Nota sobre a tradução: O texto que segue é fruto de tradução coletiva realizada num grupo de estudos sobre o livro. É permitido seu uso para fins não comerciais.
Capítulo 1
Levando a Observação de Campo ao Antropoceno
O termo “Antropoceno” tem sido muito criticado — e, muitas vezes, com razão — pelo que ele omite e pelo que enfatiza de maneira potencialmente enganosa. Ainda assim, Antropoceno tornou-se um ponto de encontro para discussões sobre perigos ambientais, atravessando disciplinas e divisões políticas, e isso nos parece motivo suficiente para utilizá-lo.
Talvez a única característica do Antropoceno sobre a qual a maior parte dos comentaristas concorda seja sua natureza planetária: das mudanças climáticas à crise de extinção, e da radioatividade aos agrotóxicos industriais, não se trata de uma tempestade local. Essa escala planetária permite atenção a fenômenos que atravessam regiões, como o clima. Ela também é uma escala que viabiliza uma mobilização política global. Não há lugar para se esconder do Antropoceno, e esse conhecimento talvez ainda impulsione formuladores de políticas a abandonar os prazeres destrutivos do business as usual. Porém, muitos defensores da justiça social argumentam que a escala planetária, por si só, condena o próprio conceito. Ela pressupõe uma humanidade unitária que simplesmente não existe. Ela supõe responsabilidade igual por parte das elites e dos empobrecidos e oprimidos. Além disso, aprofunda divisões raciais — ao ignorá-las. Ademais, dado que são necessários métodos de modelagem de alta tecnologia para trabalhar nessa escala, estudar o planeta como um todo privilegia o trabalho de “especialistas”, que conquistaram desconfiança pública em muitos lugares do globo.
Tanto as críticas quanto as defesas de uma escala planetária merecem ser levadas a sério. O que defendemos é que, pelo fato de o Antropoceno ser planetário, isso não significa que ele seja apenas planetário.
Mesmo os modelos planetários mais dedicados são somas e projeções de fenômenos locais. Os modelos dependem da prática de “verificação em campo” (ground truthing), isto é, de testar projeções contra o que de fato está acontecendo em lugares específicos. Este livro inverte a relação convencional entre modelos e verificação em campo: levar a verificação em campo a sério cria um tipo diferente de modelo, repleto de perspectivas empíricas múltiplas e sobrepostas. Ao investigar os efeitos planetários de programas humanos de “criação do mundo” em muitas escalas diferentes de espaço e tempo, mostramos como se torna possível contar histórias que reverberam entre escalas. Em vez de desaparecerem dentro dos modelos, a observação de campo ganha destaque; é assim que mapeamos estruturas da paisagem, o que, por sua vez, nos ajuda a pensar sobre sistemas — incluindo sistemas planetários.
Esse é um insight do movimento de justiça ambiental, que tem moldado a produção acadêmica desde a década de 1980. Nos Estados Unidos, essa linha de pesquisa começou em torno dos problemas do descarte de resíduos tóxicos em comunidades de pessoas racializadas.¹ Estudar esse fenômeno exigia chegar perto do próprio local de descarte e também da comunidade forçada a conviver com ele. Mas também envolvia recuar para enxergar a ecologia racial mais ampla na qual resíduos tóxicos são descartados de forma desigual e na qual comunidades de pessoas racializadas tiveram menos capacidade de se afastar desses locais.² É ao se deslocar entre escalas que estudiosos de justiça ambiental combinam as percepções que obtêm das experiências e ecologias das pessoas comuns com aquelas de uma análise estrutural da paisagem.³ No processo de mudança de escala, torna-se possível considerar como fenômenos amplamente difundidos do Antropoceno, como aterros e depósitos tóxicos, são constituídos em relação a desigualdades raciais. Em vez de imaginar um planeta separado das preocupações com a justiça social, essa mudança de escala permite que o planeta ganhe foco como resultado de nossa história social.
