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Facas

Certa vez, fui na madeireira buscar serragem para o banheiro seco. Andando entre as máquinas e tábuas beneficiadas, esbarrei com uma serra-fita jogada num canto. Percebi que haviam várias pelo galpão e também correntes de motosserra penduradas nos esteios. Imediatamente, me veio a ideia: esse lixo ainda vai me servir.

serra-fita

Pedi uma lâmina daquelas para o dono. Ele até pareceu contente de poder se desfazer dela. Guardei nas minhas tralhas e esqueci.

Finalmente, anos depois, achei uma finalidade. Dada a flexibilidade da serra-fita, poderia aproveitá-la para fazer pequenas lâminas para várias ferramentas cortantes, desde facas, mini-foices, e inclusive, serras. Se fosse algo comprido, talvez entortaria com facilidade – seria preciso testar.

Uso um disco de corte na esmerilhadeira e o esmeril para dar a forma da lâmina. Os cabos faço aproveitando uns restos de vistas de porta, aquelas ripinhas pra fazer o acabamento do batente, geralmente de madeira dura e bonita. Algumas facas receberam bainha, feita com retalhos de couro que uma amiga reciclou. Dizem que a costura do couro é trabalhosa e eu acredito. Mas pra facilitar minha vida, “costurei” com grampeador. Não fica bonito, mas também não fica feio.

Para juntar as duas metades do cabo, geralmente faço dois furos e passo um prego. Corto o excedente com a esmerilhadeira e lixo para dar o acabamento. O detalhe importante na hora de furar qualquer metal é a velocidade de giro da furadeira: deve ser lenta. Bote força, mas com baixa rotação.

E os modelos copio da internet.

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ComoFazer Inspiração

De onde tirar água?

Se tu tá querendo montar um plantio numa maravilhosa área plana e não tem nenhum rio ou córrego passando perto, de onde tirar a água necessária para as plantas?

A resposta é simples: da chuva!

Certa vez, fui num mutirão no Quadrado, em Florianópolis. Uma pequena área do aterro da baía sul foi ocupado por ciclista para reivindicar a criação de uma área verde de lazer (AVL). O aterro é imenso e poderia se transformar num parque. Mas, claro, já na época das obras, podia-se imaginar que aquilo viraria uma série de conjuntos habitacionais, entre duas avenidas muito movimentadas e um dos mais belos por-do-sol da ilha.

A galera ocupou o espaço, promoveu encontros e atividades, e começou a plantar. Entre os vários problemas que enfrentaram, como incêndios, solo 100% arenoso e a disputa com a prefeitura para que as coisas simplesmente ficassem lá, não havia água.

Do ponto de vista agroflorestal, para não ter que trabalhar tanto, seria preciso dar tempo às plantas e auxiliá-las no seu processo de sucessão natural. Quais espécies seriam mais adequadas àquele solo e clima? O que plantar primeiro que ajudaria as que viriam em seguida? Enfim, se temos segurança, o tempo é nosso aliado. Porém, num espaço em disputa, era preciso acelerar as coisas.

Assim, foram trazidas mudas crescidas de árvores e frutíferas e composto em grande quantidade. Mas ainda faltava água. A saída foi montar uma cisterna.

Como se pode ver na foto abaixo, a solução que a galera bolou é bem curiosa. Afinal, onde está a caixa dágua?

Não lembro exatamente das medidas, mas era mais ou menos assim. Construíram um telhado de 3m x 3m com telhas recicladas. Ele é baixinho e levemente inclinado para o sul: o vento que sopra dessa direção é famoso na ilha pela sua força. Na parte mais baixa tem uma calha que conduz a água para a caixa dágua de 500 litros que está enterrada logo abaixo do telhado. Isso evita o roubo e a depredação, além de reduzir os danos causados pelas eventuais queimadas que consomem o capim seco do entorno (o capim é roçado de tempos em tempos, principalmente nas épocas mais secas).

Para pegar a água armazenada, cavou-se uma pequena valeta em forma de escada que dá acesso à torneira. E aí está!

O uso de água da chuva para abastecimento humano ou irrigação é antiquíssimo e pode ser feito de maneiras muito simples. Podemos ver hoje a tecnologia das cisternas no nordeste brasileiro, feitas de ferro cimento, ou em desertos do Oriente Médio, escavadas na rocha.

