https://margaretkilljoy.substack.com/p/beyond-climate-optimism-beyond-climate
Margaret Killjoy
11 de setembro de 2026
Para além do otimismo climático e do pessimismo climático
ou Partindo da posição de que estamos ferrados
Eu estava certa sobre as mudanças climáticas, sobre sua gravidade e seu caráter imediato.
Nunca quis tanto estar errada sobre alguma coisa em toda a minha vida.
Mas não podemos cair em armadilhas fáceis como o otimismo. Nem como o pessimismo. Não podemos deixar que “estamos ferrados” seja o fim da conversa, mas também não podemos fingir que não estamos… meio encrencades. Estamos meio ferrades. Isso precisa ser o começo da conversa, não o fim.
…
Este verão (em 2026 nos EUA) foi devastador e pode acabar aparecendo nos livros de história (se ainda estivermos por aqui para escrever livros de história) como o verão em que o aquecimento global se tornou uma ameaça real e presente, e não apenas futura.
Este verão foi devastador, mas, quando vemos o Nepal ser inundado, quando sufocamos com a fumaça dos incêndios florestais que vem de mil ou dez quilômetros de distância, quando vemos o oceano esquentar e lemos que os recifes de coral provavelmente serão coisa do passado, precisamos lembrar: este não é o novo normal. Este é o melhor que as coisas vão ficar.
Este verão foi devastador, mas não é o novo normal. Talvez nunca cheguemos a um novo normal. Nunca mais haverá normalidade, a menos que impeçamos os maníacos omnicidas, que querem matar tudo, que, consciente e deliberadamente, estão destruindo todas as pessoas, os animais, as plantas e os ecossistemas do planeta. Até tirarmos de operação a infraestrutura de combustíveis fósseis, não haverá um novo normal. Podemos adaptar nossa sociedade e nossas vidas a um mundo transformado, mas é muito mais difícil se adaptar a um mundo que está mudando sem parar.
É claro que, eventualmente, o aquecimento vai parar. Ou faremos a transição para longe da infraestrutura que altera o clima, ou o clima acabará destruindo essa infraestrutura por nós. Como gosto da vida — da minha e da das pessoas, dos animais e das plantas ao meu redor —, prefiro muito mais trabalhar pela primeira opção do que simplesmente aceitar a segunda.
…
Na semana passada, a ONU lançou um relatório admitindo que não há como manter o aquecimento dentro do limite de 1,5 grau Celsius que esperava alcançar, e a internet se encheu de artigos opinativos em resposta. Eu seria hipócrita se ficasse com raiva das pessoas por escreverem artigos opinativos. Prefiro ser uma máquina de opiniões ponderadas a uma máquina de opiniões precipitadas, então dei um tempo e conversei com algumas pessoas.
A maioria das conversas não deu em nada, porque poucas coisas encerram uma conversa educada mais rápido do que falar sobre mudanças climáticas.
Na semana passada, a ONU admitiu que não há como manter o aquecimento dentro do limite de 1,5 grau Celsius que esperava alcançar, e as pessoas disseram: “Como ousam desistir?”. Outras disseram: “Não há nada que possa ser feito”. E outras ainda: “Tudo bem, elas têm um plano sólido e bem elaborado para reduzir o aquecimento, e tenho certeza de que vai funcionar”. Não gosto de nenhuma dessas respostas.
Na verdade, não tenho nenhum problema com o relatório em si. Não é possível resolver um problema sem analisá-lo com sobriedade, sem aceitar a realidade da situação. A arrogância e o excesso de confiança fazem qualquer guerra ser perdida. Em breve, vamos ultrapassar o limite de 1,5 grau (e a única razão pela qual ainda não o ultrapassamos é que o cálculo se baseia em médias de 20 anos, e não em cada ano isoladamente). Essa é a verdade.
Também é verdade que os governos e as empresas do mundo não estão levando suas responsabilidades a sério, e a maioria deles não deu nenhum sinal de que algum dia vá fazer isso. Não há motivo para acreditar que a situação atual vá levar a outra coisa que não seja uma ruína numa escala inimaginável.
…
Nem o otimismo ingênuo nem o pessimismo fatalista vão nos salvar; ambos são formas de negação que, francamente, são tão constrangedoras quanto negar descaradamente as mudanças climáticas.