Quando a natureza planetária do Antropoceno é superenfatizada, as observações baseadas em campo desaparecem, tendo sua importância rejeitada. Contudo, esse banimento joga fora o bebê junto com a água do banho; não é possível conhecer o Antropoceno sem descrevê-lo adequadamente. Humanistas e cientistas naturais fazem parte do problema aqui. Muitos cientistas naturais hoje se encantam com os prazeres dos megadados, que lhes permitem fazer pesquisa sem sair de seus escritórios, priorizando conjuntos de dados planetários em vez de estudos localizados. Assim, produzem o tipo de pesquisa escalável que tem mais chances de garantir financiamento. Os humanistas, por sua vez, muitas vezes tendem a desvalorizar a descrição como algo antiquado e, de algum modo, de maneira contrafactual, carente da distinção aristocrática que compõe “a teoria”. Em contraste com essas práticas, nossa equipe — em solidariedade com cientistas e humanistas igualmente pouco convencionais — argumenta que descrever o Antropoceno, em todos os seus fragmentos e processos, é o trabalho mais empolgante e desafiador dos nossos tempos.
As observações de campo assumem muitas formas. Os relatórios nos quais nosso trabalho se baseia incluem tanto humanos quanto não humanos, envolvendo história, etnografia, biologia, geologia, hidrologia, entre outros. Artistas também realizam formas importantes de observação de campo.⁴ No ambiente acadêmico, heranças regionais e subdisciplinares de observação ampliam a variedade de formas de empirismo. Além disso, não profissionais têm muito a contribuir. Por exemplo, observadores de aves e coletores de cogumelos tanto se baseiam quanto contribuem para os campos da ornitologia e da micologia. Outros trabalham a partir de tradições de conhecimento diferentes, como ensinamentos e práticas indígenas. Conhecimento e experiência vernáculos são um ativo, não uma limitação; existem muitas formas de observação empírica possíveis, cada uma adicionando conhecimento. De fato, é reunindo dados e experiências provenientes de diferentes formas de observação que estudiosos, cidadãos e vários tipos de ativistas podem compartilhar curiosidade e preocupação sobre o mundo. Não há chance de conhecermos o Antropoceno se não conseguirmos trabalhar juntos para além dessas divisões. A curiosidade baseada em campo pode iniciar conversas.
Nosso interlocutor: um Antropoceno apenas planetário
Antes de mostrar como usamos observações de campo para entender o Antropoceno, consideremos a seguinte alternativa. Entre humanistas ambientalistas, Dipesh Chakrabarty é talvez o mais dedicado admirador da escala planetária. Chakrabarty se distingue da maioria dos outros humanistas por ter estudado cuidadosamente a ciência da Terra e a modelagem global relevantes; ele valoriza a narrativa da longue durée do Antropoceno porque a conhece. Chakrabarty também foi um dos primeiros humanistas a valorizar o Antropoceno tal como cientistas naturais o apresentaram — e não, como muitos humanistas faziam nos primeiros dias de discussão, saltando imediatamente para a crítica do conceito.⁵ Todos os estudiosos do Antropoceno hoje lhe devem essa contribuição.
Ao explicar sua apreciação da escala planetária, Chakrabarty recorre a seu trabalho anterior como estudioso pós-colonial para mostrar aos leitores as possibilidades filosóficas de sistemas de conhecimento incomensuráveis. Nesse trabalho, ele diferenciou a história social indiana que a maioria dos historiadores de formação apresentava, a qual chamou História 1, das temporalidades dos deuses indianos, que não podiam ser acomodadas naquela história e, por isso, formavam, para Chakrabarty, uma História 2.⁶ A História 2 permite refletir sobre as omissões e distorções da História 1, ao mesmo tempo em que oferece suas próprias narrativas.