Fortaleza arqueológica de Massada, no deserto da Judeia, ao lado do Mar Morto. O lugar possui duas enormes cisternas subterrâneas.

Porém, não são apenas as regiões secas que estão preocupadas com água. Moradores de longa data de locais da Mata Atlântica, como Maquiné-RS (onde morei por alguns anos), vêm relatando que suas fontes estão secando.

Visitei uma fazenda nas serras do Rio de Janeiro, onde havia um moinho de cana movido a àgua, mas que hoje usavam motor a diesel. Perguntei prum senhor de uns 70 anos o que aconteceu para que sumisse a água que corria na cachoeira ao lado do engenho. Ele pegou um copo com água, tirou o chapéu e derramou-a sobre a careca. Quando a água parou de escorrer, ele apontou para o pasto no terreno que estava acima do seu e disse: “sem floresta, não tem água”.

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Manual permacultural de terraplanagem

Aqui está o PDF do livro em inglês de Douglas Barnes, The Permaculture Earthworks Handbook – how to design and build swales, dams, ponds, and other water harvesting systems (2017).

Embora o grande número de pessoas e o advento da maquinaria tenham acelerado o processo, a degradação das regiões de terras secas tem levado milênios. As catástrofes do Rio Colorado e do Mar de Aral exigiram ambos projetos de engenharia gigantescos. O esgotamento dos aquíferos exigiu bombas elétricas e de combustível fóssil para retirar água a taxas superiores às da recarga. Prejudicar o ambiente não é assim tão fácil de fazer. É necessário um tremendo esforço concentrado para realmente estragar as coisas. Sim, a humanidade fez uma verdadeira bagunça em grande parte do globo, mas não sem gastar triliões de horas de trabalho e quadriliões de quilocalorias nesse trabalho. Colocando de forma simples: quebrar o planeta é um trabalho árduo.

A notícia realmente boa é que, trabalhando em cooperação com a natureza, podemos desfazer a maior parte dos danos que fizemos. E isso levaria uma fração do tempo e da energia que levou a causar os danos em primeiro lugar. Nunca deixo de ficar surpreendido quando, com o tempo e, uma vez atrás da outra, os sistemas degradados começam a retornar imediatamente após a primeira chuva no local de reparação. A reparação da terra é um daqueles raros casos em que a arrumação é mais fácil do que bagunça. Este livro é sobre os primeiros passos para fazer essa reparação.

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ComoFazer Compostagem

Quanto colocar de composto?

Complementando o texto da postagem “Matéria orgânica demais“, esse vídeo de Charles Dowding (com legendas em português) mostra alguns de seus experimentos de vários anos: cavar ou não cavar, composto de planta ou com bosta de vaca, composto incorporado ou sobre o solo?

Um detalhe importante: na postagem anterior, Robert Pavlis está se referindo ao uso de matéria orgânica fresca sobre o solo, enquanto Dowding usa composto bem curtido.

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Fundação para esteio: conceitos

Esta é a primeira de uma série de postagens sobre como montar os esteios de uma casa. Aqui, vou trazer um pouco da minha experiência e apresentar alguns conceitos de análise estrutural para podermos entender melhor como as peças de uma casa funcionam e como elas resistem às cargas aplicadas sobre elas. Na segunda postagem, discutirei duas opções de apoios para esteios, explicando alguns sub-casos, suas vantagens e desvantagem. Por fim, tentarei construir um resumo esquemático do que foi apresentado nas duas primeiras partes, com a esperança de que o caso do esteio sirva como exemplo para outras peças da construção.


Como escolher?

Qual é o melhor tipo de fundação para um esteio de madeira?

Depende!

Essa foi uma discussão recorrente quando eu morava em Maquiné. Toda vez que alguém aparecia com a vontade de construir uma casa, conversávamos sobre os prós e os contras, os guarani fazem assim, os colonos fazem assado, quanto duraria a madeira, vai usar cimento ou não, etc.

