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Geada e mulche

Ontem, depois de roçar a grama, as folhinhas cortadas foram amontoadas pelo terreno. Hoje pela manhã, presenciei pela primeira vez algo curioso que havia lido no livro The Basics of Permaculture Design, de Ross Mars – a relação entre cobertura vegetal morta (mulche) e as geadas.

A caracterização de geada no livro é muito simples:

A geada ocorre quando a terra esfria rapidamente à medida que irradia calor e é mais comum no início da manhã, pouco antes do sol nascer.

Daria para acrescentar que é muito provável que dê geada quando o ar está úmido, sem vento e o céu limpo.

Mas e onde entra o mulche?

Quando o solo está coberto, o calor que a terra está sempre irradiando fica retido. É como um cobertor que não deixa o nosso calor sair de perto de nós. Assim, o ar frio estaciona acima do mulche e, se a temperatura baixar o suficiente, teremos geada ali.

The Basics of Permaculture Design, de Ross Mars

E hoje o gramado amanheceu assim:

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Teste de contração do barro

Estou desenvolvendo um fogão-estufa rocket e vou usar tijolos cozidos maciços pra facilitar a construção. Porém, tem algumas peças que são de tamanho diferente. Então, resolvi fazer essas peças e usar o próprio fogão para queimá-la. Essa queima é um teste e imagino que não vai funcionar, por não atingir as altas temperaturas necessárias e ficar por tempo insuficiente. Mas se funcionar, vai ser um adianto!

Procurei na internet o traço (mistura) ideal para tijolo de barro cozido e não encontrei. Aí pensei: vou fazer como nas bioconstruções – testo o barro do meu terreno e vejo se ela contrai menos de 10% (teor de argila) e passa no teste da queda da bolinha (teor de areia). Como é facilmente perceptível pelo toque, a terra aqui tem muita argila. Então, fiz apenas o teste de contração, como descrito no Manual da Arquitetura Descalça.

Régua para o teste de contração.

Primeiro, cavamos e separamos a camada superficial (horizonte A), que contém muita matéria orgânica e retiramos uma amostra da parte de baixo (horizonte B). Paralelamente, construímos uma régua de 40cm x 4cm x 4cm. Então, preenchemos com o barro úmido bem amassado e deixamos secar à sombra por alguns dias (como é inverno e está bem úmido, coloquei a minha ao sol). Se a amostra contrair menos de 10% (4cm lineares nas bordas), então ela provavelmente possui uma boa proporção de areia e argila para construção (atenção: o resultado final é que dirá se a terra é boa ou não.).

Em 15 dias de secagem, o barro contraiu 3cm. Agora, vou para o teste com os tijolos pra construir o fogão.

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Tradução: “Sob a montanha, as brasas”

Este texto saiu no número 7 da revista francesa Nunatak e fala sobre os anos precedentes à liberação de Chiapas pelo EZLN, no México.


Sob a montanha, as brasas

Um olhar retrospectivo sobre a década que levou à revolta de Chiapas de 1994

Desde sua aparição, o movimento zapatista tem encontrado entusiasmo e solidariedade, particularmente nos círculos militantes ocidentais. Libertação nacional, indigenismo[1] , a construção de um mito em torno da personalidade do Subcomandante Marcos, e o mito comunitário são aspectos sobre os quais não escondemos nossas perguntas e não queremos tirar conclusões precipitadas demais. Além disso, o foco no discurso público do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) mascara as complexas realidades de um movimento de revolta em larga escala na selva do Sudeste mexicano, seus diferentes atores, métodos e propostas políticas que precisam ser compreendidas e debatidas. Jules nos oferece um olhar sobre a década anterior à insurreição de 1994, e o contexto social e político no qual o exército de libertação zapatista aparece.

[1] O indigenismo é um movimento político cuja principal preocupação são os povos indígenas.

Em 1º de janeiro de 1994, no sudeste de um México conhecido por sua estabilidade (relativa), milhares de combatentes indígenas realizaram uma ação que tornaria verde de inveja toda a guerrilha latino-americana: a ocupação de cinco cidades do estado de Chiapas, incluindo o centro turístico de San Cristóbal de Las Casas (com uma população de cerca de 80.000 habitantes).

As questões que assombram a mente das pessoas são principalmente: o que este exército de mendigos quer, e acima de tudo, de onde eles vieram? De qual noite?

Os elementos de resposta dados aqui tentam preencher parcialmente um vazio, deixado tanto pelos Zapatistas e sua história oficial, quanto por seus inimigos. Como às vezes é necessário esclarecer “de onde estamos falando”, posso dizer que passei um pouco menos de uma década no México entre 1990 e 2010, principalmente dentro do território zapatista. Isto implica uma visão fragmentada. Conheço um vale da selva Lacandona como a palma da minha mão, mas não os vales vizinhos, tanto do ponto de vista de sua situação político-militar como dos costumes que ali estão em vigor.

Penso que isto se aplica à maioria dos “especialistas” em Chiapas.

Não se trata de uma questão de visão política – cada um pode decidir por si mesmo – mas do que surpreendeu o mundo na época. Embora seja pretensioso argumentar que isto era previsível, é mais apropriado examinar o processo histórico que conduziu a esta situação durante a década anterior. Para isso, utilizo tanto alguma literatura confiável[1] , como testemunhos e conversas que tive com as pessoas envolvidas durante vários anos de convivência em algum lugar nas montanhas.

[1] Ver bibliografia.

A revolução que não aconteceu

Eis umas poucas palavras sobre o estado de Chiapas: historicamente habitado pelos povos maias, foi invadido pelos conquistadores espanhóis e seus partidários nahua no início do século 17. O território foi primeiramente anexado ao vice-reinado da Guatemala, antes de se juntar ao México por referendo em 1824, tornando-se o trigésimo segundo e último estado da república. Administrada em um sistema de castas de acordo com as origens étnicas, a história da Chiapas colonial é uma longa sequência de revoltas indígenas contra uma classe mestiça que vive em quarteirões fortificados. No início do capitalismo moderno, algumas famílias (Serrano, Corzo, Castellanos, Ruiz, etc.) possuíam quase todas as propriedades do estado e eram conhecidas como a “família Chiapaneca”.

Longe do centro administrativo do país, esses grandes proprietários de grandes fazendas (café, banana, gado, etc.) também forneceram os quadros político e militar. Durante a década da Revolução Mexicana (1911-1924), estes latifundiários fomentaram uma rebelião contra o poder central a fim de conseguir negociar à força um armistício que deixaria intactos seus privilégios e hierarquias. Isso explica porque, no final do século 20, ainda encontramos fincas (grandes fazendas operando em uma economia fechada) em Chiapas com peones acasillados, trabalhadores diaristas ligados por dívidas a uma propriedade que inclui a escola do chefe, a igreja do chefe, a prisão do chefe e às vezes até a moeda do chefe – uma configuração que desapareceu oficialmente do país somente a partir de 1917!

O êxodo rural dos revoltados

Após a tragédia de 1968 [2], muitos ativistas ou militantes decidiram “se enfiar no mato”. Os povos indígenas, que são tudo menos passivos diante da exploração, tornam-se um problema, tanto para os esquerdistas quanto para a Igreja em sua tendência de “teologia da libertação” [3] .

Em 1974, o bispo Samuel Ruiz [4] aproveitou a comemoração da fundação de sua cidade de San Cristóbal para organizar, sob seu patrocínio, o primeiro congresso indígena. Esta enorme assembleia geral de camponeses, que não se conheciam mas perceberam que tinham exigências comuns, teve várias consequências. Por um lado, houve a criação do Quiptic ta Lecubtesel [5], uma união camponesa independente das estruturas oficiais; por outro, a chegada do PP (grupo Político Proletário), militantes maoistas que haviam provado seu valor no norte do país, a fim de organizar o proletariado indígena para “lutar pela tomada do poder e por fim à exploração do homem pelo homem 6”, a pedido do bispo.

