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Por que apenas algumas comunidades dão certo?

Essa é o tema do livro Creating a life together, de Dianne Christian, publicado 2003.

Os vários capítulos são uma compilação de experiências sobre o que deu certo e o que deu errado em diversas comunidade intencionais nos Estados Unidos. Reproduzo aqui a tradução de um pequeno trecho sobre conflitos estruturais.

“A maioria dos fracassos de comunidades parecem resultar do que chamo conflito “estrutural” – problemas que surgem quando os fundadores não explicitam certos processos ou não tomam determinadas decisões importantes no início, criando uma ou mais omissões na sua estrutura organizacional. Estes problemas estruturais vindos “de fábrica” parecem funcionar como bombas-relógio.”

Creating a life Together, capítulo 1.

Abaixo, segue os seis pontos que a autora sugere que sejam definidos já nas primeiras reuniões.

  1. Identifique a visão norteadora da sua comunidade e documente-a. Talvez não exista nenhuma fonte mais devastadora de conflito estrutural numa comunidade do que vários membros tendo diferentes visões a respeito, antes de mais nada, da razão de estarem ali. Isso aparecerá na forma de diversas discussões sobre assuntos comuns – quanto dinheiro se vai gastar num dado projeto, ou quanto tempo ou com que frequência se vai trabalhar numa tarefa. Isso é uma questão de diferenças fundamentais (nem sempre conscientes) sobre para que serve a comunidade. Todos os membros da comunidade devem estar na mesma página desde o começo e precisam saber qual é a visão norteadora compartilhada da comunidade e que todo mundo apoia ela. Sua visão norteadora deve ser discutida inteiramente, concordada e escrita antes de qualquer coisa.
  2. Escolha um processo de tomada de decisão justo e participativo que seja adequado para o seu grupo. E se escolher o consenso, faça um treinamento. A não ser que você esteja formando uma comunidade espiritual, religiosa ou terapêutica com um líder espiritual que tomará todas as decisões – e todo mundo concorda com isso –, os membros irão se ressentir de qualquer desequilíbrio de poder. Ressentimento com respeito a desequilíbrios de poder pode se tornar uma enorme fonte de conflito na comunidade. A tomada de decisão é o ponto mais óbvio de poder, e quanto mais ele for compartilhado e participativo, menos esse tipo de conflito irá aparecer. Isso significa que todo mundo no grupo tem voz nas decisões que afetarão suas vidas na comunidade, através de um método de tomada de decisões que seja justo e equilibrado. O procedimento para a tomada de decisão do seu grupo deve ser bem claro e entendido por todo mundo. Uma fonte específica de conflito em comunidade é o uso do consenso sem um entendimento completo sobre ele. O que frequentemente é chamado de consenso, em muitos grupos, é meramente um “pseudo-consenso” – o qual exaure as pessoas, suga suas energias e boa vontade, gera uma grande dose de ressentimento por si só, e faz com que as pessoas desprezem o que chamam de “consenso”. Então, se o seu grupo planeja usar o consenso, será preciso primeiro um treinamento para evitar um baita conflito estrutural. (Ver Cap. 6)
  3. Faça acordos claros – por escrito. (Isso inclui a escolha da entidade legal apropriada para a propriedade coletiva da terra). As pessoas lembram das coisas de maneira diferente. Seus acordos – do mais mundano para o mais significante legal e financialmente – devem absolutamente ser escritos. Se, mais tarde, vocês lembrarem deles diferentemente, basta olhá-los novamente. A alternativa – “estamos certos, e vocês estão errados (e talvez estejam querendo nos enganar)” – pode rachar uma comunidade mais rapidamente do que você pode dizer “Fale com meu advogado.” (Ver Cap. 7)
  4. Aprenda boas habilidades de comunicação e processos de grupo. Torne prioridade a comunicação clara e a resolução de conflitos. Ser capaz de falar à outra pessoa sobre assuntos sensíveis e se sentir conectada a ela é a minha definição de boas habilidades de comunicação. Isso inclui métodos para manter-nos responsáveis pelos acordos que tirarmos entre nós. Se você não der atenção para habilidades de comunicação, processos de grupo e métodos de resolução de conflito no começo, então temos um cenário para um conflito estrutural mais a frente. Dedicar-se a essas questões no início lhe permitirá ter procedimentos à mão para quando, mais tarde, as coisas ficarem tensas – como se fôssemos praticar simulação de incêndio agora quando não há fogo. (Ver Cap. 17 e 18)
  5. Ao escolher cofundadores e novos membros, selecione por maturidade emocional. Uma fonte comum e poderosa de conflito é permitir que alguém entre no seu grupo ou, mais tarde, na sua comunidade que não esteja alinhado com a sua visão norteadora e os seus valores. Ou alguém cujo sofrimento emocional – que aparecerá semanas ou meses depois como atitudes ou comportamentos perturbadores – pode acabar lhe custando incontáveis horas de encontros e drenando a energia e o bem-estar do seu grupo. Um processo bem feito para a seleção e integração de novas pessoas no grupo, e para filtrar aquelas que não ressonam com os valores, a visão, ou as normas de comportamento estabelecidas, pode salvar muitas seções estressantes de conflito nas semanas ou nos anos que estão por vir. (Ver Cap. 18)
  6. Aprenda as habilidades da cabeça e as habilidades do coração necessárias a você. Formar uma nova comunidade é como simultaneamente tentar começar um novo negócio e um casamento – e é tão sério quanto fazer os dois. Requer muitas das habilidades de planejamento e financeiras que são necessárias para lançar um empreendimento, e as mesmas capacidades de confiança, boa vontade, honestidade e comunicação gentil interpessoal necessárias para se casar com o amor da sua vida. Fundadores de novas comunidades bem-sucedidas parecem conhecê-las. Ainda assim, aqueles que se atolam em problemas acabam falhando sem entenderem o que lhes faltava. Como Sharon, estas pessoas bem intencionadas não sabiam o que não sabiam. Assim, o sexto ponto para reduzir a aparição de um conflito estrutural é gastar tempo aprendendo aquilo que você precisa saber.

Aqui está o pdf do primeiro capítulo traduzido.