Como a própria pessoa iria construir sua casa, percebi dois aspectos não-técnicos se sobressaírem nessa avaliação do quê fazer:

  • A herança cultural da pessoa: o ambiente em que havia crescido (geralmente urbano) somado ao seu pouco conhecimento sobre o funcionamento de estruturas trazia medos para o momento da decisão sobre como construir e o quê usar. Esses medos eram apaziguados pelas técnicas que ela estava mais familiarizada, ou seja, memórias vagas de construções vivenciadas.
  • Usar o que está à mão: aqui entra, do lado romântico, a vontade de aproveitar o que a mãe natureza “oferece” (madeira do mato, barro, pedras, etc.), e, do lado prático, o pouco dinheiro disponibilizado para gastar numa aventura construtiva.

A galera que conheci que resolveu sair da cidade e ir para o mato estava sempre procurando conhecimento, devorando o que aparecia. Com razão, né? Tudo era novo. São generalistas incansáveis! Afinal, a pessoa, a partir do momento que está cuidando da sua água, comida, energia, etc., precisa saber um pouco de tudo mesmo. Obviamente, de construção também. Porém, sendo um generalista e autodidata há muitos anos, percebi uma desvantagem nessa postura: muita coisa fica só na superfície. Inventei um nome para isso: conhecimento de zine.

Os zines costumam ser pequenas cartilhas que apresentam um determinado tema e pode ser que ensinem a fazer algo prático também. Tu lês um zine e já sais querendo fazer acontecer. É ótimo! Mas pode criar aquela sensação prematura de “já sei como faz”. Na psicologia, isso é chamado de efeito Dunning-Kruger.

Além dos zines, outra fonte de conhecimento-superficial-que-gera-autoconfiança-sem-base-técnica é uma conversa com alguém mais experiente. A vizinha te conta super empolgada como foi que ela construiu sua casa e disso a gente rapidamente conclui que ali está um jeito bom de fazer (ainda mais se a casa estiver de pé). Claro que se a casa ainda está de pé, isso é um bom sinal. Mas quer dizer apenas que ela está de pé até agora.

E “estar de pé” não significa necessariamente durabilidade, boa climatização, facilidade de construção, baixo custo, construir com as próprias mãos, etc.

Bom, em termos de estrutura de uma casa, coloquei numa extremidade o conhecimento de zine. Na outra, vou colocar os cálculos estruturais: diagrama de corpo livre, tensor de tensões, momentos de inércia de cada elemento, etc. Ou seja, para cada forma e material, as contas vão dizer o que vai acontecer. Logo, te indicarão o que é melhor ser feito: onde reforçar e onde reduzir dimensões.

Análise das forças no sólido de tensões, fonte.

E a experiência prática vai enriquecer todo esse campo.

Faz muito tempo que estudei cálculo estrutural. Se me esforçar bastante, é provável que consiga reencontrar aquela habilidade. Mas acredito que ainda sobrou um pouco de conhecimento que virou intuição. Guardo comigo alguns princípios gerais do funcionamento dos materiais e soluções padrão de engenharia. Então, essa postagem será uma contribuição para o conhecimento de zine disponível, só que um pouco mais aprofundado.

Mostrarei agora algumas fotos de exemplos de fundações para termos ideia visual do que se trata essa conversa. Em seguida, virá um pouco de teoria.

Vejamos, então, os exemplos:

Um pouco de teoria: graus de liberdade

Tem um conceito da análise estrutural que se chama “graus de liberdade”. Imaginemos uma peça sozinha flutuando no espaço tridimensional (x-y-z). Se aplicarmos uma força na peça no sentido do eixo X (Fx), a peça irá se mexer ao longo do eixo X, pois não há resistência (ela está flutuando!). Se tentarmos girá-la em torno do eixo Y (Gy), ela irá girar naquele eixo. Para qualquer força aplicada, não há nenhuma restrição de movimento: ela pode ir pra frente e pra trás (Fx), pra cima e pra baixo (Fy) e prum lado e pro outro (Fz); além de poder girar em qualquer direção (Gx, Gy, Gz). Como são 3 eixos e 2 tipos de movimento para cada eixo (deslocamento e giro), uma peça flutuando no espaço possui, então, 6 graus de liberdade (movimentos possíveis).

Infelizmente, não consegui encontrar um vídeo que explicasse bem e com desenhos isso que descrevi no parágrafo anterior. Presencialmente com uma folha e uma caneta, acho que seria mais fácil.

