do mundo da horticultura e que possui um potencial fascinante que precisa ser pesquisado mais a fundo. É por isso que a MRT vai desempenhar um papel fundamental em meu plantios, especialmente em nossos locais de experimentação, com a esperança de mostrar resultados concretos.

No futuro, posso imaginar comunidades com seus próprios bosques de poda de curta rotação e um triturador compartilhado e colher a madeira adequada para fazer este recurso em escala e dar um grande passo para ser mais resiliente em termos de produzir sua própria fertilidade e composto.

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Por que apenas algumas comunidades dão certo?

Essa é o tema do livro Creating a life together, de Dianne Christian, publicado 2003.

Os vários capítulos são uma compilação de experiências sobre o que deu certo e o que deu errado em diversas comunidade intencionais nos Estados Unidos. Reproduzo aqui a tradução de um pequeno trecho sobre conflitos estruturais.

“A maioria dos fracassos de comunidades parecem resultar do que chamo conflito “estrutural” – problemas que surgem quando os fundadores não explicitam certos processos ou não tomam determinadas decisões importantes no início, criando uma ou mais omissões na sua estrutura organizacional. Estes problemas estruturais vindos “de fábrica” parecem funcionar como bombas-relógio.”

Creating a life Together, capítulo 1.

Abaixo, segue os seis pontos que a autora sugere que sejam definidos já nas primeiras reuniões.

  1. Identifique a visão norteadora da sua comunidade e documente-a. Talvez não exista nenhuma fonte mais devastadora de conflito estrutural numa comunidade do que vários membros tendo diferentes visões a respeito, antes de mais nada, da razão de estarem ali. Isso aparecerá na forma de diversas discussões sobre assuntos comuns – quanto dinheiro se vai gastar num dado projeto, ou quanto tempo ou com que frequência se vai trabalhar numa tarefa. Isso é uma questão de diferenças fundamentais (nem sempre conscientes) sobre para que serve a comunidade. Todos os membros da comunidade devem estar na mesma página desde o começo e precisam saber qual é a visão norteadora compartilhada da comunidade e que todo mundo apoia ela. Sua visão norteadora deve ser discutida inteiramente, concordada e escrita antes de qualquer coisa.
  2. Escolha um processo de tomada de decisão justo e participativo que seja adequado para o seu grupo. E se escolher o consenso, faça um treinamento. A não ser que você esteja formando uma comunidade espiritual, religiosa ou terapêutica com um líder espiritual que tomará todas as decisões – e todo mundo concorda com isso –, os membros irão se ressentir de qualquer desequilíbrio de poder. Ressentimento com respeito a desequilíbrios de poder pode se tornar uma enorme fonte de conflito na comunidade. A tomada de decisão é o ponto mais óbvio de poder, e quanto mais ele for compartilhado e participativo, menos esse tipo de conflito irá aparecer. Isso significa que todo mundo no grupo tem voz nas decisões que afetarão suas vidas na comunidade, através de um método de tomada de decisões que seja justo e equilibrado. O procedimento para a tomada de decisão do seu grupo deve ser bem claro e entendido por todo mundo. Uma fonte específica de conflito em comunidade é o uso do consenso sem um entendimento completo sobre ele. O que frequentemente é chamado de consenso, em muitos grupos, é meramente um “pseudo-consenso” – o qual exaure as pessoas, suga suas energias e boa vontade, gera uma grande dose de ressentimento por si só, e faz com que as pessoas desprezem o que chamam de “consenso”. Então, se o seu grupo planeja usar o consenso, será preciso primeiro um treinamento para evitar um baita conflito estrutural. (Ver Cap. 6)
  3. Faça acordos claros – por escrito. (Isso inclui a escolha da entidade legal apropriada para a propriedade coletiva da terra). As pessoas lembram das coisas de maneira diferente. Seus acordos – do mais mundano para o mais significante legal e financialmente – devem absolutamente ser escritos. Se, mais tarde, vocês lembrarem deles diferentemente, basta olhá-los novamente. A alternativa – “estamos certos, e vocês estão errados (e talvez estejam querendo nos enganar)” – pode rachar uma comunidade mais rapidamente do que você pode dizer “Fale com meu advogado.” (Ver Cap. 7)
  4. Aprenda boas habilidades de comunicação e processos de grupo. Torne prioridade a comunicação clara e a resolução de conflitos. Ser capaz de falar à outra pessoa sobre assuntos sensíveis e se sentir conectada a ela é a minha definição de boas habilidades de comunicação. Isso inclui métodos para manter-nos responsáveis pelos acordos que tirarmos entre nós. Se você não der atenção para habilidades de comunicação, processos de grupo e métodos de resolução de conflito no começo, então temos um cenário para um conflito estrutural mais a frente. Dedicar-se a essas questões no início lhe permitirá ter procedimentos à mão para quando, mais tarde, as coisas ficarem tensas – como se fôssemos praticar simulação de incêndio agora quando não há fogo. (Ver Cap. 17 e 18)
  5. Ao escolher cofundadores e novos membros, selecione por maturidade emocional. Uma fonte comum e poderosa de conflito é permitir que alguém entre no seu grupo ou, mais tarde, na sua comunidade que não esteja alinhado com a sua visão norteadora e os seus valores. Ou alguém cujo sofrimento emocional – que aparecerá semanas ou meses depois como atitudes ou comportamentos perturbadores – pode acabar lhe custando incontáveis horas de encontros e drenando a energia e o bem-estar do seu grupo. Um processo bem feito para a seleção e integração de novas pessoas no grupo, e para filtrar aquelas que não ressonam com os valores, a visão, ou as normas de comportamento estabelecidas, pode salvar muitas seções estressantes de conflito nas semanas ou nos anos que estão por vir. (Ver Cap. 18)
  6. Aprenda as habilidades da cabeça e as habilidades do coração necessárias a você. Formar uma nova comunidade é como simultaneamente tentar começar um novo negócio e um casamento – e é tão sério quanto fazer os dois. Requer muitas das habilidades de planejamento e financeiras que são necessárias para lançar um empreendimento, e as mesmas capacidades de confiança, boa vontade, honestidade e comunicação gentil interpessoal necessárias para se casar com o amor da sua vida. Fundadores de novas comunidades bem-sucedidas parecem conhecê-las. Ainda assim, aqueles que se atolam em problemas acabam falhando sem entenderem o que lhes faltava. Como Sharon, estas pessoas bem intencionadas não sabiam o que não sabiam. Assim, o sexto ponto para reduzir a aparição de um conflito estrutural é gastar tempo aprendendo aquilo que você precisa saber.

