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[vídeo] O mundo da terra viva

“Este vídeo mostra de maneira detalhada que o solo tem vida e que pode sim ser recuperado, uma vez que se aplique os métodos corretos e naturais.”

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Carvão, como se faz?

Quando fui participar do curso do Sebastião Pinheiro sobre Biopoder Camponês no Centro Ecológico (RS) em 2022, já tinha lido metade do livro de Rebecca Oaks, Making Charcoal and Biochar – a comprehensive guide (Produzindo carvão – um guia abrangente). Além de ela nos contar a história dos usos, as técnicas de produção, sobre mercado e legislação, também traz um capítulo sobre “Carvão e o sequestro de carbono”. Como ainda não cheguei lá, sigo curioso em saber como essa mágica acontece. E sendo um argumento até comum, provavelmente mais adiante farei uma postagem sobre isso.

O propósito agrícola de fazermos carvão é poder usá-lo como melhorador do solo. Depois de queimada, a madeira não apodrece mais e a infinidade de poros que resta acaba virando moradia para microrganismos, passagem para a água e despensa para minerais solubilizados (adsorção). Assim como o composto, o uso de pó de carvão visa a totalidade do solo e não a nutrição da planta. Falarei mais sobre isso em outra postagem também.

Primeira experiência

Certo dia, lá estava eu pesquisando sobre solos. Compostagem, microbiologia, adubação verde e pimba: biochar. Ou, portuguêsmente falando, carvão! Pesquisei na internet, baixei o livro da Rebecca Oaks, li metade enquanto chovia e no primeiro sol que apareceu fui pro campo catar lenha e montar uma carvoeira primitiva.

Basicamente, tu junta toda a lenha (seca) num monte, prepara uma portinha pra botar fogo e cobre com algo pra abafar. A ideia é fazer com que a madeira (ou qualquer outro material orgânico) queime com pouco oxigênio.

Aí, a Pipoca, da Botica Yerba Buena, estava por aqui e me convidou: “se tu fizer carvão de bambu, eu preparo um sabão especial para a pele”. Aceitei. Só que fiz do jeito que dava: rachei um tanto de bambu seco (Bambusa tuldoides), empilhei e cobri com uma camadona de lírio do brejo.

Olha, deu meio errado, mas deu meio certo também: rendeu carvão suficiente para uma receita do sabão, pelo menos.

Digressão energética

Na cidade onde nasci, tem um bairro chamado assim, Carvoeira. Outro se chama Canasvieiras. Tem um monte de palavras que a gente usa para denominar um local, mas que nem presta atenção ao seu significado. Essas estão em português (casa do carvão e campo de cana-de-açúcar), imagina então os nomes herdados da Língua Geral: Guaraqueçaba, Taubaté, Biguaçu, Tramandaí.

Mas um dia eu percebi. Ali do lado de onde passei minha adolescência, devia ser uma região com poucas árvores e uma fumacinha branca varando o céu constantemente.

Antes da eletricidade e da gasolina, tudo era feito no braço, na lenha ou na tração animal. Por um lado, hoje carvão virou sinônimo de churrasco. Por outro, a poluição e o desmatamento, necessários para a produção dessa fonte de energia, agora não se veem mais, já que temos petróleo e painéis solares. Porém, a poluição e o desmatamento (e a contaminação das águas e a perseguição de populações locais e a (semi-)escravidão) ainda exitem para converter qualquer fonte de energia em eletricidade! Mas tudo isso acontece longe dos consumidores…

Se no passado, que tinha menos gente para consumir, o estrago gerado na conversão de energias era grande, imagina o que seria necessário explorar agora dessas fontes energéticas “primitivas” para sustentar o consumo atual.

Por exemplo, não faz muito tempo, o maior problema urbano de Londres, antes do aparecimento dos automóveis, era a quantidade absurda de merda de cavalo largada nas ruas para mover as pessoas e os produtos (The great horse manure crises of 1894). Muito fedor e muitas moscas. Um carro 1.0 tem um motor equivalente a entre 70 e 120 cavalos de potência. Um cavalo caga entre 7 e 17kg de estrume por dia… Dá para imaginar a quantidade de merda que uma pessoa dirigindo seu carrinho deixaria pelas ruas se ela usasse cavalos, né? E de fato, em algum lugar essa “merda” está sendo gerada.

Voltando ao carvão, e se a maioria das pessoas usasse madeira (renovável!) para cozinhar, se aquecer e mover a sua bici-locomotiva? Ou se a maioria das pessoas usasse também madeira para fazer papel para se limpar no banheiro? Desmatamento, poluição do ar, contaminação das águas, isso se pensarmos somente na produção.

E por aí vai…

A carvoeira, ao vivo e a cores

E aqui aparece o curso do Tião.

Mesmo sabendo (pelas leituras) que o processo pode ser mais eficiente e também mais complicado, foi muito bom ver uma carvoeira de fundo de quintal sendo feita em 15 minutos.

Revisitando minhas anotações do dia do curso, a única coisa que escrevi, pois me causou muita surpresa e curiosidade, foi: “queima de cima para baixo”. Como assim?? Se o fogo sobe, como a queima desce?

O pulo do gato é que a queima só acontece se houver oxigênio. Já que ele entra por baixo, lentamente a queima vai sendo puxada para o fundo.