Este ativismo coincide com vários eventos: na última década, um grande número destes peones cativos tornou-se independente, criando vilarejos e estabelecendo-se como camponeses. Entretanto, é necessário terra para realizar este projeto, e o único reservatório é a selva que cobre um quarto do estado: a floresta Lacandona. Milhares de camponeses sem direitos ou títulos limpam a terra, estabelecem aldeias na selva e se aclimatam a um ambiente bastante hostil.

Isto é acompanhado de fricções mais ou menos violentas com os grandes criadores de gado que mordiscam na mesma selva para pasto.

[2] Revolta estudantil no período que antecede os Jogos Olímpicos, que termina com uma repressão feroz, incluindo o massacre em Tlatelolco, Cidade do México, em 2 de outubro.

[3] [Nota do editor] A teologia da libertação é uma corrente do pensamento teológico cristão que se distancia da ideologia marxista enquanto utiliza suas estruturas analíticas. Muitos dos quadros indígenas do EZLN estavam imbuídos destes princípios, que apresentam a luta política militante como o caminho para a realização do Reino de Deus na Terra.

[4] [Nota do editor] Samuel Ruiz é um dos defensores da teologia da libertação. Ele é considerado como uma das chaves para a criação do EZLN, uma vez que foi seu mediador com o regime. Como veremos, o artigo de Jules nos permite qualificar o papel que desempenhou, pois ele próprio provavelmente tentou limitar o controle de seus “paroquianos” pelo EZLN. Além disso, Samuel Ruiz revela repetidamente a natureza reacionária de sua “igreja progressista” ao se opor ao aborto e ao casamento gay, que ele descreve como “não-natural”.

[5] Nossa força para a libertação, em tzeltal.

[6] Resolução final do Congresso de 1974.

[7] Erradamente, ao que parece. De acordo com o estudo abrangente de Jan de Voos, os lacandeses originais foram exterminados ou deportados para as plantações na Guatemala no século XVIII. Diz-se que os chamados lacandeses são um grupo de “refugiados” primitivos na selva que se adaptaram ao estilo de vida dos lacandeses originais.

Em 1972, o céu caiu sobre as cabeças desses ocupadores de terra Tzeltals, Tojolabals, Ch’ols ou Tzotzils, na forma de um decreto presidencial concedendo 614.000 hectares da floresta a apenas 70 chefes de família agrupados em três vilarejos. Estes indígenas lacandeses afirmam ser os habitantes originais deste território [7], e o estado mexicano, portanto, considera justo devolver-lhes o usufruto desta terra e de seus recursos. Isto não é humanista nem desinteressado, pois parece que a floresta está cheia de petróleo, e será muito mais fácil lidar com 70 famílias que foram copiosamente evangelizadas – duas das três aldeias são constituídas por Testemunhas de Jeová – do que com dez mil posseiros, seguidores da teologia da libertação e em vias de serem expressamente politizados. Desesperados, os camponeses se voltaram para ações cada vez mais radicais: manifestações, bloqueios, marchas para a capital do estado.

A união Quiptic – após uma crise na qual os conselheiros maoistas foram expulsos por seus seguidores, que os acusavam de uma atitude paternalista – foi fortalecida ao se tornar a Unión de Uniones em 1983. Estes sindicalistas camponeses enfrentavam regularmente a repressão, seja através da prisão ou do assassinato pelas forças da lei e da ordem ou pelos pistoleiros dos proprietários, os sinistros “guardas brancos”. Finalmente, após uma nova crise interna, a Unión de Uniones tornou-se a ARIC (Associação Rural de Interesse Coletivo) em 1988. Esta poderosa organização se dividiu, sob os golpes da repressão e da corrupção, na ARIC oficial, reconhecida pelas autoridades e liderada por alguns ex-esquerdistas que haviam sido anteriormente expulsos, e na ARIC independente, com métodos mais agressivos.

A guerra vizinha

Desde 1960, a vizinha Guatemala tem sido palco de uma guerra civil impiedosa que massacrou 10% de sua população, também composta de indígenas maias, e enviou dezenas de milhares de refugiados para o México. Este conflito durou até 1996. Oficialmente neutro e recebendo refugiados guatemaltecos em condições mais ou menos decentes, o Estado mexicano está acima de tudo assustado que o grupo guerrilheiro vizinho, a URNG (União Revolucionária Nacional Guatemalteca), forme alianças e espalhe sua influência através da fronteira.

Deve-se notar que muitos refugiados de guerra da Guatemala foram acolhidos pelas comunidades camponesas da floresta, e se o EZLN – ansioso para permanecer dentro de um quadro mexicano – mais tarde negou ter tido qualquer relação com a URNG, alegou ter executado, em seu território, kaibiles, particularmente soldados de elite guatemaltecos sanguinários que cruzaram a fronteira para massacrar refugiados ou guerrilheiros. Como duas organizações clandestinas que viviam juntas no mesmo território eram obrigadas a frequentar uma à outra, alguns Zapatistas receberam treinamento militar (como o camarada F., em explosivos) de guerrilheiros vizinhos, que em troca desfrutavam de passagem protegida.

Guerrilhas abortadas

Uma casta de proprietários racistas que cometem qualquer abuso com impunidade confiando em milícias privadas; uma classe de camponeses enfurecidos tornada ainda mais precária por um decreto presidencial; um exército armado até os dentes guardando uma fronteira em guerra; uma Igreja procurando treinar quadros indígenas para realizar um projeto de transformação social; um índice de pobreza e abandono entre os mais altos do país. Tal é o quadro no qual um novo ator é convidado: um núcleo de jovens das metrópoles que querem montar nada menos do que uma guerrilha!

O fenômeno das guerrilhas é uma constante no México, onde as lutas sociais sempre foram essencialmente marcadas pela violência. Como a única resposta a qualquer exigência camponesa ou sindical tem sido a repressão, a maioria dos movimentos armados não são resultado de qualquer tipo de vanguarda, mas de um processo de autodefesa de classe. Isto foi reforçado pelos assassinatos urbanos de 1968 e 1971, que viram um grande número de grupos armados florescerem em solo fértil, seja rural ou urbano.

Foi neste contexto que a FLN (Força Nacional de Libertação) foi criada em Monterrey em 1969. Esta organização era discreta, evitando, se possível, roubos e sequestros para se concentrar na acumulação de forças a longo prazo. Tendo tido contatos com os camponeses chiapenhos, compraram um rancho em Chiapas em 1972, que deveria servir de base para um movimento de guerrilha rural.

A fazenda foi atacada pelo exército federal no ano seguinte, e a maioria dos guerrilheiros – incluindo o líder, César Yáñez – foram mortos. Após este fracasso, seriam necessários dez anos para que estes monges-soldados da revolução retornassem e estabelecessem uma célula armada na região, composta por indígenas e mestiços. Estes combatentes irão agora para as profundezas da floresta Lacandona em ebulição para tentar se aproximar das comunidades camponesas em luta.

O resto pode ser encontrado na maioria dos livros.