O otimismo ingênuo é acreditar que as coisas já estão melhorando. Não que a Terra esteja esfriando, mas que estamos no caminho certo para desacelerar e reverter os danos. Há algumas versões diferentes dessa ideia: algumas pessoas acham que a infraestrutura de combustíveis fósseis está sendo desativada no mundo todo (embora os combustíveis fósseis representem uma porcentagem menor da geração total de energia a cada ano, a quantidade de carvão e gás efetivamente queimada aumenta, porque a geração total de energia também aumenta); algumas pessoas acham que, quando seus candidatos chegarem ao poder, haverá uma guinada suficientemente à esquerda, sem que seja preciso mudar fundamentalmente os sistemas político e econômico; algumas pessoas acham que a energia de fusão a frio logo nos dará energia limpa e ilimitada (há décadas dizem que ela está prestes a chegar) e que tudo se resolverá sozinho.
Otimismo ingênuo é acreditar que o problema está sendo resolvido. É uma forma de se esquivar da responsabilidade de construir um mundo melhor.
O pessimismo fatalista é seu corolário. O tão ridicularizado “apocalispsismo” é outra forma de se livrar da responsabilidade. Se não há nada a fazer, você pode simplesmente erguer os braços e abandonar o problema. Se não há nada a fazer, então tanto faz fazer o que quiser.
Nós, coletivamente, precisamos assumir a responsabilidade de consertar essa bagunça. E não estou falando de trocar lâmpadas incandescentes por LEDs e fingir que a reciclagem realmente acontece (na maioria dos lugares onde já morei, dá para ver que levam seus recicláveis no mesmo caminhão que leva o lixo). Não se resolvem problemas sistêmicos com soluções individuais, e a obsessão pela sua pegada de carbono individual foi uma ideia imposta a nós pela British Petroleum.
Assumir a responsabilidade por consertar isso não significa aceitar a culpa. Responsabilidade e culpa são coisas diferentes. Não é culpa minha viver num mundo transfóbico, por exemplo. Não fui eu que criei as condições que fazem as pessoas desconfiarem de pessoas trans e as machucarem. Mas minha própria libertação é responsabilidade minha. Não posso ficar esperando que meus opressores façam isso por mim.
A maior parte do ativismo liberal tende a esquecer essa diferença. Na visão liberal mais comum, nunca se pode dizer a uma pessoa oprimida que a própria liberdade é responsabilidade dela, porque isso poderia dar a entender que a opressão é culpa dela. Mas, quando retiramos das pessoas a responsabilidade, também retiramos sua capacidade de agir. Os direitos LGBT — e recursos materiais, como clínicas gratuitas e programas de ajuda mútua — não nos foram concedidos por alguém lá do alto. Foram construídos, em grande parte, por sobreviventes do genocídio da AIDS. Temos capacidade de agir porque assumimos a responsabilidade por nossa própria liberdade e sobrevivência.
Dito isso, algumas mudanças sistêmicas também envolvem mudanças individuais. Provavelmente deveríamos voar menos. Provavelmente deveríamos comer bem menos carne. Provavelmente deveríamos dirigir menos e nos afastar dos carros movidos a gasolina. Mas essas coisas só fazem diferença quando acontecem em grande escala: não se trata de mudar seu meio de transporte individual, mas de transformar nossa infraestrutura para que as pessoas possam usar o transporte coletivo e andar de bicicleta. Não se trata de virar vegano, mas de desenvolver uma economia alimentar que favoreça alimentos da estação, predominantemente de origem vegetal.
Um “boicote individual” não é boicote; é uma escolha de estilo de vida. Um boicote é uma ação coletiva e organizada — ou não é ação nenhuma. Se uma pessoa entra em greve, isso não é uma greve. É preciso que uma parcela significativa da força de trabalho abandone o emprego para construir poder coletivo (e não apenas ser demitida).
…
A maioria de nós sabe que não vamos sair dessa enrascada mudando nossos hábitos individualmente. A maioria de nós também cresceu numa sociedade que sistematicamente nos priva de qualquer senso de autonomia. Na escola, somos subordinados às autoridades e esperamos aprender da maneira que elas determinam. Na faculdade, é a mesma coisa. Professores e administradores controlam você, embora você esteja pagando aos professores para ensinar e aos administradores para administrar a instituição.
No trabalho, é a mesma coisa. Em tese, o trabalho assalariado deveria ser um acordo contratual entre iguais: o restaurante quer que lavem a louça, e você quer receber dinheiro. Mas seu chefe grita com você e diz o que pode e não pode fazer, embora seja você quem esteja gerando riqueza para ele.
Na vida pública, já adultos numa democracia, de algum modo continua sendo a mesma coisa: somos vigiados e policiados pelas instituições que financiamos e que, em tese, damos poder por meio do voto.