Pessoal do curso do Tião observando a montagem da carvoeira

Como construir

Vamos ver como se monta a bichinha. O Tião me ensinou o seguinte:

  • Pega um tonel de metal
  • No fundo, com a esmerilhadeira, corta umas aberturas para entrada de ar
  • Na tampa, corta um X e enfia um cano de chaminé
  • Posiciona o tonel em cima de uns tijolos
  • Enche com madeira o mais parelha possível de tamanho. Se os pedaços de madeira forem muito diferentes, uns vão queimar mais rápido que outros.
  • Faz um bom fogo em cima
  • E depois que tiver pegado bem, tampa
  • Agora é esperar. Dependendo da dureza da madeira, a queima pode ser mais rápida ou mais lenta. Pode levar a noite inteira, por exemplo.
  • Para verificar em que altura do tonel está acontecendo a combustão, é só esguichar água na parede dele. Onde ferver, ali está acontecendo a queima
  • Quando o calor estiver a um palmo do fundo, bota o tonel no chão para trancar a entrada de ar. Se isso não extinguir o fogo, derruba o tonel e usa um regador para apagar as brasas.

Avaliação

Tendo feito algumas queimas, vou juntar aqui abaixo algumas considerações sobre essa forma de fazer carvão.

Sobre o tonel. Consegui um tonel velho com a vizinhança. Ele não tinha tampa e a base estava bastante corroída. Por isso, fiz menos cortes no fundo, pois supus que os buracos que já haviam dariam uma boa aeração.

Como esse tonel não tinha uma tampa própria, improvisei com uma que encontrei jogada no meio do mato. Assim, não encaixando bem, ou seja, tendo muitas frestas e furos em cima, também supus que não seria necessário instalar uma chaminé decente. Botei um cano só para dar um apoio simbólico.

Sobre a chaminé. Numa câmara de combustão (seja fogão, carvoeira, cilindro de motor, etc.), o ar e o combustível entram, ao mesmo tempo que a fumaça sai. Essa é a primeira lei da termodinâmica, chamada de conservação da massa: a energia não se perde, se transforma. Assim, se a fumaça, que é o resultado da combustão, ficar presa na câmara, não tem como mais ar entrar e, assim, o processo para.

No caso do projeto original do tonel, ele tem algumas entradas por baixo e uma saída por cima, a chaminé. Quando tu fazes o fogo, o calor vai empurrar a fumaça (quente) para cima e assim puxar o ar novo de baixo. Se a gente reduz o fluxo da saída, como não tem outras aberturas, também reduz o da entrada por baixo. E vice-versa.

Para a carvoeira fazer carvão, evitando que a lenha vire cinza, a queima tem que acontecer com pouco ar (oxigênio). Por isso, esse controle das aberturas.

No meu caso, o tonel parece ter muitos furos embaixo e muitos furos em cima. O resultado é que não consigo controlar bem a queima e acabo gerando mais cinza.

O carvão

Mesmo com um equipamento pouco eficiente, tenho conseguido produzir uma boa quantidade de carvão. Sempre tem uma parte que não queimou bem e outra que virou cinza. A primeira volta para a carvoeira e a segunda vai para os canteiros.

Cada espécie de madeira resulta em carvões com propriedades diferentes. Pretendo falar um pouco sobre isso na postagem sobre os efeitos do pó de carvão na agricultura.

Aqui, tenho usado bambu, eucalipto e pinus. Na verdade, como preciso limpar uma área cheia de galhada de pinus, o mais importante para mim está sendo poder transformar aquele estorvo em algo mais útil. Os galhos mais finos foram para o triturador e em seguida para a composteira. A palhada está cobrindo os canteiros. Agora, os galhos mais grossos estão virando condomínio para as bactérias!

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Compostagem Inspiração

A teia alimentar do solo

“Se tu bota fertilizante solúvel no solo (ou mesmo esterco) e a planta responde bem, não se alegre: o solo está pobre de vida”, “Qualquer manual de solos diz que a mistura de minerais contida na terra possui todos os elementos químicos que uma planta precisa. Então por que usar fertilizante químico? O que falta são bactérias e fungos!”; “Se a vida do seu solo é propícia para sua cultura, então não há necessidade de rotação de culturas!”; “Vejamos os estágios de sucessão ecológica da perspectiva da microvida do solo…” e assim segue Elaine Ingham, com diversas afirmações escandalosas.

Essa palestra, com legendas em português, me fez cair os butiás do bolso. Não que eu confie em tudo o que ela está dizendo ali, porém, ouvir sua apresentação despertou em mim uma curiosidade imensa para pesquisar sobre a vida dos solos.

Desde a tradução que fiz do artigo de Charles Dowding sobre compostagem, venho enveredando para pensar a agricultura e agrofloresta pelo viés da vida, da biologia. Fazer o composto e os plantios observando a resposta das plantas, ignorando propositadamente questões de quantidades de micro e macro nutrientes, testes de laboratório, correção por calagem, etc. Porém, até me dar conta que poderia realmente ver essa vida através de um microscópio, essa palavra era apenas um conceito, uma coisa bonita, mas frágil e disforme: vida. “Na hora de plantar, tem que pensar na vida”, “composto alimenta o solo com vida”, “agrofloresta maximiza a vida do sistema”, etc. Mas eu preciso ver as coisas.

E agora encontrei um caminho para novas descobertas 🙂