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Por que apenas algumas comunidades dão certo?

Essa é o tema do livro Creating a life together, de Dianne Christian, publicado 2003.

Os vários capítulos são uma compilação de experiências sobre o que deu certo e o que deu errado em diversas comunidade intencionais nos Estados Unidos. Reproduzo aqui a tradução de um pequeno trecho sobre conflitos estruturais.

“A maioria dos fracassos de comunidades parecem resultar do que chamo conflito “estrutural” – problemas que surgem quando os fundadores não explicitam certos processos ou não tomam determinadas decisões importantes no início, criando uma ou mais omissões na sua estrutura organizacional. Estes problemas estruturais vindos “de fábrica” parecem funcionar como bombas-relógio.”

Creating a life Together, capítulo 1.

Abaixo, segue os seis pontos que a autora sugere que sejam definidos já nas primeiras reuniões.

  1. Identifique a visão norteadora da sua comunidade e documente-a. Talvez não exista nenhuma fonte mais devastadora de conflito estrutural numa comunidade do que vários membros tendo diferentes visões a respeito, antes de mais nada, da razão de estarem ali. Isso aparecerá na forma de diversas discussões sobre assuntos comuns – quanto dinheiro se vai gastar num dado projeto, ou quanto tempo ou com que frequência se vai trabalhar numa tarefa. Isso é uma questão de diferenças fundamentais (nem sempre conscientes) sobre para que serve a comunidade. Todos os membros da comunidade devem estar na mesma página desde o começo e precisam saber qual é a visão norteadora compartilhada da comunidade e que todo mundo apoia ela. Sua visão norteadora deve ser discutida inteiramente, concordada e escrita antes de qualquer coisa.
  2. Escolha um processo de tomada de decisão justo e participativo que seja adequado para o seu grupo. E se escolher o consenso, faça um treinamento. A não ser que você esteja formando uma comunidade espiritual, religiosa ou terapêutica com um líder espiritual que tomará todas as decisões – e todo mundo concorda com isso –, os membros irão se ressentir de qualquer desequilíbrio de poder. Ressentimento com respeito a desequilíbrios de poder pode se tornar uma enorme fonte de conflito na comunidade. A tomada de decisão é o ponto mais óbvio de poder, e quanto mais ele for compartilhado e participativo, menos esse tipo de conflito irá aparecer. Isso significa que todo mundo no grupo tem voz nas decisões que afetarão suas vidas na comunidade, através de um método de tomada de decisões que seja justo e equilibrado. O procedimento para a tomada de decisão do seu grupo deve ser bem claro e entendido por todo mundo. Uma fonte específica de conflito em comunidade é o uso do consenso sem um entendimento completo sobre ele. O que frequentemente é chamado de consenso, em muitos grupos, é meramente um “pseudo-consenso” – o qual exaure as pessoas, suga suas energias e boa vontade, gera uma grande dose de ressentimento por si só, e faz com que as pessoas desprezem o que chamam de “consenso”. Então, se o seu grupo planeja usar o consenso, será preciso primeiro um treinamento para evitar um baita conflito estrutural. (Ver Cap. 6)
  3. Faça acordos claros – por escrito. (Isso inclui a escolha da entidade legal apropriada para a propriedade coletiva da terra). As pessoas lembram das coisas de maneira diferente. Seus acordos – do mais mundano para o mais significante legal e financialmente – devem absolutamente ser escritos. Se, mais tarde, vocês lembrarem deles diferentemente, basta olhá-los novamente. A alternativa – “estamos certos, e vocês estão errados (e talvez estejam querendo nos enganar)” – pode rachar uma comunidade mais rapidamente do que você pode dizer “Fale com meu advogado.” (Ver Cap. 7)
  4. Aprenda boas habilidades de comunicação e processos de grupo. Torne prioridade a comunicação clara e a resolução de conflitos. Ser capaz de falar à outra pessoa sobre assuntos sensíveis e se sentir conectada a ela é a minha definição de boas habilidades de comunicação. Isso inclui métodos para manter-nos responsáveis pelos acordos que tirarmos entre nós. Se você não der atenção para habilidades de comunicação, processos de grupo e métodos de resolução de conflito no começo, então temos um cenário para um conflito estrutural mais a frente. Dedicar-se a essas questões no início lhe permitirá ter procedimentos à mão para quando, mais tarde, as coisas ficarem tensas – como se fôssemos praticar simulação de incêndio agora quando não há fogo. (Ver Cap. 17 e 18)
  5. Ao escolher cofundadores e novos membros, selecione por maturidade emocional. Uma fonte comum e poderosa de conflito é permitir que alguém entre no seu grupo ou, mais tarde, na sua comunidade que não esteja alinhado com a sua visão norteadora e os seus valores. Ou alguém cujo sofrimento emocional – que aparecerá semanas ou meses depois como atitudes ou comportamentos perturbadores – pode acabar lhe custando incontáveis horas de encontros e drenando a energia e o bem-estar do seu grupo. Um processo bem feito para a seleção e integração de novas pessoas no grupo, e para filtrar aquelas que não ressonam com os valores, a visão, ou as normas de comportamento estabelecidas, pode salvar muitas seções estressantes de conflito nas semanas ou nos anos que estão por vir. (Ver Cap. 18)
  6. Aprenda as habilidades da cabeça e as habilidades do coração necessárias a você. Formar uma nova comunidade é como simultaneamente tentar começar um novo negócio e um casamento – e é tão sério quanto fazer os dois. Requer muitas das habilidades de planejamento e financeiras que são necessárias para lançar um empreendimento, e as mesmas capacidades de confiança, boa vontade, honestidade e comunicação gentil interpessoal necessárias para se casar com o amor da sua vida. Fundadores de novas comunidades bem-sucedidas parecem conhecê-las. Ainda assim, aqueles que se atolam em problemas acabam falhando sem entenderem o que lhes faltava. Como Sharon, estas pessoas bem intencionadas não sabiam o que não sabiam. Assim, o sexto ponto para reduzir a aparição de um conflito estrutural é gastar tempo aprendendo aquilo que você precisa saber.