Nessa mesma linha, Chakrabarty pede aos humanistas que separem o “global” e o “planetário” como dois tipos divergentes de história.⁷ O global, como uma espécie de História 1, conta as histórias da política e do comércio e, também, das condições subalternas e da rebelião. Em contraste, o planetário, como uma espécie de História 2, oferece histórias geológicas e climáticas de longue durée: histórias que rebaixam a presença humana e recusam nossas distinções mesquinhas. O Antropoceno, ele argumenta, exige essas últimas histórias; os humanistas ambientalistas não deveriam tentar turvar as águas com suas confusões entre política e clima. Em vez disso, para Chakrabarty, o planetário pode servir como comentário reflexivo sobre modos mais familiares de conhecer, próprios do humanismo, como o global.
Este livro acompanha Chakrabarty ao valorizar a longue durée do tempo geológico e as implicações surpreendentes de tratar o planeta como uma unidade. Contudo, em contraste, este livro argumenta que é possível contar histórias humanas que reverberam em muitas escalas, incluindo a geológica e a planetária. As histórias humanas moldam o tempo geológico. Na análise espacial, a escala planetária não exclui outras escalas; ela simplesmente passa a existir na interação entre escalas. Diferentemente dos temores de Chakrabarty, isso não significa reduzir o Antropoceno a um simples reflexo da política global. Em vez disso, incentivamos voltar a atenção às ecologias de fragmentos (patch), por meio das quais tanto a política global quanto as geologias planetárias são produzidas. Mesmo o aquecimento global, o efeito mais planetário do Antropoceno, emerge da distinção entre centros industriais que produzem dióxido de carbono e sumidouros de dióxido de carbono, como as florestas e os oceanos, que o absorvem. Se olharmos para toxinas, radioatividade, extinções e outros fenômenos do Antropoceno, a natureza fragmentária da exposição a esses riscos fica ainda mais evidente. Questões de justiça e, portanto, de política, estão claramente envolvidas na distribuição de cada uma dessas ameaças. É impossível descrever o Antropoceno sem considerar as relações fundamentalmente desiguais entre humanos por meio das quais os efeitos ambientais da presença humana são estruturados.
Observação de Campo Mais-Que-Humana e as Exigências da Justiça Social
A observação de campo tende a despertar curiosidade além das perguntas originais trazidas pela pesquisadora, e esse é um dos pontos fortes do trabalho de campo. Devido aos dilemas com que pesquisadores se deparam no campo, humanistas acabam aprendendo sobre não humanos e cientistas naturais aprendem sobre humanos. É esse aspecto do trabalho de campo que talvez melhor responda a outra preocupação dos humanistas críticos: a de que a atenção acadêmica aos não humanos diluiria o foco do humanismo na justiça social, talvez até deslocando a responsabilidade por grandes crimes — genocídio, escravidão, exploração — dos perpetradores humanos para “forças naturais”. Na verdade, grande parte da descrição do Antropoceno mostra como o sofrimento humano está entrelaçado com os não humanos. Doenças, segurança alimentar, direitos sobre a terra — estes são apenas alguns exemplos de preocupações humanas que exigem atenção aos não humanos junto com os humanos. A ideia de que estudar não humanos necessariamente negligencia a injustiça simplesmente não é verdadeira.
O projeto Feral Atlas, com o qual este livro dialoga, oferece uma variedade de relatórios de campo que abordam questões de sofrimento humano por meio de uma atenção melhor aos não humanos. Considere o trabalho da antropóloga afro-americana Paulla Ebron, que se dedicou ao estudo de não humanos enquanto estudava a formação de identidades regionais nas Sea Islands e no litoral Low Country do sudeste dos Estados Unidos.⁸ Ela descobriu que precisava compreender como a criação de ambientes de doenças moldava as experiências das pessoas escravizadas.