Após anos de dificuldades, e depois de ter colocado sua ideologia marxista-leninista[8] em segundo plano diante da hostilidade dos camponeses que já haviam expulsado os maoistas, o grupo guerrilheiro (cujo comando havia passado de Germán para Marcos) cresceu de uma dúzia de membros em 1986 para várias centenas, e depois milhares, de combatentes ou oficiais de ligação no início dos anos 1990. Seguindo um processo de absorção recíproca com as comunidades da aldeia, este grupo, após alguns ajustes e uma tomada de poder pela guerrilha de Chiapas sobre o resto dos quadros do FLN, tornou-se o EZLN. Este “exército” foi originalmente concebido como uma milícia para proteger a população contra os excessos da polícia, dos militares ou dos guardas brancos. As armas foram compradas no mercado negro (de ex-guerrilheiros de países vizinhos, do exterior ou de membros corruptos da força policial) por contribuições coletivas dos aldeões.

[8] Enquanto isso, o bloco oriental entrou em colapso e a guerrilha centro-americana perdeu suas batalhas.

O consumo de álcool e drogas foi proibido, tanto por razões econômicas como por razões culturais (a cachaça sempre foi uma arma de destruição nas mãos dos colonos contra os ameríndios) ou a pedido de mulheres de aldeias com pressa em pôr fim à violência doméstica. As mulheres foram inscritas em pé de igualdade com seus camaradas homens, tanto por desejo de emancipação como por falta de outras perspectivas sociais, representando gradualmente um terço do efetivo permanente. Herdeiro da cultura de clandestinidade do agora extinto FLN, o EZLN não pratica a retenção, extorsão monetária ou aparições públicas. É composto de três tipos de membros: insurgentes (combatentes permanentes), milicianos (camponeses armados com treinamento militar) e bases de apoio (civis). No entanto, esta organização crescente não escapou por muito tempo do radar da Igreja, dos sindicalistas ou do exército federal.

Apesar de suas intenções emancipatórias, o bispado de San Cristóbal permaneceu muito cioso de seu controle sobre seus paroquianos: uma estreita rede de catequistas religiosos e politicamente educados (laicos treinados para administrar os sacramentos e celebrar a missa) entrelaçou as comunidades camponesas da floresta e do altiplano. Já em 1980, para combater a influência dos conselheiros mestiços de esquerda no movimento camponês, a Igreja encorajou a criação de um grupo semi-clandestino, Slohp (raiz em Tzeltal), para reorientar os camponeses para as demandas indígenas. Obviamente, a chegada de um grupo guerrilheiro é experimentada como a entrada de um elefante no meio da loja de porcelana. Segundo fontes do governo, algumas pessoas próximas ao bispo Samuel Ruiz promoveram e ajudaram a criação da EZLN. Alguns fatos nos levam a crer que durante estas décadas em que a guerrilha da América Central (El Salvador, Guatemala, etc.) foi derrotada – ou pelo menos paralisada – a Igreja tentou acima de tudo limitar os danos por todos os meios. Por exemplo, tentou desesperadamente criar um grupo armado clandestino para combater os Zapatistas, que rapidamente falhou: como qualquer organização político-militar[9], o EZLN não suportou a competição ou o divisionismo, e os poucos camponeses que foram tentados pelo experimento voltaram rapidamente para o centro Zapatista. Quando os catequistas, os olhos e os ouvidos do bispado, se juntaram aos guerrilheiros, a amargura das autoridades religiosas pode ser resumida nas palavras de Samuel Ruiz: “Estes guerrilheiros estão montando um cavalo que já foi selado.

[9] Ao contrário do que muitos ativistas de boa ou má fé queriam ver, a EZLN é uma organização militar e, portanto, hierárquica e autoritária, mesmo que tenha sido capaz de evoluir em uma direção mais “política”.

No que diz respeito à religião, vamos citar o exemplo do camarada E., catequista e oficial clandestino das milícias. Em 1992, ele foi convocado à cidade de Comitán para comparecer perante o que deve ser chamado de tribunal eclesiástico, a fim de explicar os rumores sobre sua participação na guerrilha. Pressionado com perguntas por uma audiência de franciscanos e dominicanos, salientando que a guerra só tinha trazido infortúnio aos países vizinhos e que o socialismo estava em colapso no Oriente, E. se defendeu como um bom diabo e negou qualquer envolvimento nessa tal de guerrilha, que ele nem tinha certeza de que não era apenas um boato. E se há uma censura que não pode ser feita contra o EZLN é sua intransigência em matéria de religião: é um movimento estritamente secular, que cada pessoa lide com sua fé! Como resume o camarada B.: “Temos um bom número de católicos, protestantes, ateus e até mesmo pessoas que têm crenças difíceis de imaginar!” Outra resposta de um insurgente em 1994 à pergunta de um jornalista: “Primeiro nos libertamos e depois veremos sobre teologia”. Esta recusa em misturar religião com assuntos políticos decorre tanto de uma profunda convicção quanto de um pragmatismo que visa evitar a todo custo conflitos entre católicos e protestantes, que foram muito violentos em certas regiões indígenas e que levaram a expulsões maciças.

Do lado do sindicalismo camponês, o EZLN criou seu próprio sindicato, uma falsa frente que lhe permitiu abrir instalações, facilitar os vínculos entre diferentes regiões e treinar seus militantes em práticas radicais: bloqueios, manifestações violentas e a captura de policiais antes de qualquer negociação. Em 1989, foi criada a ANCIEZ (Aliança Nacional Camponesa e Indígena Emiliano Zapata) e foi um sucesso imediato em termos de adesão. Ela treinou os líderes zapatistas para lutas fora de seus próprios territórios e lhes deu uma razão social para intervir em todo o México.

O feito mais notável da ANCIEZ foi a manifestação em 12 de outubro de 1992, o dia oficial da “descoberta” da América por Cristóvão Colombo. Renomeado “Dia dos 500 Anos de Resistência Indígena”, viu-se um contingente de 10.000 Tzotzils, Tzeltals, Tojolabals e Ch’ols, marchando em ritmo quase militar, alguns armados com arcos e flechas, destruindo a estátua do conquistador local Diego de Mazariegos, a fim de andar com sua cabeça pelas ruas desta cidade, na qual um indígena ainda deve dar passagem a um mestiço. Esta primeira ocupação da antiga Jovel (nome indígena da cidade) foi um claro aviso do que estava por vir. Eu tinha notado, naquele ano socialmente turbulento de 1992, que os cartazes de propaganda da ANCIEZ apresentavam camponeses armados, e não precisamente com arcos e flechas!

O exército em alerta

Os soldados federais temem acima de tudo o estabelecimento de um exército guerrilheiro nesta saída para a América Central. Eles estão, portanto, particularmente atentos a qualquer movimento suspeito e subversivo na área. O exército terá naturalmente que lidar com este novo protagonista, o EZLN.

Assim, alguns meses antes da insurreição, em 22 de maio de 1993, uma coluna de cem soldados se dirigiu diretamente para Las Calabazas, um campo de treinamento dos combatentes do EZLN. Os rebeldes abriram fogo sobre os soldados durante a tarde, matando pelo menos dois. Entre os dias 23 e 31, mais de 1.500 soldados federais, apoiados por vários helicópteros, tentaram cercar os rebeldes, perdendo outros doze homens, combatendo um fantasma que lhes escapava por entre os dedos. Em 1 de junho, depois de ter tomado posse de um campo Zapatista que estava vazio, o exército se retirou repentinamente. Esta foi uma decisão eminentemente política. O presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari estava em vias de concluir seu grande trabalho: a finalização do NAFTA, o acordo de livre comércio entre o México, os Estados Unidos e o Canadá, que deveria entrar em vigor em… 1 de janeiro de 1994. Se o exército federal tivesse investido muitos recursos, provavelmente poderia ter esmagado os rebeldes, mas isso significaria reconhecer a presença de um grupo guerrilheiro em seu próprio solo, o que teria dificultado consideravelmente as negociações com seu vizinho do norte. Já as revisões exigidas por este mesmo vizinho à constituição mexicana, como a supressão do direito inalienável às terras comuns, provocaram uma onda de descontentamento em todo o país. Tratava-se, portanto, de manter a presença dos insurgentes o mais secreta possível, enquanto se tomavam algumas medidas táticas para contê-los. Um comunicado referindo-se a “um confronto contra um grupo de indivíduos que realizam supostas atividades ilegais” (prisioneiros fugitivos? traficantes de drogas?) seria suficiente.