A utilidade da propriedade graus de liberdade é podermos analisar que tipos de movimento uma determinada junção vai permitir (ou impedir) uma peça realizar. Poderia parecer óbvio que numa casa, num poste ou numa placa de sinalização que fica acima de e atravessa uma rodovia, tudo o que a gente quer é que a estrutura não se mexa de jeito nenhum (a junção chamada engaste tem zero grau de liberdade). Mas vejamos uma ponte ou de um trilho de trem. Ambos casos, a peça é de grande comprimento. Com as mudanças de temperatura, do dia e das estações do ano, ocorre a dilatação do material (o metal muda mais de tamanho que o concreto). Assim, temos que prever que a estrutura irá se mover, mas não devido à carga. Pelo menos, um dos apoios deve permitir movimento horizontal, como mostra a foto abaixo.

Treliças: tração ou compressão?

Outra situação contraintuitiva são as treliças. Não as de jardim, mas as que se usa para fazer pontes, torres de transmissão de energia e telhados. Quando uma peça está sofrendo flexão (ex. uma vara de pescar com um peixe na ponta ou uma árvore ao vento), de um lado da sua seção* o material está sendo comprimido, do outro, tracionado/puxado. Esse modelo é baseado na teoria da Linha Neutra: para cada forma, existe uma linha onde a tensão é zero, sendo que a tração cresce prum lado e a compressão para o outro. (* Numa tora, por exemplo, a seção transversal é a área redonda que aparece quando a gente corta-a transversalmente.)

Bom, a galera descobriu que era possível distribuir melhor as tensões, além de reduzir o peso e o volume das peças, se elas estivessem sofrendo apenas tração ou compressão, e nada de flexão. Para isso, as junções entre as peças deveriam permitir o movimento de giro (um grau de liberdade). Ou seja, elas estariam unidas por uma rótula ou pivô. E deveriam ser formadas pela figura geométrica com menor número de lados: o triângulo. É isso que faz uma estrutura ser uma treliça: cada parte ou está sob tração, ou está sob compressão, e ser formada sempre por triângulos.

Exemplo de estrutura treliçada.

Então, as treliças são estruturas que se beneficiam de ter todas as junções permitindo um tipo de movimento, o giro em apenas um plano.

Esses são apenas dois exemplos em que não devemos usar o engaste (nenhum movimento possível). O apoio deve ser móvel para que tudo fique no lugar como planejado.

Formato dos perfis

Outra conclusão que se pode tirar dos cálculos usando a teoria da Linha Neutra é a seguinte: para cada tipo de carga (tração, compressão e/ou flexão) existe um perfil que irá suportá-la melhor. Os perfis otimizados pela engenharia mais comuns são os em formato de “I”, “L”, “T”, “U”, “H”.

Exemplos de perfis

Por exemplo, os trilhos de trem são feitos com o perfil “I”. Várias estruturas de máquinas usam o perfil “U” ou “L”, assim como torres de transmissão de energia e galpões com estrutura metálica. Já os postes e suportes de placas de sinalização tem seção quadrada ou redonda, mas oca.

Claro que além da função estrutural, as peças precisam funcionar para o seu propósito e também ter boa cara. Mas por enquanto, estamos prestando atenção apenas para sua resistência.

O que gostaria de ressaltar aqui é que, diferente de uma peça maciça, os perfis listados acima são feitos de “vazios”. Um dos poucos exemplos que temos na natureza dessa economia de material é o bambu. Tanto uma tora quanto um bambu, ambos têm seção circular. Porém, se conseguirmos encontrar um bambu que resista à tração, por exemplo, o mesmo que uma tora, veremos que a peça de bambu pesará bem menos que a tora.

Na construção com madeira também aparece essa economia nos perfis. Por exemplo, por que é melhor usar caibros e não barrotes para a estrutura de um piso ou telhado? O perfil retangular na vertical aguenta muito mais que um perfil quadrado de mesma massa.

Dependendo da disponibilidade de materiais para sua construção e ferramentas, pode ser melhor cortar aquelas toras enormes e pesadas em dois caibros ou 4 barrotes e facilitar a sua vida (e prolongá-la tb!!).

Até onde consigo pensar, a única situação (olhando somente para o aspecto estrutural) que vale a pena usar uma tora inteira é quando a peça está majoritariamente sob compressão. E olhe lá!