Aqui está o pdf do primeiro capítulo traduzido.

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Carvões, algumas diferenças

Já que fiz carvão de algumas plantas, resolvi olhá-los mais de perto e testar suas propriedades.

Retenção de água

Um dos benefícios que a ciência atribui ao uso de carvão no solo é a sua capacidade de reter água. Dado que a madeira fica extremamente porosa depois de virar carvão, a água pode então se infiltrar e permanecer lá dentro. Para ter uma ideia, um carvão ativado, ou seja, aquele que foi feito a temperaturas acima de 500 ºC, possui uma área de poros entre 1500 a 3000 m² por grama (ver o livro de Rebecca Oaks).

Tendo isso em vista, montei o seguinte experimento. Escolhi algumas peças de carvão de bambu, uva do japão e pinus. Coloquei-as por 30 minutos no desidratador a 70ºC e pesei seu volume seco. Depois, submergi as peças por dois dias. Retirei-as da água e pesei novamente.

O resultado está apresentado na tabela abaixo. A coluna “Retenção” mostra quantas vezes o carvão consegue reter de água em relação ao seu peso seco (ou seja, o peso de água dividido pelo peso seco da amostra). Pretendo atualizá-la à medida que eu for queimando outras espécies.

EspéciePeso seco
da amostra
Peso úmido
saturado
Retenção
de água
Pinus Elliotii22,171,02,2 x
Bambusa Tuldoides39,164,20,64 x
Hovenia Dulcis32,567,61,08 x

Não sei ainda como o pessoal faz nos laboratórios, mas dá para ter uma ideia da capacidade de uma peça de carvão armazenar água. Como na hora de aplicar o carvão no solo a gente mói ele, como será que isso altera essa capacidade?

Seção transversal

Outra análise que pude fazer foi simplesmente olhar a seção transversal de cada peça. Usei uma lente que aumenta 200x para fazer as seguintes fotos no meu celular.