Qual foi o resultado desta primeira batalha? Mais tarde, o EZLN reconheceria apenas uma perda em comparação com quatorze dos federais. Os guerrilheiros foram expulsos do campo enquanto limitavam os danos. Mas acima de tudo, os soldados descobriram no acampamento uma reprodução em escala da praça principal e do quartel de Ocosingo, uma cidade na borda da floresta. Não é preciso ser Sherlock Holmes para adivinhar o que está sendo tramado.

Embora mantendo uma certa discrição, os federales percorreram os vales da floresta e revistaram as aldeias com diferentes graus de rigor, dependendo do batalhão e do oficial em questão. Vários camponeses foram sequestrados e, de acordo com os próprios Zapatistas, os soldados passaram muito perto dos arsenais guerrilheiros. Felizmente, a maioria das tropas federais, sabendo que estavam em território hostil, não se esforçaram muito em seu trabalho. Além de algumas unidades de elite, como paraquedistas ou comandantes, o exército mexicano é sobretudo composto por camponeses arruinados que encontram ali uma oportunidade de comer duas refeições por dia, muitas vezes mal tratados por seus oficiais. Portanto, é compreensível que estes soldados não sejam muito zelosos.

Em qualquer caso, este tipo de choque só pode empurrar o EZLN para a ação antes que ele seja descoberto e destruído por um inimigo agora em guarda. Isto coloca vários problemas. Como vimos, a FLN é basicamente uma organização nacional, mas este grupo guerrilheiro só se tornou uma organização de massa em Chiapas. Existem células em todo o país e algumas delas serão ativadas em 1º de janeiro de 1994, realizando várias sabotagens, como em Toluca, Cidade do México, Chihuahua, Veracruz.

Vale ressaltar que uma das primeiras frases do manifesto, lidas nas estações de rádio engajadas ou afixadas em muros, proclama “Somos o produto de quinhentos anos de luta”. Esta declaração é assinada pela frente sudeste da EZLN. Este detalhe, que significava que este grupo guerrilheiro deveria estar presente em todo o país, foi esquecido um pouco rápido demais, pois a assinatura da EZLN apareceu apenas após alguns dias.

A chamada Frente Sudeste é a única que pode colocar em campo milhares de combatentes que estão misturados na população. Parece que os quadros de Chiapas, liderados por Marcos, tomaram o poder sobre outros líderes históricos do movimento guerrilheiro, particularmente em 1992, na reunião do Prado, onde eles colocaram mais de 5.000 milicianos. Além das manifestações trovejantes da ANCIEZ, 1992 foi também o ano da consulta sobre o lançamento da guerra dentro das comunidades indígenas que eram membros do EZLN. Foram realizadas assembleias em todas as aldeias e, no âmbito privado, ninguém escondeu o fato de que a escolha a favor da ofensiva às vezes resultou – dependendo da maioria – na expulsão das minorias, fossem elas belicistas ou cautelosas, provocando assim um deslocamento interno da população para a floresta. Os cultivos são dispersos a fim de serem menos expostas à devastação dos federais (napalm, desfolhantes) e para poder continuar alimentando os aldeões. Em Chiapas, a organização é agora composta por uma liderança militar, formada por dois “subcomandantes” (Marcos e Pedro), majores que lideram os rebeldes, e uma liderança civil, o CCRI (Comitê Indígena Revolucionário Clandestino) formado por comandantes eleitos em cada zona de aldeias.

Sentindo que o desastre estava se aproximando, o Bispo Ruiz tentou uma manobra final. Um ex-sacerdote jesuíta de Chiapas que foi transferido para o outro lado do país, para Chihuahua, dá uma entrevista à bem informada revista Proceso, na qual ele alude a um movimento guerrilheiro que se desenvolve na selva, dando alguns detalhes bastante embaraçosos. Claramente, este padre foi autorizado a falar de San Cristóbal em uma tentativa desesperada de revelar a verdade e dificultar o EZLN. Novamente pelas mesmas razões de dissimulação, este furo é simplesmente ignorado. O único comentário feito pelo governador (e futuro ministro do Interior) Patrocinio González foi: “Não há guerrilheiros em Chiapas.

Os Doze Dias Que Tremeram o México

Parafraseando Shakespeare, pode-se dizer que no final de 1993, todos os atores estavam no seu devido lugar, e a peça só tinha que ser representada. Alguns detalhes sobre seu primeiro ato: nos últimos dias de dezembro de 1993, a mobilização foi intensa, as comunicações foram progressivamente cortadas com a floresta (transporte público, trabalhadores externos proibidos de passar), veículos foram requisitados pelos rebeldes que confiscaram grandes estoques de dinamite dos garimpeiros de petróleo presentes na área.

É claro que esta agitação não escapa aos militares, e eles se fortalecem em suas posições em antecipação ao confronto que agora sabem que é iminente. Desdenhoso da polícia civil, o exército não os adverte. Como resultado, a polícia se viu na linha de frente nas cidades atacadas pelo EZLN, sofrendo graves perdas. Mas eles causaram uma tragédia maior: o subcomandante Pedro foi morto durante o ataque ao posto policial de Las Margaritas, deixando suas tropas em estado de choque. Estes últimos contentavam-se em cercar a cidade vizinha de Comitán sem ocupá-la. A direção das operações agora recai somente sobre Marcos, que neste momento se encontra nos planaltos, ocupando San Cristóbal com as tropas da Major Ana-Maria, e assim se torna o porta-voz e ‘rosto’ (encapuçado) da rebelião para o mundo inteiro.

A estratégia dos federales deu resultados: apesar de dias de luta feroz, o EZLN não conseguiu tomar o campo de Rancho Nuevo, sede da 31ª região, situada a cerca de quinze quilômetros de San Cristóbal, e foi desalojado de Ocosingo após uma sangrenta batalha. Mesmo que os rebeldes tenham conseguido se retirar para a selva, alguns dos que permaneceram cercados no mercado ou feridos no hospital foram simplesmente executados pelos paraquedistas lançados na cidade.

Após doze dias de guerra, um frágil cessar-fogo é gradualmente estabelecido, mesmo que as balas continuem a voar em várias partes de Chiapas. No início de fevereiro, os prisioneiros zapatistas foram trocados por Absalón Castellanos, um general e ex-governador de Chiapas e um grande latifundiário. Em seguida, uma primeira rodada de negociações foi realizada.

De agora em diante, esta história se desdobrará mais ou menos publicamente.

Jules
Ilustrações de Rita, Riatri p. 52-53 e David p. 58

Bibliografia do autor

Dado o número de livros publicados no primeiro ano do conflito, pode-se dizer que os Zapatistas ajudaram a salvar a publicação mexicana do marasmo. Muitos desses livros estão cheios de banalidades, simplesmente reiterando a versão oficial do EZLN ou, ao contrário, são obras de desinformação governamental. Considero livros “confiáveis” que têm verdadeira profundidade histórica, que são escritos por protagonistas que conhecem o terreno há muito tempo e, sobretudo, cujos fatos são consistentes com os testemunhos dos camaradas zapatistas, mesmo que muitas vezes eles os formulem de forma diferente. Portanto, um livro que seja completamente desfavorável aos rebeldes pode ser valioso.