Na próxima postagem, vou aplicar essa teoria para os esteios e suas possíveis fundações. Então, retomarei os exemplos reais para analisá-los e ver se podemos tirar alguns critérios para poder escolher melhor (ou pelo menos, saber as vantagens e as limitações da nossa escolha).


Referências:

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Roda nova para o carrinho de mão

Não é incomum termos problemas com as rodas dos carrinhos de mão, geralmente o pneu fura ou os rolamentos desmontam sozinhos. Uma vez construí com um amigo um carrinho de mão todo de madeira e bambu. Pena não ter uma foto dele aqui para mostrar. As duas hastes onde a gente agarra para empurrar e controlar a direção eram de bambu. O resto eram pedaços de tábuas de pinus.

A inspiração veio do Manual da Arquitetura Descalça, de Van Lengen:

Dessa vez, eu já tinha o carrinho de metal, porém a roda estava … irreconhecível. Nunca tinha vista um troço assim, hehe.

Dizem que o domínio do fogo mudou o curso da nossa espécie. Mas ninguém inventou o fogo – ele tava lá desde sempre, acontecia. A roda, porém, dizem que, essa sim, foi a (primeira) maior invenção humana. Entretanto, um tio meu disse uma vez: “a roda não é algo incrivelmente inteligente, algo novo. O formato é óbvio demais, basta olha para o céu: o sol é redondo. A lua é redonda. As árvores tem o tronco redondo. Por outro lado, a figura que realmente deve ter tirado a noite dos primatas foi invenção do triângulo!”

Fora a geometria, uma circunferência com volume e matéria, ou seja, um disco, tem a maravilhosa utilidade de fazer as coisas rolarem, coisas muito pesadas inclusive. E o formato da roda vai definir sua função, ou o contrário: cada uso com sua roda.

No diário da Viagem do Beagle, Charles Darwin conta que no Brasil as estradas eram tão ruins, mesmo as principais, que “nenhum veículo com rodas, exceto os desajeitados carros de boi, poderia usá-las.” E mais adiante, ao fazer uma “pequena” viagem de Buenos Aires até Santa Fé (470km pelo asfalto de hoje), escreveu: “as estradas perto da cidade, após uma chuva, eram extraordinariamente ruins. Nunca teria passado pela minha cabeça que seria possível um carro de bois atravessá-las. Andávamos, a duras penas, dois quilômetros por hora.” E a descrição que Darwin faz desses veículos é a seguinte: ¨são muito longos, estreitos, protegidos por um telhado de junco; possuem apenas duas rodas, cujo diâmetro, em alguns casos, alcança 3 metros.”

Tudo isso para dizer que nos caminhos que costumamos transitar aqui no sítio, tem uma característica das rodas que é muito importante: o tamanho. A largura costuma ser relevante em terrenos arenosos ou moles. Mas numa estrada cheia de pequenos buracos e pedras, um grande diâmetro faz com que “pulemos” esses obstáculos.

Então, por que será que os carrinhos de mão que encontramos à venda possuem rodas tão pequenas? Sem contar que, dependendo da inclinação (ou tamanho de quem está empurrando), é bem fácil empacar por causa que a proteção dianteira esbarrou em alguma coisa, muitas vezes era apenas o chão!

Assim, com uma roda em frangalhos e a ajuda de Darwin, eu poderia dar um salto evolutivo e construir uma roda de madeira, com o maior diâmetro possível.

A roda “original” tinha 24cm de diâmetro (como mostra a foto lá de cima, a parte rígida é uma peça só de metal). O pessoal tava usando assim mesmo, pois não queria comprar um pneu novo e do jeito que estava não tinha o inconveniente de furar. Medindo o espaço disponível entre o mancal/apoio do eixo e a caçamba, de um lado, e a proteção dianteira, de outro, descobri que era possível fazer uma roda com uns 38cm.

Aproveitando as madeiras que tinha e pensando em botar algo como “pneu”, fiz uma roda de 35cm da seguinte forma: juntei duas tábuas de 20cm por 35cm (aproveitei uma que já estava cortada) formando um retângulo de 40 x 35cm. Por cima delas, fazendo com que as fibras das madeiras de cima ficassem perpendiculares às fibras das de baixo, preguei uma segunda dupla de tábuas de mesmo comprimento. Tudo seria mais fácil se tivesse um quadrado para trabalhar, mas não era o caso…

Com as tábuas bem pregadas e firmes umas nas outras, peguei a tampa de uma balde para servir de molde e tracei a circunferência. Em seguida, cortei com a tico-tico.