Ao olhar novamente para o famoso desenho do navio negreiro Brookes, divulgado pelos abolicionistas do século XIX (Figura 10), Ebron concentrou sua atenção não apenas nos corpos dos cativos, mas também no espaço apertado entre eles. Indagando o que mais vivia nessas fendas de um “espaço vazio”, ela voltou sua atenção para ratos, piolhos, mosquitos e organismos causadores de doenças que tornavam a sobrevivência ainda mais precária. Isso, por sua vez, a levou a aprender mais sobre os mosquitos Aedes aegypti, transmissores da febre amarela, que atravessaram o Atlântico a bordo de navios europeus. Os mosquitos podem ter vindo do Mediterrâneo ou da África — mas as condições desumanas dos navios negreiros, em que os corpos eram empacotados com tão pouco respeito pelo bem-estar, permitiram um desenvolvimento decisivo: uma nova linhagem de mosquitos evoluiu a bordo dos navios. Mosquitos Aedes aegypti africanos vivem em buracos em árvores e raramente encontram humanos. Mas essa nova linhagem vive exclusivamente em fontes de água humanas, como a água doce transportada nos navios negreiros. Todos os mosquitos Aedes aegypti do Novo Mundo são descendentes dessa linhagem que evoluiu nos navios negreiros. Esses mosquitos, afeitos aos humanos, infectaram as pessoas escravizadas e também seus capturadores, moldando gerações de vida precária e produzindo morte prematura no Novo Mundo. Com o tempo, essa linhagem dos navios negreiros foi levada de volta à África por navios e também, através do Pacífico, até a Ásia. Essa linhagem de mosquitos, nascida com o sofrimento de pessoas escravizadas, continua a carregar alguns dos piores vírus de nossos tempos, da dengue à zika.
O relatório de campo de Ebron ilustra como a pesquisa humanista pode levar à atenção aos não humanos sem perder de vista as preocupações com justiça social. Nesse trabalho e em muitos outros, nossa capacidade de rastrear histórias de opressão e sofrimento humanos — ou, na verdade, qualquer experiência humana — depende de pesquisas que foquem nas relações entre humanos e não humanos. O caso de Ebron também mostra a importância de trabalhar em múltiplas escalas — dos espaços úmidos entre os corpos capturados, que funcionavam como locais para a alimentação de sangue e reprodução de mosquitos, às conexões marítimas entre continentes, como canais para a circulação de vírus: é apenas trabalhando entre essas escalas que se torna possível compreender como os ambientes de doença são criados. De fato, isso nos leva ao globo, e até ao planeta. Alguns estudiosos argumentaram que a escravidão atlântica foi central para o surgimento de uma “modernidade” global e produtora de mundo.⁹ A criação de ambientes de doenças antropogênicas é uma característica crucial dessa modernidade que muda o planeta, e a pesquisa de Ebron torna isso explícito.

FIGURA 10. O esquema do navio negreiro Brookes. BIBLIOTECA DO CONGRESSO DOS ESTADOS UNIDOS
Críticos temem que a atenção aos não humanos possa enfraquecer o ativismo por justiça social. No entanto, pesquisas sobre o Antropoceno mais-que-humano muitas vezes surgem de colaborações entre ativistas e acadêmicos. A antropóloga filipina-americana Alyssa Paredes oferece um exemplo desse tipo de pesquisa.¹⁰ Paredes investiga as condições em uma plantação de banana em Mindanao, onde moradores das áreas próximas reclamam dos efeitos da pulverização de fungicida: o produto deriva para suas casas e jardins, fazendo plantas murcharem e deixando tanto crianças como animais doentes. Paredes trabalhou com um movimento social chamado Mamamayan Ayaw sa Aerial Spray (“Cidadãos Contra a Pulverização Aérea”) para entender a situação. Sem a oportunidade de trabalhar com o movimento social, Paredes não teria conseguido chegar à parte mais espinhosa do problema: o coquetel específico de venenos pulverizados a partir de aviões e disperso sobre vilarejos e jardins. Como a combinação era considerada propriedade privada, não havia pesquisa científica disponível sobre qual era exatamente essa combinação e que, portanto, pudesse ser usada em investigações e processos judiciais. Exigir reforma se torna muito mais difícil quando os críticos não conseguem reunir as evidências apropriadas.