Jan de Vos, Una tierra para sembrar sueños. Historia reciente de la Selva Lacandona, 1950-2000, 2ª edição, FCE, 2002.

Carlos Montemayor, Chiapas: la rebelión indígena de México, Joaquín Mortiz, 1997.

Carlos Tello Diaz [na verdade escrito pela inteligência militar], La Rebelión de las Cañadas, Cal y arena, 1995.

Guiomar Rovira, ¡Zapata Vive! La rebelión indígena de Chiapas contada per sus protagonistas, Virus, 1995.

Como complemento a este artigo, os editores da Nunatak recomendam dois textos escritos em 1996:

A brochura Além das balaclavas do sudeste mexicano reage ao movimento de solidariedade que a insurreição de 1994 gerou. Ela matiza, entre outras coisas, a relação entre a EZLN e a Igreja Católica. Ele está disponível no site https://quatre.zone

A obra Tendre venin, de quelques rencontres dans les montagnes indiennes du Chiapas et du Guerrero (Veneno tenro, de alguns encontros nas montanhas indígenas de Chiapas e Guerrero) publicado por Editions du Pheromone. É um relato de encontros com combatentes zapatistas, membros de comunidades indígenas, camponeses que ocupam grandes latifúndios agrícolas e muitos outros personagens. Certos aspectos sociais ou históricos são desenvolvidos, sem se esconder atrás de um disfarce etnológico, jornalístico ou militante.

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Compostagem

Energia, cavalos e uma nova visão ecologista das máquinas

Desde que estudei termodinâmica, a questão da energia segue comigo. Já não lembro mais como fazer as contas, entalpia, expansão adiabática, número de Nusselt, nada, mas o olhar sobre como os processos de transformação de energia acontecem está mais aguçado que nunca. Ainda mais quando passei a estudar e mexer com agrofloresta, microbiologia do solo e compostagem.

Não vou me alongar muito nessa introdução, pois o tema do texto são os cavalos, mas gastarei esse parágrafo com um exemplo real e absurdo sobre o que estou chamando de um olhar crítico neste assunto. Durante sua operação, minha composteira de 1 m3 gera mais CO2 do que a usina termonuclear de Angra dos Reis. Na linguagem do capitalismo verde, que nos últimos anos demonizou o gás carbônico, Angra produz energia limpa, enquanto minha composteira, ao esquentar água para o chuveiro, suja o meio ambiente. É uma baita pegada de carbono! Quem sabe, pra compensar, eu poderia entrar no mercado de créditos de carbono – só que comprando, já que estou poluindo! E assim vai a coisa…

E os cavalos?

Durante muito tempo, tive dificuldades ao tentar dar a proporção de quanto de energia é preciso para um certo processo acontecer. Por exemplo, como fazer alguém entender a quantidade de energia que se gasta num banho quente de 15 minutos? Ou pra fazer um painel solar? Ou então para viajar de avião de Florianópolis até Brasília?

Como trazer para a escala do humano essa coisa tão abstrata que é a energia?

Segundo a wikipedia, por exemplo, energia é “uma das grandezas físicas necessárias à correta descrição do inter-relacionamento – sempre mútuo – entre dois entes ou sistemas físicos.

Não adianta muito, né? Precisamos conseguir olhar, tocar, cheirar!

E foi escrevendo uma postagem sobre como fazer carvão que surgiu o exemplo do cavalo. Dessa vez, farei algumas contas para ampliar nossa noção.

Tudo que come tem que cagar

Então, vamos lá. Um cavalo pesa em média uns 600kg, dependendo da raça. Nosso cavalo médio, então, só para se manter vivo, come em torno de 10kg de feno por dia. Se ele trabalhar umas 4 horas por dia, sua ração vai para 15kg ou mais.

Nada se perde, tudo se transforma. Parte desse alimento vira trabalho (puxar uma carga), parte é usado para manter o animal vivo. E ainda tem uma porção que não é usada diretamente pelo cavalo e vira esterco ou se perde como calor. Um cavalo de transporte, como os milhares que haviam em Londres e Nova Iorque (e no Rio de Janeiro também, obviamente), defeca mais ou menos uns 7kg de esterco, mais um litro de urina por dia.

Certo. Agora vamos pegar um carro pequeno, tipo gol bola ou ford K. Hoje em dia, um carro 1.0 tem uma potência de mais ou menos 100 cv (pra facilitar a conta). Um Opalão 4.1 tem 171 cv, enquanto um Camaro 6.2, 461 cv. O “hp” significa “horse power” ou, em português, “cv” para “cavalo-vapor”. Essa é uma medida comumente usada para quantificar a potência de uma máquina. Ou seja, quanto de energia ela gasta para realizar um trabalho. Ou, como James Watt definiu em 1783, um cavalo de tração médio levantaria um peso de 75kg a uma altura de 1 metro em 1 segundo. Um cv dá mais ou menos 740W.

Voltando ao nosso carrinho “popular”: dá pra ver a quantidade de merda que seria gerada pelos 100 cavalos imaginários que você teria na garagem?

“Em 50 anos, todas as ruas de Londres estarão soterradas por uma camada de 2,75 metros de esterco.” 1894.

Se fossem 100 cavalos, você teria que conseguir 1,5 tonelada de comida, além de se livrar de 700kg de esterco e 100 litros de xixi, to-dos-os-di-as (podendo usá-los por umas 4 horas cada).

Deu para ter uma noção, em termos de energia, do que significa um carro andando por aí? Hoje, o Brasil tem 45 milhões de carros nas ruas… Pra onde iria toda essa merda? (E não estou dizendo que sou contra carros, viu!)

É claro que esse é um exemplo fantasioso. Mesmo que eu tenha tentado fazer parecer, ele não tem nada de científico. Afinal, carros e cavalos são “máquinas” diferentes.

Nova forma ecológica de medir potência

Proponho, então, uma nova unidade de medida de potência: merda-cavalo. Um cavalo-vapor, que são 740W (4 horas de cavalo de carga por dia), rende 7,4kg de merda (aumentei 400g pra facilitar a conta). Logo, 1 merda-cavalo (1kg) equivale a 100 watts. Ou, em termos de consumo, 1 mc = 400Wh.

Essa é uma “medida” de potência que olha para o resíduo do uso dessa potência.

Hmm… Péra. Vamos voltar um pouco na conversa: na Termodinâmica, uma máquina térmica é definida como um dispositivo que converte energia em trabalho. Se eu fosse um ecologista, e não um engenheiro, eu definiria diferente: máquina térmica é um dispositivo que usa a energia de um reservatório quente (entrada) para realizar trabalho (saída útil) sempre gerando um resíduo (saída inútil). O trabalho usado então é a diferença entre a energia que entra e a que sai.

Esquema clássico de uma máquina térmica. Th: temperatura do reservatório quente; Qh: energia de entrada; W: trabalho extraído; Qc: energia que sobrou; Tc: temperatura do reservatório frio.

Como se pode constatar pelas ruas, um engenheiro está sempre falando da energia que se gasta para fazer algo (quanta gasolina precisa, quanto de eletricidade consome, etc.) e do que se ganha (água quente no chuveiro, luz na casa, etc.). Agora, um ecologista coçaria a cabeça e se perguntaria: ué, se toda conversão de energia tem um resíduo, pois não existe eficiência igual a 100%, por que essa informação não está nos projetos/produtos?

Mas agora você pode fazer essa conta em casa!

A unidade merda-cavalo vem para nos mostrar que as nossas escolhas e usos têm consequências.