Somos treinades desde o nascimento para não ter autonomia. E as pessoas se perguntam por que temos dificuldade, como sociedade, de enfrentar as mudanças climáticas de maneira significativa.
A pouca autonomia que nos permitem geralmente é individual e em pequena escala. Podemos escolher onde gastar nosso dinheiro e em quem votar. Mas o que precisamos é encontrar nossa capacidade coletiva de agir.
Construir poder juntos e aprender a exercer nossa autonomia não são coisas secundárias no que será necessário para enfrentar as mudanças climáticas. Organizar seu local de trabalho em sindicato (ou pressionar seu sindicato para agir de forma mais democrática). Criar cooperativas de trabalhadores e lutar pela democracia no local de trabalho. Aprender a tratar uns aos outros como iguais e a desescalar conflitos: é assim que construímos poder.
Ensinar responsabilidade às crianças deveria ser como ensiná-las a andar de bicicleta: talvez precisem de rodinhas no começo, mas o objetivo é tirá-las. Todos nós precisamos de orientação e apoio de vez em quando, especialmente as crianças pequenas, mas um amigo meu sempre coloca assim: “se você é responsável por alguém, seu principal objetivo é capacitá-lo a ser responsável por si mesmo, para que tenha autonomia sobre a própria vida. Você precisa trabalhar para tornar seu próprio cargo desnecessário”.
Tenho certeza de que existem métodos pedagógicos que ensinam as crianças a assumir a autonomia não só sobre a própria educação, mas também em conjunto, coletivamente. Só não conheço as escolas tão bem quanto conheço os locais de trabalho.
…
Qualquer análise sóbria da situação climática leva inevitavelmente à conclusão de que estamos encrencados. Talvez até se possa dizer “estamos fodidos”, embora, é claro, essa expressão específica tenda a fazer as pessoas se fecharem.
É um equilíbrio delicado, que ainda não dominei. Como dizer às pessoas “as coisas não estão bem, e muita gente vai morrer, talvez você e eu também, mas sobretudo pessoas de outros países — e isso não torna a situação aceitável” com sinceridade suficiente para levá-las à ação, sem empurrá-las para o desespero?
Minha teoria é que, sempre que possível, devemos combinar uma análise sóbria do problema com ações que as pessoas possam tomar. A ação, não a esperança, é o antídoto para o desespero.
A ressalva, é claro, é que nenhuma ação isolada será capaz de nos salvar.
Ainda bem, então, que há 8,3 bilhões de pessoas neste mundo. São 8,3 bilhões de pessoas cujo futuro depende de deter o omnicídio do nosso planeta. São 8,3 bilhões de pessoas que podem impedir a expansão da infraestrutura de combustíveis fósseis, desenvolver infraestruturas alternativas de transporte e criar outras cadeias alimentares. São 8,3 bilhões de pessoas que podem [ ] ou [ ] ou ir diretamente para [ ] e depois [ ]. (Achou que atravessaríamos tudo isso sem lutar?)
…
Há anos venho chamando o fascismo de chefe intermediário e as mudanças climáticas de chefão final, mas isso não significa que o fascismo seja um problema menor. Primeiro você precisa lutar contra o chefe intermediário. Ele fica entre você e o chefão final. Mas, para continuar com a analogia dos videogames, lutar contra o chefe intermediário ensina você a enfrentar o chefão final. Você ganha pontos de experiência. Sobe de nível. Aprende novos feitiços… tá, talvez não essa parte.
A atual ascensão do fascismo parece estar diretamente ligada às mudanças climáticas. Não acredito nem por um instante que os políticos de direita no poder realmente não acreditem nas mudanças climáticas — minimizar e negar sua gravidade é, na verdade, uma estratégia calculada.
Digo isso porque os governos de direita estão se preparando para as mudanças climáticas. Fechando fronteiras, construindo muros. O Norte Global sabe que o Sul Global está em apuros, então está trancando as portas.
É a abordagem do “eu já garanti o meu, que se dane você” diante do apocalipse. Os malucos de direita sem poder sistêmico constroem bunkers e os enchem de comida desidratada e balas, fantasiando sobre atirar em qualquer um que tente roubar seu feijão e arroz, porque não pretendem compartilhar. Os malucos de direita com poder sistêmico fazem o mesmo, mas em escala nacional. A Europa Fortaleza e os Estados Unidos de Trump estão fechando as portas para não precisarem compartilhar à medida que as coisas pioram pelo mundo.