Aqui está o pdf do primeiro capítulo traduzido.

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Carvão, como se faz?

Quando fui participar do curso do Sebastião Pinheiro sobre Biopoder Camponês no Centro Ecológico (RS) em 2022, já tinha lido metade do livro de Rebecca Oaks, Making Charcoal and Biochar – a comprehensive guide (Produzindo carvão – um guia abrangente). Além de ela nos contar a história dos usos, as técnicas de produção, sobre mercado e legislação, também traz um capítulo sobre “Carvão e o sequestro de carbono”. Como ainda não cheguei lá, sigo curioso em saber como essa mágica acontece. E sendo um argumento até comum, provavelmente mais adiante farei uma postagem sobre isso.

O propósito agrícola de fazermos carvão é poder usá-lo como melhorador do solo. Depois de queimada, a madeira não apodrece mais e a infinidade de poros que resta acaba virando moradia para microrganismos, passagem para a água e despensa para minerais solubilizados (adsorção). Assim como o composto, o uso de pó de carvão visa a totalidade do solo e não a nutrição da planta. Falarei mais sobre isso em outra postagem também.

Primeira experiência

Certo dia, lá estava eu pesquisando sobre solos. Compostagem, microbiologia, adubação verde e pimba: biochar. Ou, portuguêsmente falando, carvão! Pesquisei na internet, baixei o livro da Rebecca Oaks, li metade enquanto chovia e no primeiro sol que apareceu fui pro campo catar lenha e montar uma carvoeira primitiva.