Agora vem mais um mistério da geometria: como encontrar o centro de uma circunferência? O centro de um triângulo até que é meio óbvio, mas o da circunferência já dá um pouco de insônia.

O jeito mais fácil que encontrei foi desenhar um quadrado (bem quadradinho) que estivesse bem junto por fora ou por dentro da circunferência. Aí, é só traçar as diagonais. O ponto de encontro delas é o centro que estamos buscando.

Porém, infelizmente eu já tinha cortado as madeiras! Não havia mais quadrado para traçar as diagonais.

Entretanto, provavelmente há muitos anos atrás, uma pessoa que trabalhava com madeira já tinha se deparado com esse problema nos deu a solução, usando duas ferramentas comuns na marcenaria: o esquadro e a régua.

Aqui um exemplo de como encontrar o centro. Esse era um cilindro feito de cocão para um moedor de cana que não deu certo.

O procedimento é o seguinte: apoiar a peça redonda dentro do ângulo do esquadro e alinhar a régua com a marca de 45 graus. Se a peça for uma circunferência perfeita, com duas marcações já daria para encontrar o centro. Porém, nas vezes que que usei essa técnica, fiz vários riscos em diferentes ângulos para ter uma ideia de onde era o centro, pois a gente sempre dá umas desviadas quando tá cortando.

Sabendo a posição do centro, aí é só fazer o furo para passar o eixo. Quando se trabalha com metal, dá para ter mais precisão nas dimensões das peças e o eixo encaixa justinho nos rolamentos. No caso da madeira, não. Tive que deixar uma folga maior para que a roda girasse tranquilamente. Só que essa folga deixa a roda bamba. E com o tempo e o peso das cargas no carrinho, o furo da madeira vai se deformando, tornando a roda mais bamba ainda.

Para evitar que isso aconteça, coloquei duas peças quadradas de cada lado da roda, meio que funcionando como “arruelas”. A largura e altura dessas “arruelas” impedem a roda de sair tanto do eixo vertical, o que imagino que dê mais tempo de vida para esta maravilhosa invenção da humanidade.

Pra finalizar, preguei uma tira de pneu de bicicleta no contorno exterior para ver se ela dura mais.

Referências:

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Fogo para tratar madeira

Talvez o fogo seja uma mais antigas formas de fazer a madeira durar mais. Porém, pensando em tratamentos rústicos, escolhas anteriores ao corte parecem ajudar muito nesse intuito: cortar na lua certa (minguante; maré baixa – há controvérsias sobre esse critério!), no período do ano certo (meses sem “r”) e buscar a melhor madeira para cada tipo de finalidade.

Para que a madeira dure, protegê-la, quando possível, após o tratamento também é uma boa prática, evitando que pegue sol e chuva (sem falar nos vernizes e tratamentos químicos).

A madeira de uso interior, como a de móveis, desde que mantida isolada de possíveis fontes de fornecimento de água, tem uma umidade de equilíbrio situada ao redor de 14% e está, portanto, livre do ataque de fungos que só ocorre em umidade acima de 20%.

Processos Práticos para Preservar a Madeira, Embrapa (2004)

Deterioração

Basicamente, a madeira vai “estragar” como qualquer outra matéria, ou seja, por desgaste, ruptura, ou transformação de estado (por exemplo, através do fogo). E ela também vai “estragar” como qualquer outro ser vivo, ou seja, servindo de alimento para outros seres vivos, como cupins ou fungos. (Descobri que no meio aquático, alguns crustáceos e moluscos também podem atacar a madeira quando submersa.)

Quem já usou óleo queimado com intenção de proteger madeira recém-cortada sabe: se houver umidade, ela vai fungar mesmo assim. E fazendo meus experimentos aqui com pinus, vi que acontece o mesmo com o fogo: em pouco tempo depois de queimado o pinus, aquele mofo verde começa a brotar.