Um banho de 15 minutos (1/4 hora) num chuveiro de 6000W dá um consumo de 1500Wh. Como 1 merda-cavalo é gerado em 4 horas de trabalho, nosso banho resultaria em 3,75 kg de merda. Basta dividir o consumo em Wh por 400 (4h de 100W) para obter a quantidade de merda-cavalo produzida por um equipamento.

Vejamos alguns exemplos práticos na tabela abaixo. Imagine você usando seus eletrodomésticos e eles largando pela casa um resíduo visível e cheirável, ou seja, merda de cavalo.

EquipamentoConsumo
mensal kWh
kg merda-cavalo
mensal
Geladeira, 120W86,4216
Iluminação, 50W6,015
Liquidificador, 400W0,41
Máquina de lavar, 1000W15,037,5
Ventilador, 100W2,46
Televisão, 100W4,010
Chuveiro, 5000W150,0375
Total246,2615,5

Pela primeira vez, um urbanoide contemporâneo teve a chance de conhecer a dimensão da sua pegada de merda no mundo. Fora das cidades, muita gente sabe o trabalho que dá cortar lenha, ter água em casa, cultivar remédios. Nas cidades, a maioria das pessoas conhece o trabalho que dá ganhar dinheiro para depois obter o conforto que desejam.

Pensando no esquema da máquina térmica, geralmente conhecemos o trabalho feito. Ultimamente, estão nos ensinando a conhecer a energia necessária para realizar o trabalho. A partir de agora, podemos também ter uma ideia da sobra que sempre existe após um trabalho ter concluído (e não estou falando de lixo ou desperdício, nem de trabalho mal-feito).

No futuro, o projeto de uma casa não levará em conta apenas o que se espera ser consumido de eletricidade para depois poder calcular a energia que será entregue. Também constará o espaço destinado às baias de compostagem, onde toda essa merda que produzimos virará adubo para nossa comida.

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Compostagem

Compostagem em gráficos

Dos materiais que me deparei, considero que os gráficos abaixo resumem muito bem as vantagens da compostagem termofílica e mostram como ela se difere de outros processos de decomposição de matéria orgânica como os minhocário, a serrapilheira no chão da floresta ou o apodrecimento nos mangues.

Os dois livros de referência estão em inglês. Traduzi apenas o trecho que explicava as imagens.

Patógenos

Há dois fatores primários que levam à morte de patógenos na cocômpostagem (compostagem de fezes humanas). O primeiro é a temperatura. Uma pilha de compostagem que é devidamente manejada destruirá os patógenos com o calor e a atividade biológica que ela gera.
O segundo fator é o tempo. Quanto mais baixa a temperatura do composto, maior o tempo de retenção posterior necessário para a destruição dos patógenos. Dado o tempo suficiente, a ampla biodiversidade de microrganismos no composto destruirá os patógenos pelo antagonismo, competição, consumo e inibição por antibióticos fornecidos pelos microrganismos benéficos. Feachem et al. afirmam que três meses de tempo de retenção matará todos os patógenos em um banheiro seco, exceto ovos de vermes, embora a Tabela 14 indique que pode ocorrer alguma sobrevivência adicional de patógenos.
Uma pilha de compostagem termofílica destruirá os patógenos, incluindo ovos de vermes, rapidamente, possivelmente em questão de minutos. Temperaturas mais baixas requerem períodos mais longos, possivelmente horas, dias, semanas ou meses, para eliminar efetivamente os patógenos. Não é necessário lutar por temperaturas extremamente altas em uma pilha de compostagem para se sentir confiante sobre a destruição dos patógenos. Pode ser mais realista manter temperaturas mais baixas em uma pilha de compostagem por períodos mais longos, como 50°C por vinte e quatro horas, ou 46°C por uma semana. De acordo com uma fonte, “Todos os microrganismos fecais [patogênicos], incluindo vírus entéricos e ovos de lombrigas, morrerão se a temperatura exceder 46°C por uma semana”. (ref.51) Outros pesquisadores tiraram conclusões semelhantes, demonstrando a destruição patogênica a 50°C, resultando em um composto “completamente aceitável do ponto de vista higiênico geral”. (ref.52)

Humanure Handbook, de Joseph Jenkins (2005)

Sucessão microbiológica
e degradação dos materiais

Muitos sistemas de compostagem buscam proporcionar as condições ideais para a compostagem termófila porque suas altas temperaturas promovem uma rápida decomposição e matam sementes de ervas daninhas e organismos causadores de doenças. Estas altas temperaturas são um subproduto da intensa atividade microbiana que ocorre na compostagem termófila. A compostagem termofílica pode ser dividida em três fases, com base na temperatura da pilha: (1) uma fase mesofílica, ou de temperatura moderada (até 40°C), que normalmente dura alguns dias; (2) uma fase termofílica, ou de alta temperatura (acima de 40°C), que pode durar de alguns dias a vários meses, dependendo do tamanho do sistema e da composição dos ingredientes; e (3) uma fase de cura ou maturação mesofílica de vários meses. Medições periódicas de temperatura podem ser usadas para mapear o progresso da compostagem termofílica, produzindo um “perfil de temperatura” mostrando estas três fases (ver figura abaixo).

Diferentes comunidades de microrganismos predominam durante as várias fases de temperatura. A decomposição inicial é realizada por microrganismos mesófilos, aqueles que prosperam a temperaturas moderadas. Estes micróbios decompõem rapidamente os compostos solúveis, facilmente degradáveis, e o calor que produzem faz com que a temperatura do composto suba rapidamente. Quando as temperaturas excedem 40°C, os microrganismos mesófilos tornam-se menos competitivos e são substituídos por microrganismos termofílicos, ou microrganismos que gostam do calor. Durante a fase termofílica, as altas temperaturas aceleram a decomposição de proteínas, gorduras e carboidratos complexos como celulose e hemicelulose, as principais moléculas estruturais das plantas. À medida que o fornecimento desses compostos se esgota, a temperatura do composto diminui gradualmente e os microrganismos mesófilos retomam o controle mudando o processo para a fase final de “cura”, ou maturação da matéria orgânica restante. Embora a temperatura do composto seja próxima à temperatura ambiente durante a fase de cura, continuam a ocorrer reações químicas que tornam a matéria orgânica remanescente mais estável e adequada para o uso da planta.

Composting in the Classroom, Trautmann e Krasny (1997)
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Compostagem

Poda triturada: teste de retenção de água

Pensando na questão da falta de água num terreno, podemos encarar a questão pelo lado da entrada (como a água chega: chuva, córrego, etc.) e também pelo lado da saída (como ela vai embora: evaporação, infiltração, etc.). Uma das formas de evitar que a água saia por evaporação, por exemplo, é cobrir o solo. Outra seria mantê-lo plantado, ou seja, sombreado.

Ciclo da água genérico

Como aqui no Caminhos da Floresta nós recebemos poda triturada da companhia de eletricidade, este é um recurso, de certa forma, abundante. Como ele se comporta em relação à água?

Resolvi, então, fazer um teste para ver quanto de água esse material, em duas etapas do seu processo de decomposição, reteria.

Experimento

A ideia foi analisar a poda recém-triturada seca (A1) e a poda triturada que ficou algum tempo no terreiro das galinhas, parcialmente decomposta (A2). Pesei o volume da amostra seca e depois selecionei uma quantia para ir pro balde, onde ficaria submersa durante 24h. O resultado que eu buscava era saber quanto de água uma massa de poda triturada reteria em relação ao seu peso seco.

Chamei o processo de Retenção, pois a água fica retida no material de duas formas: uma, entrando nos poros (como uma esponja – absorção); outra, ficando na superfície, entre os pedacinhos, por tensão superficial (adsorção).

Diferente do solo, que possui partículas bem menores como argila, silte e areia, a poda triturada tem muito espaço vazio entre cada pedacinho.