Assim como na pesquisa de Ebron, as tentativas da elite de refazer o mundo em benefício próprio tornam os seres humanos dano colateral. Nas plantações de banana filipinas, os produtos químicos tóxicos se tornam ferais; eles são co-criadores do Antropoceno, junto com diretores de projeto que talvez não se importem com os moradores locais, sejam humanos ou não humanos. Um dos aspectos mais perigosamente enganosos do termo “Antropoceno” é que ele nos leva a imaginar humanos no comando — não apenas de outras pessoas, mas de todo o planeta. Mas até os humanos mais poderosos só conseguem fazer as coisas acontecerem em conjunto com não humanos. Além disso, essas conexões com frequência ultrapassam os planos de seus idealizadores — especialmente quando eles não se importam particularmente com efeitos ferais. A pesquisa de Paredes ilumina uma das características insidiosas do Antropoceno mais-que-humano: muitos agentes nocivos, humanos e não humanos, se misturam de modo transformador para criar perigos ambientais, enquanto as proteções da lei e das políticas de propriedade garantem nossa ignorância sobre o que está acontecendo.

A pesquisa de Paredes, assim como a de Ebron, também exige atenção à escala. Seria útil enxergar o mundo moderno como algo que emerge de uma condição de plantation?¹¹ Fazer essa pergunta envolve imaginar maneiras pelas quais projetos de terraformação racializados criam efeitos sistêmicos que ricocheteiam pelo globo, alterando a vida planetária. Essas questões saem das observações de campo e avançam para exercícios de pensamento sobre como trabalhar entre escalas. Nosso grupo argumenta que experimentos de mudança de escala não precisam apagar a observação de campo; no máximo, eles tornam o conhecimento baseado em campo mais importante do que nunca.
Mudanças de escala nas Humanidades Ambientalistas
Considere como alguns outros humanistas ambientalistas trabalham através de diferentes escalas. Um exemplo particularmente claro de trabalho entre escalas encontra-se em The Nutmeg’s Curse ¹² (A maldição da noz-moscada), de Amitav Ghosh. Ghosh deseja esboçar um regime global — talvez um “Império-Ceno” — no qual a expansão colonial da Europa estrutura as concomitantes catástrofes sociais e ambientais do nosso tempo. Mas ele começa em um tempo e lugar específicos: 1621, numa minúscula ilha de Banda, na atual parte oriental da Indonésia. Ali, os holandeses massacraram a população para se apropriar das árvores de noz-moscada da ilha. Depois de terem feito isso da maneira mais brutal possível, eles levaram trabalho escravizado para a produção de noz-moscada. Ghosh conecta essa história ao massacre dos Pequot do Norte em Mystic, Connecticut (EUA), em 1637, apenas alguns anos depois. Essas duas histórias são a forma dele de ligar a conquista europeia do Oceano Índico ao Novo Mundo, criando uma narrativa global, com implicações planetárias. Os dois massacres, tão particulares quanto são, estabelecem um padrão para o que vem a seguir, argumenta Ghosh. Eles convidam a reconhecer as maneiras pelas quais histórias distintas se encaixam entre regiões, produzindo efeitos sistêmicos que abarcam o mundo.
No experimento mental de Ghosh, o fio condutor que liga o Oceano Índico e o Novo Mundo é a lógica de projetos europeus de governança, que despojam a terra de pessoas, nomes e modos de vida mais-que-humanos, substituindo-os por versões europeias importadas. Esses projetos podem ser comparados à terraformação de outros planetas discutida na ficção científica — e, mais tarde, neste livro. A construção de impérios mudou o mundo ao eliminar o antigo e inserir o novo — sem levar em conta o bem-estar de humanos ou de não-humanos. A dragagem de portos para o transporte marítimo imperial faz parte desse projeto de governança tanto quanto a introdução de mão de obra escravizada.¹³
As histórias que emergem do trabalho escravizado inspiram o experimento mental da filósofa Sylvia Wynter, que caracteriza o mundo caribenho criado pela conquista europeia como o mundo da plantation. A plantation é a terra nativa apropriada e remodelada para a governança europeia (como em Ghosh), mas também (para Wynter) é refeita em sua orientação aos mercados capitalistas. Wynter acrescenta a esse mundo da plantation o “plot” — isto é, o lote oferecido a trabalhadores escravizados para que criassem seu próprio alimento para a subsistência. Wynter argumenta que o lote é o lugar onde as histórias são geradas: o “lote das histórias” emerge das relações com aquela terra. A narração de histórias caribenha ganha vida no cruzamento entre lote e a plantation, tanto em suas contradições quanto em suas interpolações. Esse também é um método de mudança de escala: ele permite passar de histórias particulares para seus efeitos sistêmicos; lotes e plantations são refratados em múltiplas escalas.