Apenas lembrando, madeira podre é madeira comida por fungos:

Nas madeiras apodrecidas é comum encontrar-se estruturas vulgarmente denominadas “orelhas-de-pau”. Nada mais são que corpos de frutificação de macrofungos. Esses fungos têm na madeira seu alimento. Os corpos de frutificação produzem grande quantidade de minúsculas “sementes”, denominadas esporos. Levados pelo vento e em condições favoráveis de umidade, temperatura e aeração, os esporos germinam, produzindo finíssimos filamentos denominados hifas, que penetram na madeira. Essas hifas formam o corpo vegetativo do fungo, ou o micélio. O apodrecimento da madeira ocorre devido à atuação de enzimas, isto é, compostos químicos produzidos pelo fungo. Depois, em condições favoráveis, corpos de frutificação podem ser formados no exterior da peça atacada.

Processos Práticos para Preservar a Madeira, Embrapa (2004)

Bom, mas então se não serve pra fungo, pra que serve tratar madeira com fogo? Ou que tal mudar a pergunta: em que condições o fogo é um bom tratamento?

Yakisugi

Uma técnica que ficou bem conhecida é a Shou Sugi Ban ou Yakisugi, algo que em japonês significa “cedro queimado”. É curioso que sugi seja traduzido como “cedro japonês”, mas a espécie na verdade é um cipreste. O procedimente consiste em queimar uma pequena camada superficial da tábua com o objetivo de evitar os “bichos”, pois cupins e fungos não comem carvão (pois não há mais celulose na superfície), a umidade (pois o fogo sela a madeira) e retardar o fogo (pois o carvão tem menor condutividade térmica que a madeira).

O jeito tradicional de executar a técnica é juntar três tábua numa seção triangular, formando uma chaminé. Coloca-se um combustível na parte inferior (que pode ser papel, palha, galhos) e ateia-se fogo, cuidando para deixar o ar entrar por baixo e ser sugado pela “chaminé”. Depois, vira-se para queimar a partir da outra extremidade, de modo a ter uma queima o mais homogênea possível. Aqui tem um vídeo de um japonês mostrando o que tentei descrever.

Minha experiência

Para tratar os esteios do Viveiro e da Casa de Sementes do Rancho sem Nome, em Rolante, simplesmente fizemos uma fogueira e passamos lentamente as toras por cima. Queimamos apenas a partes que seriam enterradas. E no caso dos esteios da casinha de compostagem, fiz o mesmo, mas com um pouco mais de método e em toda a superfície das peças.

Queimando toras de eucalipto

Dispus um esteio sobre cavaletes, que ficava mais ao lado da fogueira. As outras peças iam apoiadas em cima, sendo facilmente manipuladas para serem queimadas uniformemente. Como os pinus eram bem menores e mais leves que os eucaliptos, a operação foi mais fácil.

Queimando os caibros de pinus

Resultados, até agora

O esteios de eucalipto foram enterrados e o buraco coberto com cimento. Esperamos que o uso do cimento no lugar de terra e pedra faça durar a madeira por dificultar o acesso dos cupins subterrâneos. Porém, como faz vários meses que eles foram instalados e ainda não há cobertura, a umidade vai favorecer o apodrecimento. Como foi usado eucalipto vermelho, até agora não apareceu nada de fungo.

(Uma outra opção para preencher os buracos dos esteios seria alternar camadas de areia com cal. Por mais que a areia permita a entrada de água (e sua drenagem também), a cal cria um ambiente básico/alcalino (o contrário de ácido) que dificulta a entrada de cupins e fungos – dos seres vivos em geral.)

Os esteios da casinha de compostagem foram apoiados sobre pedras, o que manteve-os afastados do solo. Porém, o material usado na composteira entrou em contato direto com a madeira, o que tornou o ambiente (úmido e quente) favorável para o aparecimento de fungos, ainda que fora da terra. As madeiras que ainda estavam verdes, mesmo depois de queimadas, fungaram no segundo dia, ainda descansando, sem nem terem entrando em contato com a pilha de compostagem (que é feita para fungar!).