No solo, primeiro a água molha as paredes das partículas (água higroscópica), depois preenche o espaço entre elas (capilar) e então, quando chegar à saturação, escorre por gravidade (gravitacional). Depois que chove, o processo é inverso: o “excesso” de água dos poros grandes percola por gravidade mais para dentro da terra, quem sabe até chegar no lençol freático. A água que sobra, grudada nas paredes do material sólido, vai sendo puxada para dentro das plantas ou para a superfície por diferença da pressão. Aí chega um ponto em que a pressão das plantas não consegue mais retirar a água do solo e, caso não venha mais água, entramos no ponto de murcha.

A força que retém a água na parede dos sólidos é mais forte que a força da gravidade. Assim, mesmo se a poda triturada ficar submersa por um bom tempo, o espaço entre os pedacinhos é muito grande, fazendo com que, depois de retirada da água, a força da gravidade leve embora a maior parte da água. Comparada com o solo, por causa do tamanho das partículas, um mesmo volume de poda triturada reterá muito menos água. (O carvão ativado, que possui uma área imensa por unidade de massa, consegue reter ainda mais água que o solo.)

Água no solo

Limitações do experimento

  • O material das podas é variado, contendo diferentes espécies vegetais e diferentes partes da planta (folhas, galhos novos, galhos mais lenhosos).
  • Não sei quanto tempo o material ficou decompondo no galinheiro. Suponho que tenha sido em torno de 2 a 3 meses.
  • Este teste de retenção foi realizado na condição de saturação, ou seja, o material ficou submerso durante um período, o que não é o caso se usamos as podas como cobertura. Em breve, farei um teste de percolação, que simularia melhor a chuva caindo na cobertura.
  • O peso das amostras é pequeno, o que pode resultar em erros na hora de extrapolar para quantidades maiores.

AmostrasPeso
Poda recém-triturada seca (A1)(kg)
Volume de 1 litro (seco)0,185
Qtde a ser submersa1,025
Peso depois de submergido por 24h2,395
Peso de água retida1,37
Taxa de absorção
(kg de água / kg da amostra)
1,37
Poda triturada semi-decomposta (A2)(kg)
Volume de 1 litro (úmido)0,405
Volume de 1 litro (seco)0,265
Qtde a ser submersa0,665
Peso depois de submergido por 24h1,965
Peso de água retida1,3
Taxa de absorção
(kg de água / kg da amostra)
1,95

Discussão

Retenção de água

Antes de mais nada, queria destacar que a amostra semi-decomposta (A2) úmida já continha 53% do seu peso em água quando foi coletada. Ou seja, a decomposição (microrganismos) e as intempéries (umidade) criaram caminhos para a água se infiltrar e ficar escondida dentro da madeira, ao mesmo tempo que reduziam o tamanho do triturado. E veja: ambas amostras receberam a mesma quantidade de chuva nas 2 semanas antes do experimento.

Se a poda estivesse recém-triturada (ainda nova, digamos assim), ela somente conseguiria um resultado semelhante (ter metade do seu peso em água) quando encharcada. Não medi, mas quando esteve exposta ao tempo ela não segurou a água por muito tempo – estava quase seca quando a coletei. O experimento mostrou que, quando saturada, a A1 reteve 1,37 vezes do seu peso seco em água. De uma amostra de 10kg, por exemplo, 5,73 kg seriam água.

Já a poda triturada semi-decomposta, quando submersa, conseguiu atingir aproximadamente o dobro (1,97x) do seu peso seco em água. De uma amostra de 10kg, por exemplo, 6,63kg seriam água.

A amostra semi-decomposta submergida reteve 30% mais água que a “nova”.

Volume

Quando pensei no experimento, não previ a necessidade de pesar o volume da amostra. Mas quando fui coletá-las, notei que a poda recém-triturada ocupava muito mais espaço que a semi-decomposta. Na primeira, 1kg de amostra quase deu conta do saco de coleta. Na segunda, coloquei 2kg e cheguei apenas até a metade do saco. Já sabia que o principal fator para essa diferença era a umidade do material. Mas, sabendo também que a decomposição já estava em andamento, supus que seus pedacinhos se “encaixariam” melhor (por serem menores) que os do material recém-triturado.

Então, peguei um recipiente de um litro e enchi-o com os materiais. Um litro da amostra A1 seca pesava 0,185kg, enquanto a amostra A2 (retirada úmida do solo) pesava 0,405kg. Depois de seca, 1 litro da A2 pesava 0,265kg. Estas pesagens não foram muito bem feitas.

Assim, podemos esperar que 1 kg de uma poda triturada decomposta seca ocupe menos volume que 1 kg de triturado “fresco”. Essa deve ser a principal razão para a amostra A2 conseguir reter mais água, ou seja, devido a pedaços menores, ela tem mais paredes para a água aderir.

Próximas experiências

  • Medir a taxa de retenção de água de 1kg de terra (observando as textura da amostra);
  • Medir o tempo de secagem de uma poda recém-triturada e de uma semi-decomposta;
  • Medir a taxa de retenção de água de 1kg de composto maduro feito com poda triturada.
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Montagem de SAF

Aqui temos uma série de fotografias da montagem do SAF do Galpão do Rancho. No início de 2022, os pinus da área foram cortados e em julho a retro destocou, empilhou e alinhou os troncos, galhos e o lírio do brejo ao longo da estrada (parte superior das fotos). Em agosto, lancei sementes variadas para tentar cobrir o solo nas semanas que viriam (feijões, mamona, coentro, algodão, amaranto, crotalária, etc.) e comecei a montar os canteiros, tendo o cuidado de não deixar nenhuma raiz do lírio. No meio de outubro, junto com a Pipoca, plantamos as principais mudas de árvores e ervas medicinais: castanha portuguesa, noz pecã, abacate, banana, figo, caqui, guabiju, tâmara, ingá, diferentes sálvias e hortlãs, alecrim, erva baleeria, etc. De lá pra cá, preenchemos os canteiros com as culturas mais rápidas: feijão, milho, mandioca, girassol, batata doce, crotalária, pfafia, etc., e mais árvores de estaca para futuras podas.

Todos os caminhos foram cobertos primeiramente com lírio do brejo e em seguida, trouxemos alguns sacos de serragem grossa para o mesmo fim. Ainda falta serragem para tudo.

As mamonas se destacaram no crescimento rápido e sombreamento do solo, ajudando as mudas a sobreviverem ao verão. E a colocação de troncos dentro dos canteiros foi essencial para reduzir drasticamente o estrago provocado pelas galinhas.

A última foto da montagem é de janeiro de 2023.

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Vista de perto, jan/23

Segue uma coletânea de fotografias macro do seres e objetos que aparecem no meu dia a dia.

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Relógio como bússola

Aqui vai uma dica simples para ter uma noção da sua direção.

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Madeira ramial triturada

Foi num vídeo do Rebello, do CEPEAS, que ouvi pela primeira vez sobre estudos científicos de melhoria do solo usando galhos novos triturados. Aí então, comecei eu mesmo a pesquisar essa técnica nas minhas composteiras.

Depois, descobri o método do francês Jean Pain, cujo mini-documentário incrível está num link abaixo e seu livro, neste PDF. O cara não só desenvolveu um método de compostagem que gera adubo, gás e calor para ser usado em sua casa, como construiu uma série de trituradores para picar as árvores.

Ainda estou procurando o artigo científico de Gilles Lemieux, citado pelo Rebello no vídeo acima. Enquanto isso, publico abaixo um textinho resumindo a questão.

Tradução do artigo Ramial Chipped Wood: A complete introduction.


Publicado em 29 de setembro de 2022, por Huw Richards.