Basicamente, tu junta toda a lenha (seca) num monte, prepara uma portinha pra botar fogo e cobre com algo pra abafar. A ideia é fazer com que a madeira (ou qualquer outro material orgânico) queime com pouco oxigênio.

Aí, a Pipoca, da Botica Yerba Buena, estava por aqui e me convidou: “se tu fizer carvão de bambu, eu preparo um sabão especial para a pele”. Aceitei. Só que fiz do jeito que dava: rachei um tanto de bambu seco (Bambusa tuldoides), empilhei e cobri com uma camadona de lírio do brejo.

Olha, deu meio errado, mas deu meio certo também: rendeu carvão suficiente para uma receita do sabão, pelo menos.

Digressão energética

Na cidade onde nasci, tem um bairro chamado assim, Carvoeira. Outro se chama Canasvieiras. Tem um monte de palavras que a gente usa para denominar um local, mas que nem presta atenção ao seu significado. Essas estão em português (casa do carvão e campo de cana-de-açúcar), imagina então os nomes herdados da Língua Geral: Guaraqueçaba, Taubaté, Biguaçu, Tramandaí.

Mas um dia eu percebi. Ali do lado de onde passei minha adolescência, devia ser uma região com poucas árvores e uma fumacinha branca varando o céu constantemente.

Antes da eletricidade e da gasolina, tudo era feito no braço, na lenha ou na tração animal. Por um lado, hoje carvão virou sinônimo de churrasco. Por outro, a poluição e o desmatamento, necessários para a produção dessa fonte de energia, agora não se veem mais, já que temos petróleo e painéis solares. Porém, a poluição e o desmatamento (e a contaminação das águas e a perseguição de populações locais e a (semi-)escravidão) ainda exitem para converter qualquer fonte de energia em eletricidade! Mas tudo isso acontece longe dos consumidores…

Se no passado, que tinha menos gente para consumir, o estrago gerado na conversão de energias era grande, imagina o que seria necessário explorar agora dessas fontes energéticas “primitivas” para sustentar o consumo atual.

Por exemplo, não faz muito tempo, o maior problema urbano de Londres, antes do aparecimento dos automóveis, era a quantidade absurda de merda de cavalo largada nas ruas para mover as pessoas e os produtos (The great horse manure crises of 1894). Muito fedor e muitas moscas. Um carro 1.0 tem um motor equivalente a entre 70 e 120 cavalos de potência. Um cavalo caga entre 7 e 17kg de estrume por dia… Dá para imaginar a quantidade de merda que uma pessoa dirigindo seu carrinho deixaria pelas ruas se ela usasse cavalos, né? E de fato, em algum lugar essa “merda” está sendo gerada.

Voltando ao carvão, e se a maioria das pessoas usasse madeira (renovável!) para cozinhar, se aquecer e mover a sua bici-locomotiva? Ou se a maioria das pessoas usasse também madeira para fazer papel para se limpar no banheiro? Desmatamento, poluição do ar, contaminação das águas, isso se pensarmos somente na produção.

E por aí vai…

A carvoeira, ao vivo e a cores

E aqui aparece o curso do Tião.

Mesmo sabendo (pelas leituras) que o processo pode ser mais eficiente e também mais complicado, foi muito bom ver uma carvoeira de fundo de quintal sendo feita em 15 minutos.

Revisitando minhas anotações do dia do curso, a única coisa que escrevi, pois me causou muita surpresa e curiosidade, foi: “queima de cima para baixo”. Como assim?? Se o fogo sobe, como a queima desce?

O pulo do gato é que a queima só acontece se houver oxigênio. Já que ele entra por baixo, lentamente a queima vai sendo puxada para o fundo.