Outras considerações

  • Cada espécie possui uma resistência natural a fungos e cupins. Nos tratamentos sem uso de químicos, é muito provável que essa propriedade intrínseca seja o fator chave na durabilidade da peça. Um eucalipto vermelho naturalmente resiste muito mais que um pinus.
  • Todos os tratamentos parecem funcionar melhor em madeiras secas (o contrátio de verdes), cortadas há tempo.
  • Proteger as madeiras da chuva e de fontes de umidade evita o aparecimento de fungos (de cupins também).
  • A queima sem muito controle pode prejudicar a capacidade estrutural da peça. Se ocorrer a torrefação, a madeira estará em ótimas condições para ser usada para gerar calor (carvão!). A técnica japonesa parece ser usada somente para tábuas, sem função de suporte de carga. Este artigo científico afirma que se a cabonização (madeira virar carvão) acontecer apenas na superfície, não há redução na resistência da peça.

Referências:

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Poda mal-feita

Ontem estava cortando um tronco ao meio e tive uma surpresa. Havia uma mancha que descia pelo cerne, como se fosse um líquido escorrendo, e que logo notei ter o aspecto de apodrecimento.

Primeiro achei estranho: a podridão vinha descendo pelo centro do tronco de uma árvore sadia. Eu havia cortado ela no dia anterior e sua cara, da base até os ramos lá do alto, estava ótima.

Porém, logo acima do corte transversal que eu tinha feito para separar um pedaço para fazer cabos de ferramentas, havia um galho. Na verdade, era o resto de um galho que devia ter quebrado há muito tempo e que estava podre, já meio esfarelando. Pensei: “olha só! será que esse galhinho aí tá fazendo o tronco todo apodrecer por dentro, de forma que não se consegue ver de fora?”

Pois sim! O galho estava quebrado e a árvore não conseguiu cicatrizar a ferida.

Aqui percebi, na prática, a importância de fazer uma boa poda, pensando no ângulo do corte, nas rebarbas (dependendo do fio da lâmina), preservando a crista e o colar. E além disso, estar atento aos cortes antigos, pois a árvore pode estar morrendo por dentro e nem nos damos conta.

Fonte: Manual de Poda
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Guarda-roupas

Outro dia vi um pedido num grupo de Maquiné: “alguém sabe de um marceneiro pra fazer um guarda-roupas?” Eu não conhecia, mas bem que poderia tentar fazê-lo. E me ofereci.

A galera do Amó e eu combinamos valores (sem valor; eita! e agora?), gasolina (ida e volta de Rolante), comida (todas as refeições) e data. O material, decidiram usar pinus tratado (tábuas de 2,7m por 20cm, de 2mm de espessura). Algo que facilitou bastante foi já terem um par de portas. Assim, o projeto seria adaptado ao tamanho delas. O guarda-roupas ficou com 2m de altura por 1,20m da largura e 40cm de fundo. Para o forro, usamos aqueles forrinhos de pinus comum nas madeireiras.

Amó, Lugar de Bem Viver

O AMÓ é um espaço cultural de arte e sustentabilidade, situado entre as margens do Rio Maquiné e a Reserva Biológica da Serra Geral. O espaço se propõe a investir em pesquisa e criação artística, produção de eventos culturais, assim como a promoção de cultura agroecológica e economia solidária.

Nessa minha “carreira” de marceneiro itinerante, sempre preciso de lugar pra ficar. Lá no Amó, tive a oportunidade de usar a casa de visitantes, com seu capricho nos detalhes e uma vista incrível da linha Pinheiro de Maquiné.

Trabalhei por um dia e meio. Uma manhã para conceber e prever os passos da construção. Uma tarde para ajeitar as madeiras, cortar e verificar o projeto. E mais uma manhã para finalizar e consertar tudo que não tinha conseguido prever.

Eis a vista da casinha onde fiquei:

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Mesinha de centro

Este é mais um móvel usando os restos de pinus que estão no terreno. Pelo diâmetro das toras que achei, ainda não consegui fazer tábuas. Então, uso umas de eucalipto para as superfícies planas maiores. Para a mesinha, fiz as perninhas de pinus, das sobras da bancada da oficina. O encaixe de rabo de andorinha foi uma experiência. Porém, na curva do tampo, o corte para o encaixe deixou uma pontinha frágil. Apontarei esse detalhe nas fotos. Tive que reforçar ali com um prego. A junção das tábuas do tampo foi feita com um forrinho de pinus (não pode sentar em cima!).

E aqui o detalhe que fragilizou o encaixe: