Parte 1 – Fragmentos

Nota sobre a tradução: O texto que segue é fruto de tradução coletiva realizada num grupo de estudos sobre o livro. É permitido seu uso para fins não comerciais.


Fragmentos

Este livro convida os observadores a encarar o Antropoceno como um fenômeno fragmentado. Nesta parte, defendemos a importância da observação de campo e discutimos nosso uso do conceito de “fragmento”, proveniente da ecologia da paisagem. A análise de geografias fragmentadas nos permite observar o Antropoceno de perto.

Fragmentos característicos do Antropoceno incluem espaços projetados pelo ser humano, como subúrbios e shoppings, bem como espaços decorrentes de atividades humanas, mas não projetados por nós, como as ilhas de plástico [plastic gyres] no oceano. A localização e a extensão das ilhas são determinadas pela interação entre correntes, ventos e resíduos plásticos, e não como um projeto intencionado humano. Como não há manuais detalhados sobre o problema, os observadores precisam descrever e acompanhar essas manchas/fragmentos. Por exemplo, para conhecer a extensão das novas doenças e dos fluxos tóxicos do Antropoceno, os observadores devem olhar ao redor — em vez de presumir antecipadamente a extensão ou a gravidade do problema.

O Capítulo 1 estabelece as bases para aprender a observar o Antropoceno fragmentário, colocando nosso projeto em diálogo com outros humanistas ambientais. O Capítulo 2 apresenta exemplos que permitem identificar fragmentos do Antropoceno. O Capítulo 3 explora a ideia de mapeamento, de modo que fragmentos do Antropoceno com contornos indeterminados possam ser rastreados por meio do mapeamento em um sentido ampliado.

Para dar início a essa jornada, apresentamos aqui algumas fotografias de uma área específica — e relativamente promissora — do Antropoceno: a camada de resíduo deixado pela mineração de lignito em Søby Brunkulslejere, na região central da Dinamarca.¹ Devido ao alto nível freático e às areias instáveis da camada de cobertura abandonada, a área não foi urbanizada. Grande parte da antiga área de mineração está agora coberta por árvores, tanto plantadas quanto que surgiram espontaneamente. Os próprios buracos de mineração se encheram, transformando-se em lagos ácidos. Mas ainda restam montes de areia onde as areias da camada de cobertura estão expostas ao sol. Os Pinus Contorta, introduzidos na década de 1970, espalharam-se pelas areias vazias por meio de interações com fungos micorrízicos cosmopolitas, especialmente Paxillus involutus e Pisolithus arrhizus, que se desenvolvem bem em locais de perturbação humana.

Anna Tsing participou de um projeto para estudar o que cresce nessas pontas de areia; as imagens aqui apresentadas foram tiradas desse estudo.² O grupo ficou fascinado com o surto de vida que emergia na camada de resíduos abandonada: uma área do Antropoceno estava a caminho de recuperar características do Holoceno. É raro que essas áreas fiquem totalmente sem vida por muito tempo. Mas os tipos de vida que florescem aqui são aqueles particularmente adaptados às oportunidades oferecidas pela perturbação humana. Em nossa mina de lignito, espécies adaptadas à perturbação estavam criando uma geografia feral — e, de fato, bastante promissora do nosso ponto de vista. Essas fotografias apresentam as plantas e fungos estranhos e maravilhosos que emergem de areias aparentemente áridas. Antes de passarmos a manchas mais perigosas, oferecemos um lembrete das possibilidades benignas da vida que se tornou feral.

As imagens contam os prazeres de conhecer uma área, por mais perturbada que seja, em todas as suas complexidades.


FIGURA 3. Mesmo na camada de cobertura, há vida. Os Pinus contorta se auto-propagam na areia. ANNA TSING


FIGURA 4. Os cogumelos surgem de conexões simbióticas entre as raízes dos pinheiros e os fungos; aqui, o Paxillus involutus. ANNA TSING


FIGURA 5. O Pisolithus arrhizus, conhecido como “pé de morto”, se adapta bem a desertos artificiais. OLGA KOKCHAROVA


FIGURA 6. As dunas de areia servem de habitat para plantas de locais pobres em nutrientes, como a Drosera rotundifola, uma planta carnívora do gênero Drosera. ANNA TSING


FIGURA 7. Nossa equipe de pesquisa explorou as conexões entre raízes e fungos. Estudar geografias ferais envolve sujar as mãos. ANNA TSING


FIGURA 8. A geografia feral da camada de resíduo de mineração inclui tanto a areia quanto a vida que dela emerge. COLIN HOAG


FIGURA 9. Veados-vermelhos se reuniram neste local relativamente selvagem. Aqui, o cogumelo Laccaria amethystina cresce ao lado de um crânio. Nem todas as geografias ferais são tóxicas; algumas são locais cheios de vida. ANNA TSING