Pinus Elliotti

No pinus acima, dá pra ver certinho a linha do anel de crescimento: a parte mais escura, acima (poros maiores) são os traqueídeos do ínicio da estação e a parte mais clara (poros menores), os traqueídeos tardios (que cresceram menos). Os furos maiores são os dutos de resina, característico das coníferas.

Bambu Brasil (Bambusa vulgaris)

Para o bambu, peguei a informação da anatomia dessa imagem em inglês. Nesse bambu então, dá pra ver três furinhos bem definidos, um furo maior, meio disforme mais abaixo, e entre os 3 e o grandão, às vezes dá para ver um bem pequenino. No conjunto de 3 furos, o do meio é onde passa o floema. Os dois laterais são os vasos. O pequenino não achei descrição. E o furão é onde estão as fibras. Todo o resto são as células do parênquima.

Uva do Japão (Hovenia dulcis)

Na Uva do japão, a diferença dos canais devido às estações do ano também é bem visível. Os furos maiores denotam a primavera (centro da foto) e dali em diante (para cima) os furos vão diminuindo o diâmetro. No crescimento de inverno (na parte de baixo da foto), os vasos quase desaparecem. Acho que as linhas claras no sentido vertical são os raios.

Bom, essas foram as análises que fiz até o momento. À medida que for estudando mais, terei novos experimentos para fazer com os carvões.

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Carvão, como se faz?

Quando fui participar do curso do Sebastião Pinheiro sobre Biopoder Camponês no Centro Ecológico (RS) em 2022, já tinha lido metade do livro de Rebecca Oaks, Making Charcoal and Biochar – a comprehensive guide (Produzindo carvão – um guia abrangente). Além de ela nos contar a história dos usos, as técnicas de produção, sobre mercado e legislação, também traz um capítulo sobre “Carvão e o sequestro de carbono”. Como ainda não cheguei lá, sigo curioso em saber como essa mágica acontece. E sendo um argumento até comum, provavelmente mais adiante farei uma postagem sobre isso.

O propósito agrícola de fazermos carvão é poder usá-lo como melhorador do solo. Depois de queimada, a madeira não apodrece mais e a infinidade de poros que resta acaba virando moradia para microrganismos, passagem para a água e despensa para minerais solubilizados (adsorção). Assim como o composto, o uso de pó de carvão visa a totalidade do solo e não a nutrição da planta. Falarei mais sobre isso em outra postagem também.

Primeira experiência

Certo dia, lá estava eu pesquisando sobre solos. Compostagem, microbiologia, adubação verde e pimba: biochar. Ou, portuguêsmente falando, carvão! Pesquisei na internet, baixei o livro da Rebecca Oaks, li metade enquanto chovia e no primeiro sol que apareceu fui pro campo catar lenha e montar uma carvoeira primitiva.

Basicamente, tu junta toda a lenha (seca) num monte, prepara uma portinha pra botar fogo e cobre com algo pra abafar. A ideia é fazer com que a madeira (ou qualquer outro material orgânico) queime com pouco oxigênio.

Aí, a Pipoca, da Botica Yerba Buena, estava por aqui e me convidou: “se tu fizer carvão de bambu, eu preparo um sabão especial para a pele”. Aceitei. Só que fiz do jeito que dava: rachei um tanto de bambu seco (Bambusa tuldoides), empilhei e cobri com uma camadona de lírio do brejo.

Olha, deu meio errado, mas deu meio certo também: rendeu carvão suficiente para uma receita do sabão, pelo menos.

Digressão energética

Na cidade onde nasci, tem um bairro chamado assim, Carvoeira. Outro se chama Canasvieiras. Tem um monte de palavras que a gente usa para denominar um local, mas que nem presta atenção ao seu significado. Essas estão em português (casa do carvão e campo de cana-de-açúcar), imagina então os nomes herdados da Língua Geral: Guaraqueçaba, Taubaté, Biguaçu, Tramandaí.

Mas um dia eu percebi. Ali do lado de onde passei minha adolescência, devia ser uma região com poucas árvores e uma fumacinha branca varando o céu constantemente.