Pessoal do curso do Tião observando a montagem da carvoeira

Como construir

Vamos ver como se monta a bichinha. O Tião me ensinou o seguinte:

  • Pega um tonel de metal
  • No fundo, com a esmerilhadeira, corta umas aberturas para entrada de ar
  • Na tampa, corta um X e enfia um cano de chaminé
  • Posiciona o tonel em cima de uns tijolos
  • Enche com madeira o mais parelha possível de tamanho. Se os pedaços de madeira forem muito diferentes, uns vão queimar mais rápido que outros.
  • Faz um bom fogo em cima
  • E depois que tiver pegado bem, tampa
  • Agora é esperar. Dependendo da dureza da madeira, a queima pode ser mais rápida ou mais lenta. Pode levar a noite inteira, por exemplo.
  • Para verificar em que altura do tonel está acontecendo a combustão, é só esguichar água na parede dele. Onde ferver, ali está acontecendo a queima
  • Quando o calor estiver a um palmo do fundo, bota o tonel no chão para trancar a entrada de ar. Se isso não extinguir o fogo, derruba o tonel e usa um regador para apagar as brasas.

Avaliação

Tendo feito algumas queimas, vou juntar aqui abaixo algumas considerações sobre essa forma de fazer carvão.

Sobre o tonel. Consegui um tonel velho com a vizinhança. Ele não tinha tampa e a base estava bastante corroída. Por isso, fiz menos cortes no fundo, pois supus que os buracos que já haviam dariam uma boa aeração.

Como esse tonel não tinha uma tampa própria, improvisei com uma que encontrei jogada no meio do mato. Assim, não encaixando bem, ou seja, tendo muitas frestas e furos em cima, também supus que não seria necessário instalar uma chaminé decente. Botei um cano só para dar um apoio simbólico.

Sobre a chaminé. Numa câmara de combustão (seja fogão, carvoeira, cilindro de motor, etc.), o ar e o combustível entram, ao mesmo tempo que a fumaça sai. Essa é a primeira lei da termodinâmica, chamada de conservação da massa: a energia não se perde, se transforma. Assim, se a fumaça, que é o resultado da combustão, ficar presa na câmara, não tem como mais ar entrar e, assim, o processo para.

No caso do projeto original do tonel, ele tem algumas entradas por baixo e uma saída por cima, a chaminé. Quando tu fazes o fogo, o calor vai empurrar a fumaça (quente) para cima e assim puxar o ar novo de baixo. Se a gente reduz o fluxo da saída, como não tem outras aberturas, também reduz o da entrada por baixo. E vice-versa.

Para a carvoeira fazer carvão, evitando que a lenha vire cinza, a queima tem que acontecer com pouco ar (oxigênio). Por isso, esse controle das aberturas.

No meu caso, o tonel parece ter muitos furos embaixo e muitos furos em cima. O resultado é que não consigo controlar bem a queima e acabo gerando mais cinza.

O carvão

Mesmo com um equipamento pouco eficiente, tenho conseguido produzir uma boa quantidade de carvão. Sempre tem uma parte que não queimou bem e outra que virou cinza. A primeira volta para a carvoeira e a segunda vai para os canteiros.

Cada espécie de madeira resulta em carvões com propriedades diferentes. Pretendo falar um pouco sobre isso na postagem sobre os efeitos do pó de carvão na agricultura.

Aqui, tenho usado bambu, eucalipto e pinus. Na verdade, como preciso limpar uma área cheia de galhada de pinus, o mais importante para mim está sendo poder transformar aquele estorvo em algo mais útil. Os galhos mais finos foram para o triturador e em seguida para a composteira. A palhada está cobrindo os canteiros. Agora, os galhos mais grossos estão virando condomínio para as bactérias!

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Mudas de bambu

Tem uma regrinha geral pra fazer mudas de bambu que diz o seguinte:

  • se a espécie é alastrante, a muda se faz com um pedaço do rizoma
  • se ela é entoucerante, então fazemos com uma rama (estaca)

Outro dia, fui num vizinho fazer muda de bambu gigante. Perto da casa dele, tem uma touceira magnífica, na beira de um córrego. Não saberia dizer se é Asper ou Giganteus… Mas, num delírio de maravilhamento, encontrei um broto saliente e fui correndo buscar a motosserra. Cavoquei e cortei e por fim consegui retirar aquela bolota chifruda imensa.