Wynter também abraçou o potencial emancipatório da escala planetária, tal como imaginado para o Antropoceno¹⁵. Ela situa isso em uma história mundial na qual pessoas negras raramente foram consideradas plenamente humanas. Toda declaração “ecumênica” sobre humanidade — isto é, toda declaração que afirma criar unidade por meio das diferenças —, segundo ela, é uma mentira: apenas certas pessoas recebem o privilégio de entrar na humanidade. Isso torna suspeitas as alegações sobre a condição humana. Ainda assim, apesar disso, há algo particularmente interessante para Wynter no Antropoceno, com seu alcance planetário e sua referência a uma humanidade comum. O Antropoceno força filosofias e tecnologias atuais a admitirem seu fracasso. Apelos à racionalidade de elites burguesas brancas não surtem efeito; ao contrário, mostram-se como o próprio problema. Nesse contexto, a escala planetária do Antropoceno, de acordo com Wynter, tem um potencial libertador. Como a crítica negra, o Antropoceno, em seu perigo planetário, mostra que tudo o que o precedeu está simplesmente errado. Talvez a mobilização nessa escala possa permitir, pela primeira vez, uma humanidade que abranja a todos. Mas observe que, para Wynter, a escala planetária é apenas uma forma de mobilizar; ela assume esse papel em conjunto com o lote e a plantation. Em contraste com a defesa de Chakrabarty da escala planetária, que argumenta por sua natureza exclusiva, o planeta de Wynter é uma experiência ativista de mobilização.
Sem essas histórias que mudam de escala, fica fácil demais naturalizar a ação humana. O problema é particularmente fácil de ver na discussão sobre a Grande Aceleração, o período desde 1945 que é atualmente a escolha preferida para a certificação geológica como a época do Antropoceno na história planetária.¹⁶ Como a Grande Aceleração costuma ser imaginada por uma série de gráficos que quantificam a perturbação humana, as características estruturais e sistêmicas das relações entre humanos e não-humanos ficam obscurecidas. Sem uma abordagem estrutural, programas de invasão multiespécies, de governança imperial e de expansão capitalista são naturalizados como o único modo de os humanos viverem na Terra. Ainda assim, também é perfeitamente possível ver a Grande Aceleração por uma narrativa diferente, como um desdobramento da economia política e da ecologia (ver o Capítulo 6).¹⁷ Pode-se argumentar que A Primavera Silenciosa, de Rachel Carson — que explicita a normalização de químicos tóxicos como parte da economia do “tempo de paz” do pós-Segunda Guerra — foi uma forma inicial justamente desse tipo de ecologia política.¹⁸ Para explicar a violência estrutural contra a capacidade mais-que-humana de habitar, precisamos de atenção a agendas de modificação de paisagens, que por sua vez se apoiam em observações de campo. A partir de observações de campo, é possível avançar para experimentos mentais que nos mostram efeitos sistêmicos em múltiplas escalas.
A modelagem global do clima é um experimento mental que muda de escala e merece a mesma espécie de atenção crítica que os experimentos dos filósofos e historiadores discutidos acima. O ponto-chave é não permitir que o modelo nos faça esquecer as pesquisas de campo e os experimentos de mudança de escala sobre os quais ele se baseia. Precisamos da escala planetária — como uma entre muitas que, no fim das contas, dependem do trabalho de observação de campo.