Antes da eletricidade e da gasolina, tudo era feito no braço, na lenha ou na tração animal. Por um lado, hoje carvão virou sinônimo de churrasco. Por outro, a poluição e o desmatamento, necessários para a produção dessa fonte de energia, agora não se veem mais, já que temos petróleo e painéis solares. Porém, a poluição e o desmatamento (e a contaminação das águas e a perseguição de populações locais e a (semi-)escravidão) ainda exitem para converter qualquer fonte de energia em eletricidade! Mas tudo isso acontece longe dos consumidores…

Se no passado, que tinha menos gente para consumir, o estrago gerado na conversão de energias era grande, imagina o que seria necessário explorar agora dessas fontes energéticas “primitivas” para sustentar o consumo atual.

Por exemplo, não faz muito tempo, o maior problema urbano de Londres, antes do aparecimento dos automóveis, era a quantidade absurda de merda de cavalo largada nas ruas para mover as pessoas e os produtos (The great horse manure crises of 1894). Muito fedor e muitas moscas. Um carro 1.0 tem um motor equivalente a entre 70 e 120 cavalos de potência. Um cavalo caga entre 7 e 17kg de estrume por dia… Dá para imaginar a quantidade de merda que uma pessoa dirigindo seu carrinho deixaria pelas ruas se ela usasse cavalos, né? E de fato, em algum lugar essa “merda” está sendo gerada.

Voltando ao carvão, e se a maioria das pessoas usasse madeira (renovável!) para cozinhar, se aquecer e mover a sua bici-locomotiva? Ou se a maioria das pessoas usasse também madeira para fazer papel para se limpar no banheiro? Desmatamento, poluição do ar, contaminação das águas, isso se pensarmos somente na produção.

E por aí vai…

A carvoeira, ao vivo e a cores

E aqui aparece o curso do Tião.

Mesmo sabendo (pelas leituras) que o processo pode ser mais eficiente e também mais complicado, foi muito bom ver uma carvoeira de fundo de quintal sendo feita em 15 minutos.

Revisitando minhas anotações do dia do curso, a única coisa que escrevi, pois me causou muita surpresa e curiosidade, foi: “queima de cima para baixo”. Como assim?? Se o fogo sobe, como a queima desce?

O pulo do gato é que a queima só acontece se houver oxigênio. Já que ele entra por baixo, lentamente a queima vai sendo puxada para o fundo.

Pessoal do curso do Tião observando a montagem da carvoeira

Como construir

Vamos ver como se monta a bichinha. O Tião me ensinou o seguinte:

  • Pega um tonel de metal
  • No fundo, com a esmerilhadeira, corta umas aberturas para entrada de ar
  • Na tampa, corta um X e enfia um cano de chaminé
  • Posiciona o tonel em cima de uns tijolos
  • Enche com madeira o mais parelha possível de tamanho. Se os pedaços de madeira forem muito diferentes, uns vão queimar mais rápido que outros.
  • Faz um bom fogo em cima
  • E depois que tiver pegado bem, tampa
  • Agora é esperar. Dependendo da dureza da madeira, a queima pode ser mais rápida ou mais lenta. Pode levar a noite inteira, por exemplo.
  • Para verificar em que altura do tonel está acontecendo a combustão, é só esguichar água na parede dele. Onde ferver, ali está acontecendo a queima
  • Quando o calor estiver a um palmo do fundo, bota o tonel no chão para trancar a entrada de ar. Se isso não extinguir o fogo, derruba o tonel e usa um regador para apagar as brasas.

Avaliação

Tendo feito algumas queimas, vou juntar aqui abaixo algumas considerações sobre essa forma de fazer carvão.

Sobre o tonel. Consegui um tonel velho com a vizinhança. Ele não tinha tampa e a base estava bastante corroída. Por isso, fiz menos cortes no fundo, pois supus que os buracos que já haviam dariam uma boa aeração.