Ramial Chipped Wood: A Complete Introduction

Uma explicação concisa

A Madeira Ramial Triturada (MRT) é utilizada para melhorar o solo nas plantações e nos jardins. Ela é obtida de galhos menores e mais jovens, tipicamente de até 7cm de diâmetro, que são recém colhidos de cercas vivas, arbustos para poda ou podas anuais. A técnica tem como precursor o canadense Gilles Lemieux, que resumiu a abordagem como “imitar o solo florestal num solo agrícola, só que sem as árvores”.

Madeira ramial triturada com atividade fúngica

Nos ramos jovens é onde acontece o crescimento mais vigoroso de uma árvore, o que significa que eles são muito mais ricos nutricionalmente do que a madeira mais velha, mais espessa, e são mais facilmente digeríveis por organismos benéficos no solo. Eles normalmente contêm até 75% dos minerais, açúcares, amidos, aminoácidos, proteínas, fito hormônios e enzimas de uma árvore. A maioria das espécies de árvores pode ser utilizada para isso. Deve-se dar preferência para as árvores decíduas, mas até 20% do material de coníferas, eucaliptos ou castanheiros podem ser adicionados antes que seus aspectos ácidos ou alelopáticos (inibidores de crescimento) se tornem um problema. Para evitar a propagação de doenças, descarte o material das árvores infectadas.

Uma vez triturado, temos mais superfície do material exposta a fungos e outros microorganismos. Em seguida, ele é decomposto e pode ser incorporado ou colocado sobre o solo. Descobriu-se que essa técncica tem inúmeros benefícios para o rendimento e a qualidade das culturas, melhorando a estrutura do solo e a retenção de água, aumentando o número de microorganismos benéficos, fornecendo proteção contra geadas e reduzindo ervas daninhas, e ajudando a neutralizar os solos ácidos.

Aplicações comuns

A MRT pode ser incorporada ao solo, aplicado diretamente na superfície como uma cobertura morta, ou pode ser compostado primeiro antes da aplicação. Entretanto, Iain Tolhurst, da Tolhurst Organic no Reino Unido, descobriu através nas suas pesquisas que não houve nenhum benefício em compostar primeiro a MRT – e ela funcionou muito bem quando aplicada diretamente como cobertura.

Outra aplicação seria usá-la em caminhos para aumentar a vida útil do solo e permitir que as raízes das plantas se tirem proveito disso; neste caso, morangos.

A época ideal para incorporar a MRT é no outono e no inverno. Isto permite tempo suficiente para que o material se decomponha, o que reduz temporariamente o conteúdo de nitrogênio no solo. Os níveis de nitrogênio voltarão então no tempo para o plantio das culturas na primavera. Se usado como cobertura morta ou o material for compostado primeiro, ele pode ser aplicado em qualquer época do ano. Uma boa opção é a cobertura morta entre os canteiros, trazendo benefícios para a flora e fauna do solo sem a diminuição do nitrogênio a curto prazo em sua área de cultivo. Uma vez decomposta, ela pode então ser adicionada aos canteiros (ou como diz Ian Tollhurst, “deixe que os vermes o façam o trabalho por você!”). O melhor é utilizar a MRT o mais rápido possível após a colheita, para se obter um valor nutricional ideal.

Estudos de caso

Depois de ler sobre os resultados espetaculares de Jean Pain usando madeira ramial triturada em sua horta – mesmo em uma área onde a chuva é muito rara e onde a temperatura muitas vezes excede 40 °C no verão – a bióloga Edith Smeesters decidiu, há quarenta anos, usar a abordagem em sua nova horta, com enorme sucesso. A horta, construída sobre o que era essencialmente um aterro sanitário, tornou-se exuberante e produtiva em menos de dois anos e ela continua usando MRT até hoje.

Um estudo realizado no Senegal constatou que o uso de madeira ramial triturada resultou em um aumento de rendimento de até 1000% para o tomate e um estudo no Quebec constatou um aumento de rendimento de 300% para os morangos.

Quando e o que triturar

A MRT é melhor coletada no outono quando o material está cheio dos nutrientes que está armazenando para o inverno. A maioria dos tipos de árvores é adequada, com as exceções mencionadas acima, mas as seguintes são particularmente recomendadas. Uma mistura de espécies é ideal para a MRT, pois todas elas terão benefícios particulares.

Árvores pioneiras – estas são as espécies que retornam primeiro a áreas degradadas ou desmatadas em sua localidade. Elas são uma boa escolha, pois são particularmente adaptadas para melhorar a saúde e a densidade de nutrientes dos solos.

Freixos – árvores altas e graciosas, membros da família das oliveiras e lilases. Devido a sua força e densidade, eram tradicionalmente usada para fazer as hastes das lanças e muitas ferramentas. Elas também dão seu nome, em galês, ao nosso sítio experimental de jardinagem regenerativa Dan Yr Onnen, ou seja, debaixo do freixo. Se você tem um freixo com sintomas de die-back, você deve seguir as recomendações de descarte para sua área.

Carvalhos – favorito dos carpinteiros por sua durabilidade e trabalhabilidade. Existem duas espécies encontradas no Reino Unido, o Carvalho Comum (ou inglês) e o Carvalho Sésseis, que tem um tronco mais reto e ramos mais retos. As bolotas (seus frutos) sustentam a vida selvagem e com a preparação correta, os humanos também!

Salgueiros – são de crescimento rápido, muito fácil de propagar, fazendo a espécie perfeita para poda regular. Além de ser um excelente constituinte para a madeira ramial triturada, também tem sido usada tradicionalmente para tecer cestas e fazer a armação da canoa coracle galês. O salgueiro tem uma relação mutualista com pelo menos 21 espécies de fungos, o que a torna um ingrediente ideal em uma mistura de MRT.

Aveleiras – uma das árvores mais úteis devido aos seus caules flexíveis, e deliciosas nozes – amadas tanto por pessoas como por esquilos. Quando cortada, uma aveleira pode viver por várias centenas de anos.

Plátanos – o plátano (sycamore maple) é a espécie de ácer mais comum na Europa, enquanto o ácer de campo (field maple) é nativo do Reino Unido. Suas folhas largas e robustas auxiliam a vida selvagem, além de serem ótimas para combater a poluição do ar.

Fazendo sua própria madeira ramial triturada

Como guia, um jardim de 100m2 exigiria cerca de 3m3 de MRT. Para as quantidades necessárias para um jardim, é melhor usar um triturador. Usamos o Forestmaster 14 HP Professional, que é perfeito para jardins comunitários e locais maiores. O Forestmaster 6HP Compact é mais adequado para jardins individuais e menores. O modelo Professional vai triturar madeira de até 100mm de diâmetro (4″) e é capaz de triturar qualquer madeira recém cortada, seja dura ou macia. O modelo Compacto tritura até 50mm (2 polegadas) de diâmetro e seu peso leve e tamanho compacto o tornam extremamente manobrável e fácil de guardar. Há também um triturador elétrico de 4HP que funciona fora da rede doméstica padrão e é bem adequado para os galhos menores usados para MRT.

Impressões pessoais do autor deste artigo

Acredito que a madeira ramial triturada é um recurso inexplorado dentro do mundo da horticultura e que possui um potencial fascinante que precisa ser pesquisado mais a fundo. É por isso que a MRT vai desempenhar um papel fundamental em meu plantios, especialmente em nossos locais de experimentação, com a esperança de mostrar resultados concretos.

No futuro, posso imaginar comunidades com seus próprios bosques de poda de curta rotação e um triturador compartilhado e colher a madeira adequada para fazer este recurso em escala e dar um grande passo para ser mais resiliente em termos de produzir sua própria fertilidade e composto.