Múltiplas escalas são necessárias não apenas para nosso estudo, mas para nossa resposta ao Antropoceno. A mobilização global contra a mudança climática é um objetivo excelente, mas dificilmente consegue se sustentar sozinha. Muitos efeitos do Antropoceno exigem ação em outras escalas. Pense na disseminação de doenças de plantas pelo comércio industrial. Muitos pesquisadores que trabalham com modelos planetários buscam enfrentar o impacto da mudança climática sobre as florestas, mas as ações que eles defendem para reduzir emissões e estancar a mudança climática, raramente abrangem os tipos de ações regulatórias necessárias para interromper a importação de doenças de plantas. Pois, afinal, elas provavelmente destruirão as florestas muito antes de o aquecimento global atingi-las (ver o Capítulo 9). As doenças de plantas são ignoradas por esses pesquisadores porque seu fluxo precisa ser estudado e respondido nas escalas de cadeias industriais de suprimento e políticas e rotas de transporte marítimo, e não em uma escala planetária unitária.

Bitty Roy e suas colegas enfrentam esse problema.¹⁹ A pesquisa delas descreve como florestas estão morrendo por práticas de transporte industrial que permitem que organismos causadores de doenças sejam movidos de continente a continente todos os dias. Florestas conseguem resistir a um certo nível de doença. Mas a velocidade e a escala da importação de doenças de plantas hoje são sem precedentes, e as florestas, não habituadas a essas ameaças importadas, não conseguem reunir recursos para enfrentá-las a tempo. Mesmo enquanto formuladores de políticas do Antropoceno imaginam plantar florestas como meio de sequestrar carbono, eles se recusam a regular o transporte industrial, que transmite doenças capazes de destruir florestas.
Roy e sua equipe são cientistas da natureza e especialistas em políticas científicas; elas têm objetivos práticos em mente. Elas sugerem tipos de regulação que poderiam enfrentar esse problema. As sugestões delas são internacionais — mas não planetárias, no sentido que tanto Chakrabarty quanto os modeladores do clima têm em mente. Elas se concentram no que deveria acontecer nos portos de entrada, com a regulação de produtos de madeira e o envio de materiais vivos. Esse é apenas um exemplo de um fenômeno do Antropoceno que precisa ser enfrentado numa escala que não é a planetária. Ao mesmo tempo, há implicações claramente planetárias para a morte das florestas, inclusive para os níveis de dióxido de carbono atmosférico. As ameaças do Antropoceno podem, então, operar em múltiplas escalas; e tanto a pesquisa quanto a resposta precisam acompanhar essas escalas.
Tornar a Observação de Campo Relevante para os Estudos do Antropoceno
Se levarmos a sério a observação de campo, várias ferramentas analíticas se apresentam para estudar o Antropoceno. O primeiro passo é tomar o fragmento como objeto de pesquisa. Os fragmentos não podem ser determinados a partir de um plano elaborado de cima para baixo; eles emergem da observação de campo — a partir dos contornos dos fenômenos que estamos estudando. Os fragmentos do Antropoceno, no sentido da ecologia de paisagens, incluem estacionamentos e ilhas de plástico; diferentemente dos lotes de Wynter, estes não são principalmente locais de possibilidade utópica. Em vez disso, eles nos mostram o Antropoceno, em toda a sua brutalidade. Plantations são fragmentos do Antropoceno.
Os estudiosos não podem se dar ao luxo de naturalizar esses fragmentos; em vez disso, é necessária descrição de campo para compreender melhor o que está acontecendo neles e como eles vieram a existir. Como parte dessa descrição, precisamos considerar a importância das infraestruturas imperiais e industriais, que modificam as paisagens, produzindo fragmentos do Antropoceno. Também devemos considerar que tipos de mapas e práticas de mapeamento capturam e comunicam melhor os fenômenos do Antropoceno. Voltamo-nos a essas questões nos próximos capítulos.