Como esse tonel não tinha uma tampa própria, improvisei com uma que encontrei jogada no meio do mato. Assim, não encaixando bem, ou seja, tendo muitas frestas e furos em cima, também supus que não seria necessário instalar uma chaminé decente. Botei um cano só para dar um apoio simbólico.

Sobre a chaminé. Numa câmara de combustão (seja fogão, carvoeira, cilindro de motor, etc.), o ar e o combustível entram, ao mesmo tempo que a fumaça sai. Essa é a primeira lei da termodinâmica, chamada de conservação da massa: a energia não se perde, se transforma. Assim, se a fumaça, que é o resultado da combustão, ficar presa na câmara, não tem como mais ar entrar e, assim, o processo para.

No caso do projeto original do tonel, ele tem algumas entradas por baixo e uma saída por cima, a chaminé. Quando tu fazes o fogo, o calor vai empurrar a fumaça (quente) para cima e assim puxar o ar novo de baixo. Se a gente reduz o fluxo da saída, como não tem outras aberturas, também reduz o da entrada por baixo. E vice-versa.

Para a carvoeira fazer carvão, evitando que a lenha vire cinza, a queima tem que acontecer com pouco ar (oxigênio). Por isso, esse controle das aberturas.

No meu caso, o tonel parece ter muitos furos embaixo e muitos furos em cima. O resultado é que não consigo controlar bem a queima e acabo gerando mais cinza.

O carvão

Mesmo com um equipamento pouco eficiente, tenho conseguido produzir uma boa quantidade de carvão. Sempre tem uma parte que não queimou bem e outra que virou cinza. A primeira volta para a carvoeira e a segunda vai para os canteiros.

Cada espécie de madeira resulta em carvões com propriedades diferentes. Pretendo falar um pouco sobre isso na postagem sobre os efeitos do pó de carvão na agricultura.

Aqui, tenho usado bambu, eucalipto e pinus. Na verdade, como preciso limpar uma área cheia de galhada de pinus, o mais importante para mim está sendo poder transformar aquele estorvo em algo mais útil. Os galhos mais finos foram para o triturador e em seguida para a composteira. A palhada está cobrindo os canteiros. Agora, os galhos mais grossos estão virando condomínio para as bactérias!

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Mudas de bambu

Tem uma regrinha geral pra fazer mudas de bambu que diz o seguinte:

  • se a espécie é alastrante, a muda se faz com um pedaço do rizoma
  • se ela é entoucerante, então fazemos com uma rama (estaca)

Outro dia, fui num vizinho fazer muda de bambu gigante. Perto da casa dele, tem uma touceira magnífica, na beira de um córrego. Não saberia dizer se é Asper ou Giganteus… Mas, num delírio de maravilhamento, encontrei um broto saliente e fui correndo buscar a motosserra. Cavoquei e cortei e por fim consegui retirar aquela bolota chifruda imensa.

Levei pra casa, botei na água enquanto cavava o berço e preenchia do mais rico composto. Enterrei o bichinho e reguei.

Tudo certo, né?

Pior que não. Os bambus novos, por não possuírem folhas, tiram sua energia do resto do bambuzal através do rizoma. Logo, se eu retiro um broto da touceira, ele morre. Não tem como se nutrir. Ponto final.

Tem um vídeo do Carlos, do Espaço Naturalmente, que recomendo: https://yewtu.be/watch?v=EfRqZUaFVnI. Ele faz um berço de areia, pra facilitar o transplante, e planta o “copinnho”: seção do colmo com nó na parte de baixo, preenchido de água.

E o site Guadua Bamboo, em inglês, também é muito bom e completo. Eventualmente pretendo traduzir algumas postagens de lá. Por ora, indico essa, sobre How to grow bamboo cutings.

Tendo seguido aquela regrinha lá do início mais à risca, obtive bons resultados, seja com os alastrantes, seja com os entoucerantes. Não lidei com muitas espécies ainda, mas repliquei guadua (angustifolia), gigante, bambu brasil, mossô e cana da índia (phyllostachys).

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Tinha uma pedra no caminho…

É incrível como sempre tem, né?