Bilhões e bilhões de pessoas vivem em regiões que enfrentam calor extremo e temperaturas externas impossíveis de suportar. É horrivelmente cruel trancar as portas justamente quando cada vez mais gente fica em situação de necessidade. (E, é claro, não foi o Sul Global que nos meteu nessa enrascada.)
Para combater as mudanças climáticas, precisamos combater o fascismo climático. Não há como fugir disso. Há uma minoria poderosa que decidiu que o fim está chegando e que, em vez de reduzir seus piores impactos, vai simplesmente matar pessoas. Precisamos detê-los. Não sei exatamente como, mas posso dizer que meu avô e o irmão da minha avó participaram, cada um à sua maneira, da última grande luta mundial contra o fascismo; as soluções deles envolveram torpedos e bombardeios aéreos, respectivamente.
…
Mas, falando concretamente, acredito que algumas ações que podemos tomar são, sem nenhuma ordem específica:
- Desenvolver a capacidade de exercer nossa autonomia coletiva de forma horizontal — por meio de sindicatos, locais de trabalho coletivos, grupos ativistas, grupos de ação direta, entre outras possibilidades. Apoiar quem está construindo esse tipo de autonomia: comprar de empresas de propriedade dos trabalhadores, não furar piquetes e marcar presença nas ruas durante os protestos.
- Combater a expansão da infraestrutura de combustíveis fósseis por meio de pressão política e ação direta.
- Combater a ascensão do fascismo climático por meio da organização e da defesa comunitárias, recorrendo a meios legislativos quando possível e à insurreição quando necessário.
- Apoiar quem é preso por lutar contra o fascismo e as mudanças climáticas.
- Combater a inércia que nos mantém conformados com a situação atual, quer essa conformidade venha da negação, do otimismo ingênuo ou do pessimismo fatalista.
- Construir comunidades resilientes por meio da preparação individual e comunitária: criar organizações de preparação para emergências que combinem ajuda mútua e troca de conhecimentos com a reunião de recursos, o aprendizado de habilidades, o fortalecimento de vínculos e a construção de infraestrutura.
- Participar do auxílio em situações de desastre, seja trabalhando no local, arrecadando fundos ou reunindo suprimentos para apoiar quem está na linha de frente.
- Preparar sua cidade para acolher refugiados climáticos, desenvolvendo infraestrutura física — como moradias e outros sistemas que permitam maior densidade populacional — e aprendendo a organizar comunidades multiculturais e multilíngues.
- Preparar-se para ser um refugiado climático.
- Construir infraestrutura resiliente. Isolar todas as moradias contra o calor, o frio e a fumaça. Instalar ar-condicionado. Criar centros de resfriamento.
- Viver sua melhor vida aqui e agora, porque o futuro está longe de ser garantido. Dizer aos amigos que você os ama. Cuidar uns dos outros.
- Não desistir do seu futuro. Não começar a fumar.
- Ter coragem. Coragem não é a ausência de medo, mas a presença da bravura.
- Desescalar todo conflito que não seja com o inimigo. O inimigo quer que lutemos uns contra os outros. Nós queremos que lutemos contra o inimigo. Apoiar quem luta de maneiras diferentes da sua.
- Conversar com as pessoas sobre as mudanças climáticas e ajudá-las a lidar com o medo, a desesperança, o fatalismo e a ingenuidade. Ajudá-las a perceber que há coisas que podem fazer.
- Não presumir que vamos vencer. Não presumir que vamos perder. Manter a cabeça no jogo.
- Por último em importância, mas provavelmente ainda útil: desenvolver hábitos de vida simples para antecipar o mundo que esperamos criar. Reduzir, reutilizar, reciclar. Cultivar mais da sua própria comida. Compartilhar mais comida com outras pessoas. Comer menos carne. Criar galinhas no quintal. Usar menos eletricidade. Comprar um carro elétrico plug-in (ironicamente), mas dirigir menos no geral e compartilhar mais as viagens. Voar menos ou não voar. Se as leis do seu estado permitirem, instalar um sistema solar plug-in (não faça isso ilegalmente: se a sua região não estiver preparada para fazer a instalação corretamente, isso põe em risco os trabalhadores do setor elétrico). Provavelmente, não tente adotar de uma só vez todos os possíveis “bons hábitos climáticos”: escolha alguns e veja quais consegue manter. Viver de forma simples provavelmente é melhor de qualquer maneira, mas nunca confunda isso com as mudanças sistêmicas necessárias.