Levei pra casa, botei na água enquanto cavava o berço e preenchia do mais rico composto. Enterrei o bichinho e reguei.

Tudo certo, né?

Pior que não. Os bambus novos, por não possuírem folhas, tiram sua energia do resto do bambuzal através do rizoma. Logo, se eu retiro um broto da touceira, ele morre. Não tem como se nutrir. Ponto final.

Tem um vídeo do Carlos, do Espaço Naturalmente, que recomendo: https://yewtu.be/watch?v=EfRqZUaFVnI. Ele faz um berço de areia, pra facilitar o transplante, e planta o “copinnho”: seção do colmo com nó na parte de baixo, preenchido de água.

E o site Guadua Bamboo, em inglês, também é muito bom e completo. Eventualmente pretendo traduzir algumas postagens de lá. Por ora, indico essa, sobre How to grow bamboo cutings.

Tendo seguido aquela regrinha lá do início mais à risca, obtive bons resultados, seja com os alastrantes, seja com os entoucerantes. Não lidei com muitas espécies ainda, mas repliquei guadua (angustifolia), gigante, bambu brasil, mossô e cana da índia (phyllostachys).

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Tinha uma pedra no caminho…

É incrível como sempre tem, né?

Quando fui construir minha casa e os canteiros no entorno, em Maquiné, me deparei com pedras muito grandes enterradas. A melhor coisa é ter a criatividade para integrá-las no seu projeto. Mas nem sempre dá.

Outra vez, um amigo e eu fomos chamados na aldeia Som dos Pássaros, no fundão da linha Solidão em Maquiné, para tirar uma pedra imensa que estava perto da Casa de Rezo. Levamos um poderoso martelete hidráulico, talhadeiras, marreta de 5 kg, luvas, óculos de proteção, alavancas. Passamos a manhã inteira lascando uma massa do tamanho de um fusca, mas não conseguimos ir muito longe. O pessoal então decidiu usar a técnica do fogo: faz-se uma fogueira em cima da pedra, deixando-a aquecer por toda a noite. No dia seguinte, joga-se água fria em cima. O choque térmico vai rachando a pedra aos poucos. O trabalho é relativamente menor, mas é preciso mais tempo. Se for possível cavar ao redor da pedra, melhor ainda: dá pra fazer o fogo mais perto da base e menos calor é perdido para a terra, o que aumenta o choque térmico.

Para minha sorte, nunca tive que lidar no meu quintal com algo tão grande. Com pedras, digamos assim, “médias”, costumo usar a técnica descrita no Livro da Autossuficiência, de Seymour.

Primeiro de tudo, convide alguém para lhe ajudar. Uma pessoa a mais faz TODA a diferença. Por outro lado, trabalhar em três pode ser demais.

Cave ao redor da pedra, até perto da sua base. Será preciso mais do que simplesmente separar a pedra da terra: faça um cone. É comum negligenciar essa parte, pois a gente fica focada em tirar a pedra e faz força e puxa e empurra e da-lhe suor e energia perdida. Então, vai por mim, abra um bom buraco ao redor.

Para que a alavanca funcione direito, é preciso que ela se apoie em algo firme e duro. Raras vezes o solo serve. Na maioria delas, a gente usa uma pedra ou um toco como apoio.

Lembre-se do princípio da alavanca: nossa força é aumentada proporcionalmente às distâncias entre o apoio e as pontas. Assim, tente posicionar o apoio o mais próximo possível da base da pedra (como na figura acima).

Tendo conseguido rolar a pedra um pouquinho para um lado, coloque algumas pedrinhas no espaço disponível embaixo dela.

Vá pra o outro lado e use a alavanca para rolar a pedrona para cima das pedrinhas e liberar espaço do outro lado. Coloque mais pedrinhas embaixo, no espaço que abriu.

Repita o processo lenta e tranquilamente e você verá a pedra subir.