Quando fui construir minha casa e os canteiros no entorno, em Maquiné, me deparei com pedras muito grandes enterradas. A melhor coisa é ter a criatividade para integrá-las no seu projeto. Mas nem sempre dá.

Outra vez, um amigo e eu fomos chamados na aldeia Som dos Pássaros, no fundão da linha Solidão em Maquiné, para tirar uma pedra imensa que estava perto da Casa de Rezo. Levamos um poderoso martelete hidráulico, talhadeiras, marreta de 5 kg, luvas, óculos de proteção, alavancas. Passamos a manhã inteira lascando uma massa do tamanho de um fusca, mas não conseguimos ir muito longe. O pessoal então decidiu usar a técnica do fogo: faz-se uma fogueira em cima da pedra, deixando-a aquecer por toda a noite. No dia seguinte, joga-se água fria em cima. O choque térmico vai rachando a pedra aos poucos. O trabalho é relativamente menor, mas é preciso mais tempo. Se for possível cavar ao redor da pedra, melhor ainda: dá pra fazer o fogo mais perto da base e menos calor é perdido para a terra, o que aumenta o choque térmico.

Para minha sorte, nunca tive que lidar no meu quintal com algo tão grande. Com pedras, digamos assim, “médias”, costumo usar a técnica descrita no Livro da Autossuficiência, de Seymour.

Primeiro de tudo, convide alguém para lhe ajudar. Uma pessoa a mais faz TODA a diferença. Por outro lado, trabalhar em três pode ser demais.

Cave ao redor da pedra, até perto da sua base. Será preciso mais do que simplesmente separar a pedra da terra: faça um cone. É comum negligenciar essa parte, pois a gente fica focada em tirar a pedra e faz força e puxa e empurra e da-lhe suor e energia perdida. Então, vai por mim, abra um bom buraco ao redor.

Para que a alavanca funcione direito, é preciso que ela se apoie em algo firme e duro. Raras vezes o solo serve. Na maioria delas, a gente usa uma pedra ou um toco como apoio.

Lembre-se do princípio da alavanca: nossa força é aumentada proporcionalmente às distâncias entre o apoio e as pontas. Assim, tente posicionar o apoio o mais próximo possível da base da pedra (como na figura acima).

Tendo conseguido rolar a pedra um pouquinho para um lado, coloque algumas pedrinhas no espaço disponível embaixo dela.

Vá pra o outro lado e use a alavanca para rolar a pedrona para cima das pedrinhas e liberar espaço do outro lado. Coloque mais pedrinhas embaixo, no espaço que abriu.

Repita o processo lenta e tranquilamente e você verá a pedra subir.

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Facas

Certa vez, fui na madeireira buscar serragem para o banheiro seco. Andando entre as máquinas e tábuas beneficiadas, esbarrei com uma serra-fita jogada num canto. Percebi que haviam várias pelo galpão e também correntes de motosserra penduradas nos esteios. Imediatamente, me veio a ideia: esse lixo ainda vai me servir.

serra-fita

Pedi uma lâmina daquelas para o dono. Ele até pareceu contente de poder se desfazer dela. Guardei nas minhas tralhas e esqueci.

Finalmente, anos depois, achei uma finalidade. Dada a flexibilidade da serra-fita, poderia aproveitá-la para fazer pequenas lâminas para várias ferramentas cortantes, desde facas, mini-foices, e inclusive, serras. Se fosse algo comprido, talvez entortaria com facilidade – seria preciso testar.

Uso um disco de corte na esmerilhadeira e o esmeril para dar a forma da lâmina. Os cabos faço aproveitando uns restos de vistas de porta, aquelas ripinhas pra fazer o acabamento do batente, geralmente de madeira dura e bonita. Algumas facas receberam bainha, feita com retalhos de couro que uma amiga reciclou. Dizem que a costura do couro é trabalhosa e eu acredito. Mas pra facilitar minha vida, “costurei” com grampeador. Não fica bonito, mas também não fica feio.

Para juntar as duas metades do cabo, geralmente faço dois furos e passo um prego. Corto o excedente com a esmerilhadeira e lixo para dar o acabamento. O detalhe importante na hora de furar qualquer metal é a velocidade de giro da furadeira: deve ser lenta. Bote força, mas com baixa rotação.

E os modelos copio da internet.

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De onde tirar água?

Se tu tá querendo montar um plantio numa maravilhosa área plana e não tem nenhum rio ou córrego passando perto, de onde tirar a água necessária para as plantas?

A resposta é simples: da chuva!

Certa vez, fui num mutirão no Quadrado, em Florianópolis. Uma pequena área do aterro da baía sul foi ocupado por ciclista para reivindicar a criação de uma área verde de lazer (AVL). O aterro é imenso e poderia se transformar num parque. Mas, claro, já na época das obras, podia-se imaginar que aquilo viraria uma série de conjuntos habitacionais, entre duas avenidas muito movimentadas e um dos mais belos por-do-sol da ilha.

A galera ocupou o espaço, promoveu encontros e atividades, e começou a plantar. Entre os vários problemas que enfrentaram, como incêndios, solo 100% arenoso e a disputa com a prefeitura para que as coisas simplesmente ficassem lá, não havia água.

Do ponto de vista agroflorestal, para não ter que trabalhar tanto, seria preciso dar tempo às plantas e auxiliá-las no seu processo de sucessão natural. Quais espécies seriam mais adequadas àquele solo e clima? O que plantar primeiro que ajudaria as que viriam em seguida? Enfim, se temos segurança, o tempo é nosso aliado. Porém, num espaço em disputa, era preciso acelerar as coisas.

Assim, foram trazidas mudas crescidas de árvores e frutíferas e composto em grande quantidade. Mas ainda faltava água. A saída foi montar uma cisterna.

Como se pode ver na foto abaixo, a solução que a galera bolou é bem curiosa. Afinal, onde está a caixa dágua?

Não lembro exatamente das medidas, mas era mais ou menos assim. Construíram um telhado de 3m x 3m com telhas recicladas. Ele é baixinho e levemente inclinado para o sul: o vento que sopra dessa direção é famoso na ilha pela sua força. Na parte mais baixa tem uma calha que conduz a água para a caixa dágua de 500 litros que está enterrada logo abaixo do telhado. Isso evita o roubo e a depredação, além de reduzir os danos causados pelas eventuais queimadas que consomem o capim seco do entorno (o capim é roçado de tempos em tempos, principalmente nas épocas mais secas).

Para pegar a água armazenada, cavou-se uma pequena valeta em forma de escada que dá acesso à torneira. E aí está!

O uso de água da chuva para abastecimento humano ou irrigação é antiquíssimo e pode ser feito de maneiras muito simples. Podemos ver hoje a tecnologia das cisternas no nordeste brasileiro, feitas de ferro cimento, ou em desertos do Oriente Médio, escavadas na rocha.

Fortaleza arqueológica de Massada, no deserto da Judeia, ao lado do Mar Morto. O lugar possui duas enormes cisternas subterrâneas.

Porém, não são apenas as regiões secas que estão preocupadas com água. Moradores de longa data de locais da Mata Atlântica, como Maquiné-RS (onde morei por alguns anos), vêm relatando que suas fontes estão secando.

Visitei uma fazenda nas serras do Rio de Janeiro, onde havia um moinho de cana movido a àgua, mas que hoje usavam motor a diesel. Perguntei prum senhor de uns 70 anos o que aconteceu para que sumisse a água que corria na cachoeira ao lado do engenho. Ele pegou um copo com água, tirou o chapéu e derramou-a sobre a careca. Quando a água parou de escorrer, ele apontou para o pasto no terreno que estava acima do seu e disse: “sem floresta, não tem água”.

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Manual permacultural de terraplanagem

Aqui está o PDF do livro em inglês de Douglas Barnes, The Permaculture Earthworks Handbook – how to design and build swales, dams, ponds, and other water harvesting systems (2017).

Embora o grande número de pessoas e o advento da maquinaria tenham acelerado o processo, a degradação das regiões de terras secas tem levado milênios. As catástrofes do Rio Colorado e do Mar de Aral exigiram ambos projetos de engenharia gigantescos. O esgotamento dos aquíferos exigiu bombas elétricas e de combustível fóssil para retirar água a taxas superiores às da recarga. Prejudicar o ambiente não é assim tão fácil de fazer. É necessário um tremendo esforço concentrado para realmente estragar as coisas. Sim, a humanidade fez uma verdadeira bagunça em grande parte do globo, mas não sem gastar triliões de horas de trabalho e quadriliões de quilocalorias nesse trabalho. Colocando de forma simples: quebrar o planeta é um trabalho árduo.

A notícia realmente boa é que, trabalhando em cooperação com a natureza, podemos desfazer a maior parte dos danos que fizemos. E isso levaria uma fração do tempo e da energia que levou a causar os danos em primeiro lugar. Nunca deixo de ficar surpreendido quando, com o tempo e, uma vez atrás da outra, os sistemas degradados começam a retornar imediatamente após a primeira chuva no local de reparação. A reparação da terra é um daqueles raros casos em que a arrumação é mais fácil do que bagunça. Este livro é sobre os primeiros passos para fazer essa reparação.

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Estratificação segundo o clima

O desenho abaixo foi extraído do vídeo “The Foundations of Syntropic Agroforestry” que é uma breve aula sobre os fundamentos da agrofloresta sintrópica.

Me chamou a atenção o enfoque que Fride Keegan deu aos climas subtropicais e temperados..

Como está simplificado no desenho, em climas tropicais há uma diverisidade e abundância nos vários estratos (emergente-E, alto-A, média-M, baixo-B). Isso acontece devido à intensidade solar alta o ano todo, podendo alcançar o interior da floresta, até o solo. As temperaturas também são altas, o que impede a geada.

Já em climas subtropicais, a intensidade solar é média. Na floresta, o frio castiga as árvores emergentes, fazendo com que os estratos alto e médio, protegidos do frio, mas recebendo boa insolação, se desenvolvam mais. Isso reduz a incidência de luz no estrato baixo, diminuindo também sua abundância.

Nos climas temperados, o frio é mais intenso e a insolação média é baixa. O estrato emergente, muitas vezes adaptado à neve e perdendo as folhas no inverno, possui copas pequenas. O frio atinge os estratos alto e médio, diminuindo principalmente o primeiro. Na parte mais próxima do solo, com abundância de matéria orgânica se decompondo lentamente e com temperaturas relativamente mais quentes que nos outros estratos, se desenvolve rica vegetação.

Esse esquema me fez pensar o seguinte. Essa é uma generalização para florestas naturais. Outros tipos de vegetação, como campos (savanas tropicais ou tundras temperadas), obviamente vão se comportar deferente. Ao meu ver, o fator principal na discussão sobre como os estratos se comportam em relação ao clima, é a altura física da vegetação. A vegetação cria uma camada de transição entre o solo e a atmosfera. O vento, por exemplo, ao penetrar num bosque, desacelera. No campo, essa desaceleração é quase nula. Logo, os efeitos do frio (geada e neve) e do vento (seca) são amenizados pela altura física e densidade da vegetação.

Se temos uma agrofloresta de altura física baixa (com plantas de até 2m, por exemplo), num clima subtropical, é provável que numa manhã de geada, todo o sistema seja afetado. Agora, numa agrofloresta com árvores de 5 ou 10 metros, o efeito da geada provavelmente não será sentido pelas plantas no interior do sistema.

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ComoFazer Compostagem

Quanto colocar de composto?

Complementando o texto da postagem “Matéria orgânica demais“, esse vídeo de Charles Dowding (com legendas em português) mostra alguns de seus experimentos de vários anos: cavar ou não cavar, composto de planta ou com bosta de vaca, composto incorporado ou sobre o solo?

Um detalhe importante: na postagem anterior, Robert Pavlis está se referindo ao uso de matéria orgânica fresca sobre o solo, enquanto Dowding usa composto bem curtido.